A Sara Fernandes é a nossa autoridade local no Algarve. Na Revista Gerador #8 falou-nos do Rui Penas, responsável pelo grupo Ao Luar – Teatro Regional da Serra do Caldeirão.
A ilustradora Lígia Fernandes deu vida e cor ao Rui, nesta linda ilustração ;-)

“Ao Luar Teatro”. Qual a origem do nome e do conceito?

“Ao luar” surge como “Ao Largo”, à luz da lua, na rua. O romantismo da lua e a vontade de fazer teatro sem telhado, dão-nos uma corrente mono ou trifásica e fazemos teatro.

Das estórias da História qual delas vos marcou mais? Aquela que consideraram obrigatória a sua adaptação a uma peça?

A lenda de Cássima anda connosco há 5 anos, já teve 4 elencos e 3 versões diferentes: uma de palco, uma de rua e outra em carroça para mercados medievais.

Este é um território muito rico em tradições orais. Vamos beber informação a Francisco Xavier de Ataíde Oliveira, homem notável que recolheu em livro diversas tradições e lendas do Algarve.

A pesquisa é a fase mais importante. Trabalhamos textos desde Aristofanes a António Aleixo ou Cândido Guerreiro. Adaptamos sempre os conteúdos ao nosso público.

Neste momento, estamos a trabalhar um espectáculo de Al-Mu’tamid. Foi Governador de Silves, Rei Taifa de Sevilha e um dos poetas mais importantes do al-Andalus.

O que é que vos atraiu/atrai na serra do caldeirão?

Atraiu a natureza. O território virgem. Preferimos a digressão e a dificuldade. Não há muitos locais no mundo como este. Há muita simpatia nas gentes.

Muitas vezes vocês levam a cultura a quem não tem acesso a ela. Qual é a sensação de trabalhar para um público envelhecido e em locais por vezes esquecidos?

É o gosto pela digressão e de viajar, chegar a um local e não saber quem vai ver o nosso espectáculo dos 8 aos 80 anos. Por vezes, é a primeira vez que vêm teatro.

Sabemos que assim que abrimos a porta da carrinha, tudo será diferente nas seguintes 8 horas nessa aldeia.

Os primeiros a chegar são sempre as crianças e os “malucos”.

Vocês são um pouco como o Dr. Gaspar*: demonstram o poder curativo do teatro. Concordam?

Estas pessoas sempre estiveram isoladas, mas hoje em dia estão mais cientes da sua solidão.

Nós trabalhamos na aldeia e para a aldeia. Gostamos do trabalho de rua e de improvisar. Fazemos intervenção cómica, musical e política através de uma forte interacção com o público.

Não somos pedagogos, mas gostamos de pedagogia. Vai além da moral do espectáculo, alertas para comportamentos colectivos, respeito pela natureza e pelo ser humano, principalmente junto do público infantil.

*personagem que é um verdadeiro mestre da oratória e um íntimo conhecedor dos remédios milagrosos, desconhecidos pela ciência moderna.

Próximos passos?

“A Furgoneta das histórias” que é o verdadeiro desdobramento da itinerância.

Vamos percorrer várias escolas no período de interrupção escolar com a nossa nova carrinha. Levamos três ou quatro bancos, alguns sombreiros, estendemos o nosso toldo e depois contamos histórias.