Quem fala assim não é virgem, é Virgo

Uma conversa com Diogo Albino, o homem por detrás dos vinhos alentejanos Torre do Frade e Virgo

Para começar, conta-nos a história de Torre do Frade.

A história começa em 1380. Na altura, a propriedade chamava-se Torre do Curvo e estava dividida em duas, pela ribeira que nós chamamos o Tira Calças: a Torre do Curvo de Cá, que ainda hoje se chama Torre do Curvo, e a Torre do Curvo de Lá, que é hoje a Torre do Frade. O dono da exploração agrícola, Vicente Martins Curvo, morreu de peste em 1384 e doou as explorações aos Eremitas da Ordem de Santa Cristina, que implantaram dois mosteiros. Os monges da Torre do Curvo de Cá eram mais conservadores e seguiam à letra tudo o que tinha ficado estipulado: rezar missas diárias ao doador, etc. Os monges da Torre do Curvo de Lá eram franciscanos, mais liberais, e deixaram de o fazer. E mudaram o nome de Torre do Curvo de Lá para Torre do Frade. Isto passa-se tudo algures entre 1380 e 1830.

Os frades duram muito tempo…

Exacto. Foram passando de geração em geração até chegar o liberalismo. Foram expulsos em 1834 pelo Mata-Frades, o António Augusto de Aguiar, e as explorações foram divididas e vendidas em hasta pública em 1839. A parte de cá foi vendida a uma família de Elvas, os Bagulhos, e a parte de lá a uma família de Estremoz e Veiros, os Maldonado Cortes. A minha família vem dos dois lados, mas onde começa a nossa história é do lado de lá, de Torre do Frade. A segunda geração não teve filhos e os herdeiros adoptaram a filha mais nova da irmã da mulher, que era a minha avó materna, Maria Ana Cortes Bagulho. Como a minha avó se tinha casado com o descendente da Torre de Curvo, quando os meus tios morreram, ela herdou a Torre do Frade e juntaram-se as duas propriedades. São cerca de 3000 hectares. É uma exploração agrícola média-grande, a 300 metros de altitude, de solo sobretudo xistoso.

Quando é que começa a história do vinho?

Os monges já tinham vinho. Temos alguns livros que registam isso. Só não fazemos ideia onde. Mas antes do vinho, o core business é a criação de gado para a Carnalentejana. Temos muitos cereais para complementar o ciclo da pecuária, assim como cortiça e azeitona. Na óptica de diversificar áreas de negócio, investimos em vinha, inicialmente só para vender uva. Nós fazemos tudo com o pelo do cão, com capital próprio, e como o dinheiro nos custa muito a ganhar, não fazemos maluqueiras. Temo-nos focado muito na produção de matéria prima e não em trabalhar produtos finais. Foi com naturalidade que nos instalámos como produtores de uva. Primeiro com 23 hectares, e depois 30. O vinho nasceu 4 a 5 anos depois de termos plantado as primeiras vinhas, em 2004. Faz 10 anos este ano que lançámos o primeiro vinho. A entrada no negócio do vinho foi incentivada pela rapaziada mais nova. Sugerimos aos mais velhos fazer uma marca de vinho como um cartão de visita para os nossos parceiros de indústria. Como o meu pai sempre gostou de vinhos, eles acharam que era uma boa ideia. Fizemos um plano de negócios e chegámos à conclusão que fazia mais sentido apostar numa gama alta do que começar por baixo, porque nunca iríamos investir em adegas e afins, tanto pela pressão como pelo risco. Contratámos o serviço de adega e criámos um produto premium, ou ultra-premium, os nossos topos de gama. O Torre do Frade começou com um Reserva em 2004 do qual fizemos 4000 ou 5000 garrafas.

Esse vinho ainda existe?

Sim, mas só para a família. Não vendemos. Abrimos uma garrafa de vez em quando lá em casa para provar. Das colheitas que vendemos, geralmente guardamos 500 garrafas para a família. A nossa filosofia é: crescemos à medida que a procura aumenta. Se não há procura, não aumentamos. Por isso é que o nosso crescimento é mais lento. É quase tudo pré-vendido, mas também porque nós trabalhamos muito a marca.

A tua paixão pelo vinho está-te então no sangue?

Eu tive um problema na adolescência com vinho de pacote e garrafões… e não adorava vinho. Só comecei a gostar quando me meti nisto e a fazer cursos de prova. O vinho é fantástico porque é uma matéria muito subjectiva que está em constante mutação e estás sempre a aprender. Se deixares de provar com alguma regularidade, a certa altura percebes que perdeste imensas capacidades e que tens de as recuperar. Fiz cursos de vinho até chegar ao nível máximo, e depois o curso de escanção. Na minha opinião, o vinho é uma commodity sinestésica. Há vinhos bons em todo o lado. É um bocado indiferente. Só que eles brincam com os nossos sentidos, sentimentos e emoções. O ser uma commodity é bom por ser acessível, mas também é mau porque pode banalizar. A diferenciação está no preço e essa é uma guerra em que nós não queremos de todo entrar. Para lutar contra esta lógica tens de trabalhar marca. Não tendo nós rios de dinheiro para investir em marketing e publicidade, trabalhamos com ideias maradas que consigam perpetuar isto através de ondas de choque. E temos vindo a conseguir fazer isso. Começámos com os nossos topos de gama, que não têm cápsula e mostram a rolha ao natural. Optámos por utilizar uma gravata que à frente diz rolha de cortiça natural, e no verso afirma a nossa crença de que a rolha de cortiça natural faz parte da essência do vinho. Além disso, acreditamos que nós, portugueses, temos de proteger aquilo que é nosso. A cortiça vale 2,5% do PIB. Não é uma questão de preço. É uma questão de princípio. Com esta brincadeira fomos capa e página central do Jornal de Negócios, e saímos também no Expresso. As nossas ideias são sempre para conseguir ter impacto na imprensa. E o Virgo não fuge à regra.

Como surge então o Virgo? É o teu filho dilecto?

O Torre do Frade já o é. Fui eu que fiz todo o marketing da marca. Só não é o meu filho directamente porque em termos de perfil não fui eu que o desenhei. O Virgo nasce de um desejo pessoal meu de maximizar o potencial interactivo. Desde o início que imaginei uma segunda marca que maximizasse esse potencial. O primeiro esboço desenhou-se quando, em 2006, tivemos uma colheita que eu achava que não tinha qualidade para ser Torre do Frade. Nessa altura chamava-se Para. O rótulo era branco e a ideia era que o vinho fosse oferecido Para alguém. O Para durou até eu me aperceber que ninguém ia guardar 30 garrafas em casa só porque escreveu no rótulo. Entretanto, esse vinho de 2006 foi aprovado pelo comité familiar para ser Torre do Frade, contra a minha vontade. Mas foi um sucesso de vendas porque era um vinho muito fácil de se beber. E eu acabei por não poder experimentar a minha marca criativamente. Dois anos depois, em 2008, eu e o meu pai fomos a um fórum mundial do vinho na Rioja, em Logroño. Nos módulos de economia e marketing assistimos a duas palestras marcantes. A primeira foi de um inglês, Director da Câmara de Comércio Hispano-Britânica, que disse que a marca não interessava nada no mercado britânico. Apenas o preço. Com 80% das vendas feitas em retail shops e 60% desses 80% em promoções. Nesse momento fez-se-me luz e nasceu a marca No Brand. Entretanto, na segunda palestra, um americano afirmou peremptoriamente que o vinho é totalmente experiência. Porque quando vendes uma experiência, o cliente não só vai querer experimentar, como vai querer repetir. Como acontece com as castas, misturei as palestras dos dois e cheguei à ideia de fazer um vinho sem marca, mas que tivesse marca, porque quem marcava o rótulo era o consumidor. E essa experiência tinha de ser destacável. É nesse fórum que surge o primeiro desenho do Virgo, se bem que nessa altura era ainda NB No Brand. Comecei a testar a marca e percebi que a ideia não era boa, porque os portugueses não gostam de acrónimos e de inglesismos. Em brainstorming familiar andámos por Tela e Espelho, entre outros, mas isto tinha de ser uma coisa exportável e portanto pronunciável lá fora. Em plena CRIL, a caminho de casa, veio-me à cabeça a palavra virgem e tive uma revelação. Mas continuava com o problema da pronúncia e em inglês o Richard Branson não ia dar hipótese. Fui então ao latim e assim que disse Virgo…

…nasceu finalmente o teu vinho interactivo?

A nossa ideia é ter insights de momentos de consumo na garrafa. Bebes o vinho, tiras o rótulo, pintas, desenhas, fazes o que quiseres, e idealmente partilhas connosco nas redes sociais. A mecânica de funcionamento do rótulo é muito mais fácil de perceber agora. Sobretudo porque se destaca muito mais facilmente.

E está a resultar?

Está a resultar e está a crescer. Estamos agora com um projecto para fazer uma gama de entrada que se vai chamar Petit Virgo. Porque o Virgo 2011 chama-se Family Edition. Este é um mercado com uma enorme pressão comercial e tu só consegues fluir comercialmente se tiveres um portfólio mais completo: gama de entrada, gama média e topo de gama. Isto é o que os nossos distribuidores pedem.

Qual é a relevância da identidade alentejana neste projeto?

É muito importante porque temos uma maneira de estar especial. O mesmo cuidado que tivemos com o rótulo, temos com os nossos fornecedores. Tento sempre escolher e dar uma hipótese aos fornecedores daqui, sejam transportadoras ou gráficas. Nós só nos diferenciamos nos vinhos pela forma como nos relacionamos com os nossos clientes e por termos estas maluqueiras na comunicação. E eu vivi grande parte da vida em Lisboa. Nunca andei à escola cá.

Andar à escola é uma expressão muito alentejana.

Sim. Eu vinha cá todos os fins de semana e todas as férias, e trabalho no monte desde os 8 anos a apanhar fardos no Verão e a dar palha às vacas. Nós temos um sentimento de pertença e ligação muito grande com a terra. Nós vivemos a terra. É diferente dos sem terra, como nós chamamos aos que compram uma herdade e vêm para cá viver. Essa paixão que nós temos é sentida pelas outras pessoas. É intrínseco. Não forçamos nada. E antes do vinho, já era assim com a Carnalentejana, de que o meu pai foi o grande mentor. Ele está 50 anos à frente do nosso tempo. Tem um espírito associativista como não há igual. Eu e os meus irmãos é que andámos a fazer degustação da Carnalentejana por este país fora. Não tive fins de semana durante 5 ou 6 anos. Aprendemos a dar ao litro desde pequeninos.

Voltando aos vinhos, tenho um amigo conhecedor que me disse que em Estremoz estou sentado provavelmente numa das melhores regiões do país da actualidade. Há alguma verdade nisso?

Esta zona daqui até Portalegre é muito diferente do resto do Alentejo. Conseguimos produzir vinhos que o resto do Alentejo não consegue. Primeiro porque já temos alguma altitude. Depois porque os vinhos desta região são mais frescos, têm uma acidez mais elevada. Conseguem ser vinhos mais equilibrados. Os alentejanos alentejanões, de Évora para baixo, são mais encorpados, têm muito açúcar, e tornam-se mais enjoativos. Os nossos vinhos Torre do Frade têm perfis muito elegantes e são muito bem afinados. Não deixam de ser complexos e estruturados, mas não são aquela bomba calórica e aromática, que enche a boca e tu bebes dois copos e ficas enjoado. São vinhos para comer. Quem aprecia vinho adora esta região do Alentejo. Se tiveres com um connaisseur, ele diz-te logo que a melhor região é a de Portalegre. E Estremoz está com um potencial gigante. Tens 4 ou 5 projectos com uma qualidade incrível: a Quinta do Mouro, a Adega do Monte Branco, o Tiago Cabaço, o Explicit e o Implicit…

Como é que decidem anualmente, quando fazem a colheita, que isto é Virgo e isto é Torre do Frade?

Fazemos logo uma escolha prévia e um controlo de produção na vinha. Sabemos exactamente quel é o espaço reservado a cada uma das marcas. Para o Virgo trabalhamos para cerca de 8 a 10 toneladas de uva por hectare e para o Torre do Frade à volta de 4. Isto é uva que deitas ao chão. Neste caso do Torre do Frade, era uma vinha que à partida podia dar 10 toneladas, mas chegamos lá com uma tesoura e mandamos 6 toneladas para o chão, em verde. A lógica é que a mãe, a árvore, em vez de trabalhar para 10 filhos, ou 10 cachos, trabalha para 4. Ao fazermos isso, esses cachos ficam mais vigorosos, mais valentes, mais estruturados, têm mais tanino. Esta é que é a diferença entre o Virgo e o Torre do Frade. O que faz do Torre do Frade um vinho com maior capacidade de envelhecimento. Só o pomos no mercado passados 7 ou 8 anos. Agora estamos a beber o de 2007. Só o branco é que sai todos os anos, mas não devia. O problema é a pressão dos jornalistas, que dizem que os brancos têm de ser logo bebidos mal saem da vinha, porque senão perdem a frescura. É o que se chama, como nós dizemos, beber os vinhos de gaiola. É mau em termos de pressão de vendas, porque tenho casos de restaurantes que já não me compram o branco de 2014, só o de 2015. O Torre do Frade branco fermenta em madeira e só devia sair um ano depois. É um absurdo, mas como se vende todo temos de o pôr cá fora. É bom do ponto de vista comercial, mas não do produto. O que está mesmo no top agora é o de 2013. Temos de aprender a viver com isso…

Para acabar, falemos agora em comida, já que estamos à mesa no Alecrim (Estremoz). Com o que é que acompanha bem o vosso vinho?

A diferença do Virgo para o Torre do Frade é que o Virgo é um vinho mais versátil, com um corpo mais magro. Não é tão estruturado, mas tem acidez suficiente para ir à mesa. Tanto dá para welcome drink como para petiscar, mas consegue sentar-se à mesa com comida séria. O Virgo branco, por exemplo, vai espectacularmente com secretos grelhados, com peixe grelhado.

E aquela velha máxima de que o tinto vai mais à bola com carne e o branco vai mais à bola com peixe?

Esquece isso. O que tem é de haver um equilíbrio entre a untuosidade do prato, da iguaria, e o potencial do vinho de limpar a boca dessa gordura. Se tens um vinho com muita acidez e estás a comer uns secretos com imensa gordura, o casamento é perfeito. O Virgo branco também acompanha bem coisas muito mais leves: pizzas, saladas, massas, marisco, sushi… O Torre do Frade viognier branco aguenta até peixe no forno, cabrito, coisas completamente fora da caixa. Quanto ao Virgo tinto, consegue acompanhar carne grelhada tranquilamente, porque tem alguma estrutura, assim como risoto de cogumelos, arroz de pato, arroz de polvo, ou bacalhau. Só não tem estômago para pratos que sejam demasiadamente opulentos, tipo marinadas de 48h em vinho tinto e vinagre. Uma perna de borrego assada no forno rebenta com o Virgo. O mesmo para um pargo no forno com pimentos. Coisas que tenham condimento a mais. O Virgo é para cozinha honesta, ou como dizem os espanhóis, cozinha sencilla. Fica com esta imagem: para os Virgos pensa na cozinha da tua mulher, do dia-a-dia. Para os Torre do Frade já é a cozinha da avó, mais condimentada.

Entrevista por Vasco Durão

Ilustração por Sérgio Marques