A Elisa Bogalheiro fala-nos da Dona Alice na Revista Gerador de Novembro. Agora, publicamos algumas das palavras que trocaram, aqui mesmo ;-)

Sem olhos, nem boca nem ouvidos

Chamam-lhe a aldeia mais portuguesa de Portugal, e de lá do cimo do monte vigia a planície raiana um velho costume herdado de antigas disputas ibéricas. São cada vez menos as gentes que vivem em Monsanto, talvez porque já não faça falta defender a fronteira e porque os outrora perigosos castelhanos são hoje curiosos turistas. Mas, os que lá vivem são rijos e algo sabem sobre o segredo da juventude, como a Dona Alice, que com 86 anos parece não ir além dos 66 e que nunca precisou de pintar o cabelo. Proprietária de uma loja de artesanato no centro da aldeia, tem uma ocupação, que, além de tradição, às vezes parece uma missão.

Dona Alice há quanto tempo é marafoneira e como é que começou?

Eu faço marafonas já há muitos anos, já tenho 86 anos, e comecei a fazer marafonas quando me estabeleci aqui na loja com 22 anos. Mas já a minha avó… As marafonas vinham da minha família, já não sei de onde, já a minha avó que era moleira fazia as marafonas e vinha a vendê-las cá acima à vila. A minha mãe era a tecedeira aqui do povo, tecia e fazia as marafonas e depois eu com 20 anos comecei a vender coisas, a amassar pão e a vendê-lo. Estabeleci-me aqui há 64 anos e comecei a fazer marafonas.

As marafonas que a minha avó fazia mais a minha mãe não eram como as que fazem por aí. Que eu agora também faço de todas, mas não se vêem em lado nenhum marafonas como as minhas, tenho aqui delas que são quase da altura de uma pessoa. E era assim que a minha avó fazia, e eu também.

Antigamente as pessoas para virem cá acima à vila vestiam-se e punham uns aventalinhos bordados que era para virem todas arranjadas cá acima à missa nos domingos… São como os aventalinhos bordados que eu faço para as marafonas. Que são as antigas, as que não são antigas não têm o aventalinho, nem as saias debaixo bordadas.

Mas claro, as pessoas gostavam imenso mas nem todas podiam levar das marafonas maiores e mais à antiga, e por isso comecei a fazer marafonas de mais tamanhos, mais pequeninas. Até ali tenho umas com um íman para o frigorífico. Mas quando as levam eu digo-lhes sempre: “Ó meninas, isto não vai para uma gaveta, se é para pôr numa gaveta não a leve” .

Diz-se que as marafonas estão ligadas à fertilidade?

Olhe, uma vez aconteceu-me uma coisa muito bonita, haverá aí uns 6 anos… quer dizer isto que lhe vou contar já aconteceu várias vezes, mas esta foi especial. Chegou aqui uma senhora e começou a ler a história das marafonas e começou a vê-las, e a senhora tinha 44 anos e chegou-se ao pé de mim e diz-me assim: “Se eu soubesse que isto me fazia alguma coisa… Eu já não há nada que eu não faça para engravidar, já fui ao estrangeiro, a todo o lado e não sou capaz de engravidar… Levava uma marafona”. E eu disse-lhe assim: “Isto também é uma insignificância, se já gastou assim tanto dinheiro também pode levar uma marafona” e a senhora diz-me assim: “Mas a marafona não sou que a escolho, a marafona escolhe-a você, porque é você que faz as marafonas”. E, eu sou uma pessoa honesta, podia escolher uma marafona grande, mas escolhi uma marafonazinha jeitosa que eu achei que era a mais antiga e a senhora levou a marafona. Nunca mais voltei a ver a senhora. Um dia, estava aqui eu ao balcão, entra-me uma senhora com um carrinho de bebé, olhe até estou toda arrepiada, até se me põe pele de galinha, agarra-se a mim a chorar e a agradecer. Era a tal senhora que me tinha vindo a mostrar a bebé. Ao fim de 15 dias de lá ter a marafona engravidou. Palavra de honra que é como lhe estou a contar.

Mas casos desses, de pessoas que já me vieram a agradecer, tenho imensos, não sei se é a pessoa que está descontraída por ter a marafona, ninguém sabe, não é? Não sei se é a marafona que dá, não sei. Mas isto que lhe conto são casos reais.

Sabe como surgem as marafonas, que história têm?

Quem leva uma marafona,  ponho-lhe sempre uma história, nunca deixo ir uma marafona sem lhe pôr uma história, que era a história que minha avó me contava. E diz assim: Monsanto, aldeia mais portuguesa de Portugal. Marafona de Santa Cruz, boneca de trapos feita a partir de uma cruz (primeiro faz-se uma cruz e depois é que se veste). Simboliza a deusa maia, deusa da fecundidade. Não tem olhos, nem boca, nem ouvidos e é deitada debaixo da cama dos noivos, na noite de núpcias para trazer boa sorte e filhos. Deita-se em cima das camas nos dias de grandes tempestades e trovoadas para as afastar. Olhe que é isso que a gente ainda hoje faz, eu acho isto tão real que a gente aqui não tem problemas, aqui no cimo do monte e cheio de penedos, até as pomos à janela e não há aqui problema nenhum. Pronto, a gente não fala do que não sabe, mas são coisas que acontecem assim.

Ela não pode ter olhos, já não sei de onde é que veio, já a minha avó o dizia, que era deitada debaixo da cama para dar sorte, mas não pode ter olhos, nem boca, nem ouvidos que ela não pode falar, a história está gerada no que me contava a minha avó. Eu já vou fazer 86 anos, e já vinha da minha avó, isto já deve ter uns 200 ou 300 anos quase.

Dona Alice, com esse apecto tão jovem se calhar tem um bocadinho da sorte que lhe trazem as marafonas? Se calhar são as suas amigas secretas?

Olhe eu não tenho cuidado nenhum, porque tenho sempre que fazer, estou sempre ocupada. Nem um bocadinho de creme tenho vagar de pôr na cara. Todas as pessoas mo dizem, já tenho ido buscar o bilhete de identidade para não ficar em mentirosa. [Risos.] Nunca pintei o cabelo, e cada vez que vou arranjar o cabelo a cabeleireira até me diz que custa mais a arranjar o meu que o de meia dúzia de pessoas. [Mais risos.] Talvez sejam elas, não sei. [Gargalhadas.] Elas não falam, não dizem. Eu gosto muito de as fazer. Elas são muito bonitas. Até lhe digo mais, se você chegar aqui e está assim a ver a marafona e aventar com ela (eu não o vou fazer) e a marafona cair, parece que me dá um choque cá dentro.

Tem uma ideia de quantas marafonas já fez na vida?

Ai, filha, nem de perto nem de longe, mais de muitas mil. Ainda agora uma senhora daqui levou 11. E vão para todo o mundo, no outro dia esteve cá uma senhora que era do Japão e também levou e gostou tanto que me escreveu uma carta, que tenho lá em cima no quarto, que não a vou lá agora a buscar, mas até me mandou umas fotografias que aqui tirou comigo e uns papelinhos que a gente abre e são uns passarinhos. Passa por aqui gente de todo o mundo. No outro dia passou-se aqui uma parte muito engraçada, estava eu aqui e tinha ali três marafonas daquelas grandes, e chega aqui um estrangeiro, um homem, entra pela porta adentro, chega além, tira uma marafona daquelas grandes, pousa-a aqui no balcão, esteve a pagar a marafona e quando pega nela diz-me assim: “Esta hoje vai dormir comigo” [risos] e tocou a andar com ela para o estrangeiro. Ele disse-o na língua dele, mas eu percebi.

 

Entrevista por Elisa Bogalheiro, a nossa autoridade local na Beira Interior.

A Autoridade Local é uma rubrica da Revista Gerador onde vamos à procura daquilo que de melhor se faz na cultura portuguesa. Mas quem somos nós para o dizer? Pedimos, por isso, ajuda àqueles que sabem mesmo da região onde vivem.

Ilustração de Sérgio Veterano.

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