Joana e Leca Leal
A Cátia Terrinca, nossa autoridade local no Alto Alentejo, entrevistou a Joana e o Leca Leal, autores de Elvas que nos contam sobre sobre a influência das suas raízes na sua arte ;) Vê tudo aqui:

Esta entrevista foi feita com os dois à camilha da sala de estar, na Rua de Alcamim. O calor guardou-nos as pernas e fazia esquecer que as horas passavam, enquanto nos conhecíamos melhor. Por fim, as cinco perguntas, concretas, às quais acabou a Joana por ir respondendo. A Joana tem palavras mais imediatas. O Leca demora. Fala com se escrevesse, precisa de mais tempo para que a conversa possa escorregar e, sem querer, estender-se por anos a fio. Ao falar com os dois, é a voz dela que sobressai e encadeia o discurso – a dele, sub-reptícia, vai deixando escapar um comentário aqui e ali. Uns dias depois, regressámos à conversa (como se tivesse ficado suspensa). Falámos do nosso fado. O Leca disse-me que ‘o povo português está vocacionado para se deixar abater e pensar que tudo acaba em desgraça.’ e mostrou-me um poema, que passou a fazer parte da entrevista, se assim a liberdade de rescrita mo permitir:

Que é a arte-sã-nata?
Joana: A arte-sã-nata… é a arte que é sã, pura (nata também quer dizer pureza). É a pureza da arte… eu gosto muito de dizer arte-sã-nata porque gosto de criar coisas que sejam diferentes, puras… únicas.

Qual é a coisa mais bonita que as tuas mãos já fizeram?
Joana:
O que fiz mais bonito de tudo é a minha “RAÍZES”… uma peça que fala das gentes que já passaram pela minha vida, fala da sociedade… Pelas raízes imagino os meus pés quando tinha aquela gente toda de roda de mim a ensinar-me… Acho que me vinha pelos pés um calor até cá acima, um calor que vinha daquilo que aprendia. Aprendi com eles! Sim, talvez seja essa a peça que mais gostei de fazer até hoje. É que tenho ali toda a gente que passou pela minha vida… tenho a descrição dessas pessoas, o jardim que foram para mim. Acho que foram essas raízes que deram a Joana que aqui existe. A peça, em si, é uma cruz alegre, feita toda em crochet, com várias técnicas diferentes e com lantejoulas e peças brilhantes nas raízes – querendo dizer que essas pessoas me deram brilho à vida. Depois, o sangue vermelho na parte inferior da cruz, a tocar o negro da sociedade – porque a sociedade nunca entendeu bem essa gente. Mas depois, além do negro, a peça tem flores, fuxicos, é uma alegria… como se fosse um jardim que tivesse ali. E, no fundo, bem lá do alto da cruz da alegria, sai uma espiral. Essa espiral, tal como lhes prometi (a eles, que me ensinaram), seria elevada se um dia eu pudesse transmitir aquilo que eles me transmitiram a mim. No caso, como ainda não tive essa possibilidade, a espiral continua caída.

O que é que as tuas mãos querem ainda fazer?
Joana:
O que ainda está destinado às minhas mãos… gostava de poder ensinar aos mais novos! Gostava que as pessoas entendessem bem o que é que é a arte dessa gente por quem eu nutro respeito. Gente humilde! Quando falo de gente humilde, não falo só de gente pobre, porque aprendi muito de arte com pessoas de todas as classes sociais. Gostava de fazer um trabalho que possibilitasse aos jovens estudarem o porquê destas tradições. Agora, por exemplo, continuo a desenvolver o trabalho da Passadeira… é uma passadeira de gente que passou pela minha vida, por isso também tem várias técnicas diferentes. Há coisas feitas por pessoa que fizeram uma peça e ma deram, outras peças foram-me dadas por terceiros, há outras coisas feitas por mim… Esta passadeira nunca terá fim. No dia em que em que eu morrer, a passadeira vai estar ali sem estar rematada. Ao não lhe dar remate, o que eu quero dizer é que quero que a arte não tenha fim. Que fiquem ali cadilhos, fios, rendas, um bocado de trapo… não quero é que fiquem acabados.

O que é, para ti, o nosso fado?
Joana: É a saudade. Vem-me logo a palavra saudade. A palavra amor também, mas saudade, principalmente. O nosso fado é a saudade… pensarmos no passado, termos saudades da gente que se foi, termos saudades de aprender, de ensinar… saudades do mundo se amar como se devia amar. Eu vejo o mundo como está, e gostava que esta saudade se concretizasse, no sentido de ver um mundo de igualdade e amor, sem hipocrisia, sem destruição do planeta. Sem tudo o que estamos a fazer… Eu levo o fado também para estas coisas.

Leca:
Um dia junto ao contentor
Encontrei uma cadeira velhinha
Ainda no seu esplendor
Faltando-lhe uma perninha.

Trouxe-a a seu pedido, para a poder tratar
Sentindo a sua dor, a dor do maltratar.
Pegando nela, na minha casa a acolhi
Desligada já do sítio onde a chorar eu a vi
Riu-se de alegria
Quando a luz na minha sala de poesia.

Foi tamanho asilo.
Tendo eu feito aquilo
Desta cadeira encontrada naquela esquina
Levei-a e tratei-a na minha oficina.

Não a levei para a Segurança Social, ou Hospital
Eu não lhe queria mal.

Ela que tantos cus serviu
E tantos pedidos ouviu
Merecia um valor assentado.

Morreria, sim!…
Mas tratada por um médico carpinteirado,
Reformado.

Teve mais sorte aquela cadeira
Que muitos idosos, atirados para
A prateleira, lixeira, contentores,
Ainda com valor dum carpinteiro doutor,
Que lhe desse outro fado.

Há alguma pergunta que gostasses de deixar para sempre sem resposta?
Joana: Vamos realmente amar-nos todos, uns aos outros? Mas será que vamos? Eu não quero realmente que ninguém me responda! Quero o ato, em si, sem palavras. Quero que cada um tenha a paz de espírito de amar o outro, sem lhe responder.