As Condimentadas Crónicas Semanais de Manuel Luar 

Bem ou mal todos comemos. Saber comer e fazer disso quase uma norma de vida é que pode ser mais complicado. 

O cultor da gastronomia distingue-se assim daqueles que comem apenas para não morrer. É curioso, investiga a razão da satisfação que obtém dos pratos que lhe agradam, entra num restaurante não apenas para comer, mas sim para ter uma experiência de vida significativa.

José Quitério, mestre de todos os que se dedicam a escrever em português sobre estes temas, intitulou a sua obra mais importante “Bem Comer e Curiosidades”. E é por aí que vamos, neste início de conversa e de parcas crónicas semanais. Plagiando descaradamente o meu mentor no título que dou a estas intervenções.

Um projecto de vanguarda cultural como é o “Gerador” entende que “Bem Comer” também é um acto de cultura. E bem.

A gastronomia aplicada é cada vez mais uma forma simbólica e muito eficaz de comunicação, em que é possível apresentar aos outros tradições comuns, passado histórico, costumes e identidades nacionais.

Poucas actividades ditas “ de lazer” transmitem tão bem a alma de um país.

Jean Anthelme Brillat-Savarin o celebrado autor da « Physiologie du Goût” ,e que é considerado o pai da moderna gastronomia, escreveu : Les animaux se repaissent ; l’homme mange ; l’homme d’esprit seul sait manger.

Nesta definição de « homme d’esprit” encontramos a chave para a compreensão deste tema. Ser “uma pessoa com espírito “  à luz do século XVIII em França pode ser hoje entendido idiomaticamente como ser alguém que não apenas tem – e usa – a inteligência, como ainda sabe fazer sorrir os outros com o seu humor.

Inteligência com humor é um dos pilares da cultura social. De facto, “inteligência com humor” é uma das fundações do Projecto Gerador.

Para escrever sobre comidas, restaurantes, tradições, usos e costumes do “Comer em Português” seria necessário exibir alguns pergaminhos emoldurados nas paredes virtuais do escritório do candidato a cronista.

Infelizmente não os tenho.

O que posso dizer é que privei e ainda privo com os melhores especialistas que conheço da matéria. E que já editei (por enquanto) 10 livros sobre estes temas. Mais de 60 000 páginas em português e em inglês, de autores consagrados, desde José Quitério e David Lopes Ramos (que saudades!) a Fátima Moura e Fortunato da Câmara.

É assim que me apresento aos leitores do projecto Gerador e sob pseudónimo, como rezam os cânones! O que prometo é que só opinarei sobre aquilo que conheço e experimentei.

E como qualquer crítica embora pessoal não deixa de ser transmissível, direi bem ou direi mal tentando sempre encarar cada tentativa como uma experiência impressionista global que ultrapassa estar o prato bem feito e de acordo com o padrão da “raça”.

Porque não é possível “Bem Comer” estando mal sentado, sujeito a correntes de ar ou a ouvir discussões entre o patrão e os empregados.

Manuel Luar

10 de Setembro de 2015