O Luís Fernandes é membro da banda portuguesa Peixe:Avião, responsável pela programação do espaço Gnration e do Festival Semibreve, dois projectos culturais da cidade de Braga. O Rogério Nuno Costa é a nossa autoridade local no Minho e, na Revista Gerador de Março, contou-nos tudo sobre o Luís. Agora, nesta entrevista, ficamos a conhecer um bocadinho mais :-)

Qual o papel do Gnration na cultura bracarense? Podes fazer um balanço do que foram os últimos anos de actividade e aquilo que programática e esteticamente o distingue em relação aos demais espaços de programação musical do País?

Acredito plenamente que o Gnration ocupa um lugar único e especial não só na cultura bracarense mas também no Norte do país, pelo seu posicionamento e visão artística, mas também por razões estruturais. Apoiamo-nos programaticamente em dois pilares — a música contemporânea e as media arts —, que por sua vez se desdobram em diferentes tipologias de actividades. Conceptualmente, desviamo-nos pouco destas premissas, mas compensamos com um leque consideravelmente alargado de actividades (performáticas, expositivas e educativas). É um edifício com muitas valências, o que lhe confere um perfil multidisciplinar, e cujas características físicas e estruturais acabam por moldar também a programação que lá acontece. Para além disso, há uma outra imagem de marca (possibilitada também por essas mesmas características do edifício) que é o apoio à criação e a oferta educativa. Este cruzamento reforça imenso a nossa identidade enquanto estrutura cultural. Os números de assistência têm comprovado um crescimento sólido nestes quase 3 anos de programação.

Quais os principais desafios e dificuldades na programação de um espaço como o Gnration? 

Por lidarmos com conteúdos fora do mainstream, temos de nos pôr em causa e de nos reinventar constantemente, para que a nossa mensagem consiga chegar ao maior número de pessoas possível. Somos um espaço formador de públicos e isso implica trabalho e imaginação. Por outro lado, por não termos características físicas, estruturais e técnicas de uma sala de espectáculos ou de museu/galeria convencionais, temos de nos adaptar e de adaptar os espaços para que possamos apresentar a programação da melhor forma possível. A polivalência do edifício pode ser uma vantagem e uma desvantagem…

És também director artístico do festival Semibreve.

De um ponto de vista formal, as características do Semibreve são totalmente diferentes, mas existem alguns conteúdos que se cruzam e que são partilhados entre as duas estruturas. É um evento periódico e fracturante, que veio ocupar uma lacuna que existia em Portugal, tendo criado uma crescente comunidade de espectadores. Talvez por isso tenha funcionado como uma “pedrada no charco” quando surgiu, em 2011. Desde o início que temos apostado em programas pequenos mas de topo, com capacidade para atrair público e imprensa internacional, o que se verifica há 6 edições consecutivas. Provavelmente, sem Semibreve não existiria uma candidatura da cidade de Braga a cidade criativa da UNESCO para as media arts… O festival tem crescido em termos de conteúdos e dimensão, mas de uma forma muito lenta e sustentada. Nos últimos 2 anos, houve um boost considerável em termos de público, mas parte do seu segredo passa por ser um festival pequeno, e é assim que o queremos manter.

Em termos genéricos, como vês o posicionamento cultural da cidade de Braga em relação ao resto do País? O que existe que mereça destaque, e o que falta fazer?

Sinto que a cidade está a caminhar para uma melhor definição e concepção para uma política cultural, principalmente tendo em conta o trabalho que tem sido feito na candidatura à UNESCO e o perfil diferenciador que isso pode conferir à cidade. Se há área em que a cidade tem condições para se destacar é precisamente aquela para a qual está a concorrer. Mas há ainda muito trabalho a fazer, principalmente na formação e sensibilização de públicos. Há uma oferta cultural considerável em comparação com outras cidades nacionais da mesma escala: duas estruturas institucionais com programação regular (Theatro Circo e Gnration) e uma série de eventos de dimensão nacional (Semibreve, Encontros da Imagem, Festival para Gente Sentada), por exemplo. Sinto que falta, contudo, uma estrutura de cariz expositivo de dimensão significativa, pensada de raiz e equipada para albergar exposições de nível elevado. Não sinto que exista nenhuma estrutura que reúna essas características actualmente. Espero que a candidatura à UNESCO possa também ser determinante na criação de um espaço desse tipo.

Existe uma “pronúncia do Norte” no teu trabalho? Ou o facto de seres de Braga (do Minho, do Norte…) não é relevante?

Claro que é relevante. Sou um nortenho orgulhoso e permeável a tudo o que isso implica!

Entrevista por Rogério Nuno Costa, a nossa autoridade local no Minho

Ilustração por Ana Types Type