A Ana Isabel Fernandes é a nossa autoridade local em Trás-os-Montes. Na Revista Gerador #7 fala-nos sobre o Rui Ângelo Araújo, “um escritor que nasceu em Pedras Salgadas e que vive em Vila Real”. Publicamos agora a entrevista exclusiva feita pela Ana ao próprio do Rui, acompanhada de uma bela ilustração da Ana Mendes :-)

Em pequeno, o que é que gostaria de ter sido?

Lembro-me que na infância costumava responder à questão sobre o que gostaria de fazer no futuro dizendo que queria continuar a estudar ou ser cientista (o que talvez seja a mesma coisa). Na verdade, estudava pouco, embora tirasse boas notas, e na adolescência ainda estudei menos.

N’Os Idiotas, o seu livro, há uma certa ingenuidade pelo facto das personagens pensarem que podem viver à margem. É bom, para um escritor, manter esse lado?

É. A respeitabilidade é uma coisa que prejudica muito as pessoas e a sociedade. O facto de nós tentarmos viver na aparência, de nos pensarmos respeitáveis e vivermos enquadrados naquilo que os outros esperam de nós, condiciona-nos. No limite, é um obstáculo à nossa imaginação e à nossa criatividade. Nesse sentido, há pessoas que têm essa postura por ingenuidade mas outras não, têm a plena consciência de que a marginalidade é desejada. N’Os Idiotas, a ingenuidade talvez fosse neste sentido: quererem ter influência na sociedade mesmo estando à margem.

O que guarda dos tempos da Periférica?

Um lado mais adolescente da vida que gostei muito de cultivar e que agora, com os anos, cultivo menos. Na Periférica havia uma certa irresponsabilidade, não perante as obrigações ou as pessoas que nos rodeavam, mas para com a imagem própria. A responsabilidade não era tão importante para nós que não nos pudéssemos autodemolir a cada momento. Fazíamos isso permanentemente e sempre me interessou isso na arte, a capacidade de se estar nas tintas para o que os outros possam pensar. A possibilidade de nos podermos afirmar pelos nossos textos, pelas nossas ideias, pelos nossos comentários. Se havia algo importante na Periférica era a liberdade absoluta. Não tínhamos pejo nenhum em escrever sobre fosse quem fosse, criticar o que quer que fosse.

O lado adolescente extingue-se completamente?

Não. Há pessoas que podem parecer bastante adultas, conseguem isso, mas acabam por ser chatas e desinteressantes. A maior parte das pessoas apresenta um lado adolescente. Algumas têm-no em exagero, o que é um problema, porque a irresponsabilidade em certos momentos da vida em comum não é a melhor coisa. Agrada-me, no entanto, a noção de individualismo. Não se trata de egoísmo, que é algo diferente, mas do individualismo. Mas não, esse lado não se extingue totalmente e ainda bem. O problema é quando se extingue demais, quando deixamos de sonhar, quando deixamos de desejar coisas diferentes.

Mas não cabe à literatura desconstruir o que pensamos por influência?

A principal função da literatura, se é que se pode dizer que a literatura tenha uma função, porque pode ser tudo… Mas a característica de que mais gosto é esta, a de inquietar. No sentido em que nos faz pensar, nos faz descobrir novos ângulos, nos faz olhar para os outros de forma diferente, nos faz olhar para nós de forma diferente. A literatura que não tenha isto, não tenha uma reflexão sobre o que é a condição humana, sobre o que é estar no mundo, não tem grande interesse. A mais interessante é essa. Costumo dizer, e sinto-o com todo o prazer, que sou mais leitor do que escritor. Embora ande a ler pouco porque a vida não está fácil. Mas se tivesse de escolher, escolhia ser leitor sem hesitações algumas.

Como é que se vê quando chegar a velho?

Tenho um sentimento ambíguo em relação a isso. Por um lado, sinto-me bastante adolescente em muitas coisas da vida. Há um certo esforço para me dominar quanto a essa irresponsabilidade (não é este o termo, mas não me ocorre outro agora). Por outro lado, sinto que não vou durar muito. É um bocado dramático, mas não me sinto daquelas pessoas que vão viver cem anos. Não faço ideia. Tento não pensar muito nisso.

Entrevista de Ana Isabel Fernandes

Ilustração de Ana Mendes