Para que serve o vinho “Rosé”?

Esta é uma pergunta capciosa e que desperta o leitor para uma divagação sobre a “frivolidade engarrafada”, como já li serem chamados este tipo de vinhos.

Mas para nós será mais um pretexto para discutirmos harmonias e emparelhamentos.

Todos já sabemos que é possível fazer vinhos brancos com uvas brancas ou tintas, mas que só é possível fazer vinhos tintos com uvas tintas.

Exemplos de vinhos brancos feitos com uvas tintas são os espumantes bairradinos de casta baga, ou os champagnes feitos com castas também tintas (pinot noir, etc…).

A um champagne ou espumante feito exclusivamente com uvas brancas chamamos “Blanc de Blancs”.

Para fazer um branco com uvas tintas não se podem misturar as películas no processo de vinificação, pois são estas que dão a cor ao vinho.

Posto isto, já estamos todos a ver que um vinho Rosé tradicional (sem mistura) só poderá ser feito com uvas tintas.

A cor que lhe é dada pela arte do enólogo tem a ver com a maceração mais ou menos longa e com a densidade dos pigmentos das uvas utilizadas.

A separação do “sumo” e das “películas” faz-se por um antigo procedimento a que se chama “saigner”, a velhinha “sangria” à portuguesa, e que consiste em deixar sair para uma vasilha distinta algum do “sumo da uva” das barricas ou dos depósitos originais imediatamente depois do esmagamento.

Esta operação fazia-se “ao contrário” da obtenção do Rosé, isto é, fazia-se para dar mais cor e concentração ao mosto que ficava no depósito original!

Depois alguém se lembrou de um dia vinificar o “sumo de uva” que tinha sido retirado para o lado e assim nasceu o Rosé!

Atenção contudo à grande exceção a esta regra! O Champagne Rosé é normalmente feito “com mistura”, pela adição de uma pequena quantidade de vinho tinto de “pinot noir” a um vinho branco de base (e que pode ser da casta “Chardonnay”).

Diríamos à moda do Vasco Santana que estes champagnes e espumantes são do tipo “Palhetos”…

Podemos dizer com verdade que qualquer vinho Rosé – exceto o champagne, como vimos – resulta da maceração de uvas tintas que pouco tempo ficam em contacto com a película (pele) e que podem atingir extremos de “palidez” conhecidos como a “pelure d’oignon” por um lado, mas que têm o seu outro limite cromático mais berrante num tom sanguíneo vivo.

Como curiosidade, a nossa casta tinta “Espadeiro” ou “Padeiro”, minhota de gema, é de si já tão “pálida” que permite fazer vinhos rosés extremes de boa qualidade sem grandes malabarismos destes nas adegas…

Os Rosés europeus, sobretudo os franceses da Provença e Côtes-du Rhône, são por norma mais secos do que os norte-americanos da Califórnia.

Alguns dos melhores Rosés do mundo são da Provence, os vinhos feitos de “cabernet franc du Loire”, onde as marcas mais conhecidas serão Tavel e Lirac. Na região da Rioja (Espanha) existe um produtor especializado em vinhos brancos com anos de estágio, e que faz um Rosé, também ele com alguns anos de cave, excecional: Lopez de Heredia, Viña Tondonia

Em Portugal a maioria dos produtores prefere hoje em dia fazer rosés sob a forma de espumante.

Por um lado por causa dos custos da vinificação altos sem contrapartida em preço de venda deste vinho, normalmente identificado como sendo de gama média-baixa. Mas sobretudo pela pouca garantia de “sobrevivência” com boa qualidade que os vinhos rosés dão na garrafa.

Aqui vão algumas recomendações – de norte a sul – de Rosés lusitanos com muita qualidade: Quinta de Gomariz “Padeiro” 2014; Vallado Touriga Nacional, Rosé de 2014; Quinta da Pacheca Rosé 2014; Coleção Privada Domingos Soares Franco, moscatel roxo, Rosé 2014; Monte da Ravasqueira MR Premium 2014; Monte da Peceguina (Malhadinha) Rosé 2014.

Bebam-se sempre jovens e não os confundam com refrescos nem com “bebidas para meninas”, porque têm grau álcool, exatamente como os outros…

São normalmente vinhos de Verão, excelentes para refrescar o palato e que devem ser bebidos frescos mas não gelados. Substituem um aperitivo mais alcoólico e não deixam de dar um toque de irreverência a uma ocasião social.

Harmonizar a comida com estes Rosés é que pode não ser muito fácil…

Mas por sorte existem muitos pratos mais consumidos no Verão e que têm grande dificuldade em ser bem acompanhados pelos vinhos brancos ou tintos ditos “normais”.

Os Rosés são bons para todos os pratos de pasta fresca (quentes ou frios) sobretudo para os que usam e abusam de molhos de tomate; para as marinadas, para as saladas frias de peru, de frango ou de peixe e para as “mayonnaises”, já que tanto os vinhos brancos como os tintos normais “encrespam” com pratos de sabor avinagrado ou que contenham muitos ovos.

Ligam também muito bem com pratos à base de escabeche (peixe ou caça); omeletes ou tortilhas, e com todas as charcutarias e carnes frias.

São igualmente bons com salmão, truta ou espadarte fumados e com uma pizza com anchovas de conserva, feita no forno de lenha à moda antiga, vão muitíssimo bem.

Manuel Luar