O Terry Costa é a nossa autoridade local nas ilhas, que das ilhas percebe ele ;-)

Na Revista Gerador #8 falou-nos da escritora Carolina Cordeiro. Hoje publicamos a entrevista exclusiva do Terry à Carolina, aqui mesmo. Abaixo. 

Quem é a pessoa por detrás da escrita de Clarice Nunes-Dorval e de Carolina Cordeiro?

Se tivesse resposta direta para essa pergunta, decerto seria uma pessoa muito mais iluminada do que hoje sou. Só consigo dizer que cada um desses nomes representa uma alma apaixonada pela pela palavra e pela Humanidade e que todo o seu entremeio é o resultado de uma aprendizagem de uma mesma pessoa empírica. E, essa pessoa, a que originou a existência metafísica da Clarice e que dá corpo à Carolina, é um somatório de tantas outras que, como dizia Pessoa “não sei quantas almas tenho”.

O que faz com que sintas a necessidade de escrever numa altura em que muito se diz sobre tudo e todos?

Muito se diz, muito se escreve sobre tudo e todos mas muito pouco, em comparação, se faz para todos, em tudo. Acho que é isso que me faz querer escrever: fazer despertar nas pessoas a vontade de fazer algo para engrandecer a vida que vivem.

Eu escrevo, de certa maneira, só para mim. Eu quero-me propor a fazer algo. Eu escrevo porque faz parte de mim exteriorizar as palavras que me correm nas veias. E, ao fazê-lo por mim, faço-o, um pouco, também, por todos. Necessito estar em comunhão com o meu redor. Só assim faz sentido sentir a minha existência.

Se o livro acabasse (como muitos o disseram que ia) o que farias?

Há tanto cimento por esta Terra fora… há tanta telha por este mundo fora. Enquanto houver alma que sinta, haverá palavra que se escreva, imagem que se desenhe, que se pinte e que brote em três dimensões, e haverá livro que se manuseie. O livro não é um objeto “simples”. O seu registo físico é uma ideia romântica; o seu registo digital é uma ideia futurista, mas na pedra é a ideia original. Tudo o que precisamos para um livro existir está ao nosso redor. O livro não acabará enquanto houver vida.

Tens uma visão cor-de-rosa na escrita mas não na vida, ou é vice-versa?

Nem uma nem outra. Visão cor de rosa engana. Aliás, qualquer cor que se tenha na vista, a tapar-nos a visão, é enganadora. Tenho uma visão transparente, esperançosa. Vejo a vida com a realidade com que me cerco e com a qual eu tenho conhecimento de existir. Não tem cores. Ou melhor, não tem só cores. É uma sinestesia de cores, de sabores e de sentires. Por isso, a literatura, vejo-a como reflexo puro e cru da existência do ser humano. Escrevo o que sinto. Sinto o que escrevo e pelo meio coloco a multicoloridade do respirar. A ser cor de rosa, a literatura seria e teria uma visão limitadora do que a vida pode ser ou é. Para quê dar nome a um final quando tudo está agora a começar? A cada instante que respiramos é momento para começar algo. Então, que o façamos de peito aberto sem limitações nem castração de cores. A pluralidade é uma fantástica realidade.

O que ‘e que vais mais ‘a bola?

Com a alma apertada e coração nas mãos, sempre que as papoilas saltitantes se aproximam de uma (e constante) final. A bola sendo redonda vai e vem. Assim como as equipas têm o seu dia e o jogador o seu momento, eu tenho as minhas indecisões, os meus chutes menos bons, os meus ressaltos oportunos ou o meu mui treinado pontapé. Num desporto de bola, o acertar pode ser um autêntico sorteio, uma enorme probabilidade tão credível ou falível quanto o espírito que conduz esse tal objeto redondo.

Eu evito ir, fisicamente, à bola apesar do meu 33º desejo (de entre os 40) seja ver a luz, na sua plenitude, num clássico movimento de rubra paixão contra uma aventura da circular ou contra uma nortenha beleza. Mas, prefiro a comunicação pelo som. Talvez por ter sido, assim, habituada. Um adepto é sempre uma parte de um outro adepto e uma parte de um novo adepto. O ir à bola é um ir à vida num espacinho de tempo, num apertadinho canto do mundo. É poder viver a vida ora num total estado de euforia ora num total estado de desalento. É a vida, como dever ser vivida: ao máximo.

Queres deixar uma mensagem à cultura portuguesa?

Cultura é um termo tão pequeno e, no entanto, engloba tanta, mas tanta coisa… Na minha definição, é um mundo inteiro a descoberto; é uma eterna Ilha dos Amores. É desta ideia de cultura eu tenho saudades. Acho que o séc. XXI precisava muito daquilo a que eu chamo de cultura.

Eu cresci fazendo parte da geração denominada “geração rasca”. Agora, (con)vivo com gerações que estão à rasca. Falo da crise de valores. Valores que se foram perdendo e que não creio voltarem mais. O tempo não pára e não acaba. Onésimo Teotónio de Almeida disse, recentemente, “Nada acaba no fim.” e tem razão: há apenas um principio e uma continuidade. O fim não tem fim: é um processo. Não podemos voltar atrás, não podemos já retirar do passado o que precisávamos para tentarmos sermos mais, no futuro. Temos que caminhar e fazer caminho. Mas tenho saudades das partilhas de estórias dos mais velhos; tenho saudades do tempo em que ler um livro não era coisa rara; tenho saudades de quando as pessoas falavam e nós as ouvíamos. Tenho saudades de quando as pessoas paravam e tinham interesse nas próprias pessoas e no que elas tinham para nos dizer, nos mostrar, nos fazer sentir.

Falo de uma cultura popular que, devagarinho, foi-se transformando numa cultura erudita,  enchendo o outrora “peito ilustre lusitano” e que me engrandeceu. Falo da cultura de um Teatro e de uma Música que nos dava identidade e não nos atacava com estatísticas nem números. Falo de uma cultura onde o estudante sabia o que era o seu País e onde o seu País reconhecia os estudantes que tinha.

Hoje, existe cultura, claro! Nunca vai deixar de haver. Mas é diferente. Não é nem pior nem melhor da minha cultura nostálgica. Mas esta, agora, sinto-a passageira. Como se não tivesse raízes e como se não tivesse tido um porquê e simplesmente aparecesse e que, também simplesmente, mais dia menos dia, fosse desaparecer. Sinto a vida cultural do meu país um pouco vazia por estar “fácil” demais. Poucas são as vozes que agora fazem a ponte entre o que foi e o que pode ser, as vozes que mergulham dentro de si e dão o seu melhor aos outros. Se houvesse recado forte suficiente que chegasse a quem de direito creio teria de ser numa voz bem alta, de um velho do Restelo, com uma Mensagem de “Acorda! é tempo! O Sol, já alto e pleno, / …/ Ergue-te, pois, soldado do Futuro, / E dos raios de luz do sonho puro, /  Sonhador, faze espada de combate!” (A um Poeta, de Antero de Quental).

Entrevista por Terry Costa

Ilustração por João Carola