Fomos, na Revista Gerador #7, à procura do que de melhor se faz na cultura portuguesa. Para tal, pedimos ajuda aqueles que percebem à séria de cada uma das regiões. A Cláudia Ferreira Henriques é a autoridade local geradora no litoral do país. Falou-nos sobre o Gabriel Loureiro, “um aveirense na casa dos 30 que ainda não perdeu a inocência típica de querer mudar o mundo”. Criou a REPA. Queres saber mais? Então lê aqui a entrevista exclusiva da Cláudia ao Gabriel que agora publicamos, acompanhada da ilustração da Maria Vidigal :-)

Afinal, o que é isso da REPA?

A REPA é um projecto que pretende recriar e reciclar novas formas, usando diferentes tipos de materiais e peças ‘indesejadas’. Trocado por miúdos, peças indesejadas são peças ou materiais partidos que, não tendo outra solução aparente, são deitados ao lixo. São peças que alguém decidiu que não eram úteis para mais nada mas que eu considero que podem ter sempre uma ‘segunda’ vida. Eu uso estes materiais e estas peças porque respeito este tipo de matéria-prima. Desde sempre ponderei e reflecti sobre a palavra ‘lixo’, que para mim quase não faz sentido. Afinal, hoje em dia temos ferramentas e conhecimentos que nos dão a capacidade de reciclar quase todo o ‘lixo’ que produzimos.

‘Re’valorizar, ‘r’equacionar e ‘re’desenhar. Os teus 3 ‘r’ ainda fazem sentido?

Não tenho a menor dúvida de que sim. Aliás, fazem cada vez mais sentido. É fundamental sensibilizar e alertar as pessoas para um maior respeito pelos materiais, tentando ao mesmo tempo valorizar novas explorações criativas através de peças que, apesar da sua condição, surgem como úteis e agradáveis.

Provavelmente, para muito boa gente as tuas peças não têm o significado, seja ele artístico ou cultural, que tu vês nelas. O que tens para lhes dizer?

Nada… Este projecto não tem como pretensão fazer parte de uma moda. Surgiu inicialmente pela vontade de explorar a minha veia técnica/criativa e conseguir criar peças funcionais que servem um propósito. A reciclagem é e será, cada vez mais, uma forma de estar social que nos permite trabalhar em conjunto na construção de um mundo melhor. Tudo o que deitas no lixo é realmente lixo?

Consideras-te um autor?

Considero mais a definição de criativo. Definir-me não é fácil… Seria melhor pedir a alguém exterior que o fizesse. O que posso dizer é que tenho uma enorme curiosidade em explorar novos materiais, novas técnicas, ideias e conceitos que abrangem várias áreas criativas. Falo em criativo um bocado como um idiota. Não consigo parar de ter ideias e estou constantemente a arranjar soluções para resolver determinados problemas técnicos, estéticos e funcionais, fazendo uso de alguma criatividade para conseguir chegar aonde pretendo.

Quando eu for grande… Ainda te lembras do que dizias há uns anitos?

Acho que nunca preenchi o final dessa frase. Sabia claramente, desde pequenino, que iria seguir uma área relacionada com o campo artístico. Nunca tive dúvidas disso. Os meus pais estão ambos ligados à área de educação visual e isso também me influenciou. Sempre procurei explorar novas técnicas, novos materiais, novos conceitos. Continuo a sonhar e a idealizar o que ainda está por ‘materializar’.

Ilustração da Maria Vidigal