O Alex Gamela é a nossa autoridade local no centro do país. Na Revista Gerador #7 fala-nos sobre o João Nito, “um gajo alto que, apesar dos seus 50 anos, tem jeitos de miúdo” que pegou na sua habilidade para o desenho para oferecer uma nova vida a sapatilhas. A ilustradora Carla Carbone deu vida e cor, não só ao João como às suas sapatilhas :-)

Esta é a entrevista exclusiva do Alex ao João.

O que é que querias ser quando fosses grande?

Acho que astrónomo. O meu avô, apesar de ser uma pessoa da aldeia e ter a quarta classe, lia-me, quando eu tinha 5 anos, O mundo em que vivemos e falava-me do universo, do sistema solar. Só que tinha a Física e a Matemática lá pelo meio e isso foi uma desgraça.

Então resolvi ir para Artes, porque tinha algum jeito de mãos e sabia desenhar.

O meu percurso foi interrompido no 11.º ano, porque depois houve outras responsabilidades. Voltei a estudar aos 37 anos para acabar o 12.º, fiz Comunicação e Design Multimédia e formei-me aos 42.

Como é que acabaste a pintar em sapatilhas?

A ideia de pintar em sapatilhas foi da minha namorada: “Desenhas tão bem… Porque é que não desenhas em sapatilhas também?” e até foi ela que sugeriu umas caveiras mexicanas. As pessoas amigas dela viam e gostavam muito. Não pinto só em sapatilhas, pinto também em botas, galochas, etc.

Se vires o site da Metamorfose, temos lá caixinhas com motivos portugueses pintados, temos junk design – desde camas de paletes a candeeiros que são saladeiras dos chineses viradas ao contrário – e fazemos remodelação de espaços.

Há toda uma linha de artesanato moderno que não tem nada a ver com o que se fazia antigamente e que tem coisas espectaculares. Quando passas depois para a produção em massa, algumas coisas deixam de ter o seu encanto. Perde-se a parte personalizada e artesanal da coisa, que é isso que interessa. Se me encomendares umas sapatilhas, sabes que mais ninguém tem umas iguais.

São pequenos nichos de mercado que vêm enaltecer o que de melhor se pode fazer em pequena escala. No dia em que isso acabar estaremos nas mãos dos chineses: tudo igual, tudo tudo igual e uma porcaria que se estraga logo.

Ser igual é uma chatice?

É tudo muito light. Somos umas “marias vão com as outras”, uma carneirada completa, mas isso também é culpa das redes sociais, e modas. Tu vês as miúdas de 16 anos, e andam todas de igual. Cada vez mais estamos numa sociedade formatada e isso chateia-me.

Qual é o papel da música na tua vida?

Aos 18 já tinha começado a ter bandas, ou seja, aquelas bandinhas de garagem, uma pessoa tem meia dúzia de coisas e começa a tocar. A primeira banda foi os Extrema Unção, depois os Tomtom Macoute, M’as Foice, Tédio Boys. Sempre como baterista, fui só vocalista uma vez na minha vida, nos M’as Foice. Estive parado uns 12 anos até ser convidado para tocar nos Tiguana Bibles e depois nos d30.

A música é um complemento, embora eu gostasse perfeitamente de viver da música. Mas em Coimbra é difícil, tanto que os grandes músicos de cá foram todos para Lisboa.

Nunca tiveste vontade de te ir embora?

Aos 50 anos tenho essa vontade, sempre. Se um dia puder sair daqui, saio, sem problemas nenhuns. Até porque já viajei bastante e sei muito bem o que é que se passa nos outros sítios. Portugal é um país óptimo para se viver e Coimbra é também uma boa cidade, mas é uma cidade que está muito morta. E as pessoas são muito estranhas em Coimbra.

Ia para a Austrália. Ou para a Tasmânia, que é o melhor sítio do mundo.

Ainda tens sonhos para quando fores grande?

Claro, e hei-de ter sempre.

Entrevista por Alex Gamela

Ilustração por Carla Carbone