A forma como somos tratados num restaurante é importante na repetição da experiência.

De tal forma que alguém – como o vosso escriba – que pedala há mais de 35 anos por estas vielas de Bem ou Mal Comer acaba muitas vezes por se dar como relapso, evitando as novas experiências.

Dever ser este (entre outros) um dos sintomas mais gritantes da idade a instalar-se nas nossas articulações. Perdida a vontade de experimentar, o cota “meia idade” acaba por ir sempre aos mesmos lados.

Porquê?

Porque é bem tratado, porque é conhecido, porque sabem o que come e o que bebe, porque o acarinham e mimam, em suma, porque se sente bem.

Convenhamos que haverá pessoas mais aventureiras do que eu, dispostas a tudo para conhecerem o novo lugar que está na moda, o tal onde aparecem as figuras emergentes da nossa TV, do “fashion set”, da publicidade, da política, do futebol e da finança.

Desejo-lhes obviamente muita boa fortuna e rápida gratificação ( sem segundos entendimentos).

Na minha idade, e depois de ter gastado dezenas de milhares de euros no “treino” (aconchego da minha real barriga), aquilo que desejo é cada vez mais simples: Que não me chateiem, que não me provoquem, que não me surpreendam.

E mais: que o prato listado seja mesmo aquilo que é dito e escrito, que o vinho seja mesmo do ano que está na carta, que a confeção respeite os produtos e a época do ano. Que seja tudo (ou quase) feito ao momento. E – muito importante – que o serviço seja calmo, dedicado, simpático mas nunca invasivo, conhecedor mas sem ser petulante.

Obviamente que quando encontro algum local onde estas variáveis coincidem e ainda por cima se come bem, o que querem que faça?

Vou à procura de outro ainda melhor, correndo o risco de ser enganado? Não! Fico ali. Ponho na lista dos “amigos” e frequento-o sempre que posso.

Para ser sempre bem tratado, não nego que ter algum “conhecimento interno” é importante. E não nego também que tenho retirado até trunfos desses conhecimentos pessoais: mesas de restaurantes “todas reservadas” e que por milagre se abrem ao “Je”, miminhos dos chefes para  o meu prato, e coisas assim.

Nunca deixei de pagar ( coisa que me faria nunca mais voltar) a não ser em casos excecionais. O mais que aceito será um “cheirinho” de whisky no copo.

Mas com estas ideias de velho acomodado vou perdendo a emoção da “caça”… E não é apenas  dessa “caça” em que estão a pensar! Da “caça e captura” das boas novidades que se podem ir abrindo no ramo da restauração.

Bem posso ir lendo as crónicas do Expresso e do Público\Fugas (Fortunato e Moreira fazem um belo trabalho!) sempre a “abrir” nesta área.

Mas quando chegamos aos “finalmentes”, à hora de escolher? Lá vai o gordo cascalense para os mesmos lados outra vez: O Beira Mar, o Solar, o maluco do Pedro da Horta, o Galito, o Jockey, a Tia Matilde…

Por isso estimo as  deslocações à “província”, que me permitem variar. Bem, variar um pouco apenas, porque tudo o que é demais deita por fora. E com as experiências repetidas ao longo dos anos já ali mesmo no “sertão” se descobrem as moradas que devemos repetir: a Adega do Sossego, o Carvalheira, os Castelhanos, a Júlia e a Julinha, o Arcoense, a Tasca do Oliveira, e por aí fora…

Questiono: Esta falta de audácia terá a ver com a idade ? Ou com o necessário aprumo da escolha, agora que o dinheiro está cada vez mais caro  e que não tenho ninguém (como nunca tive) para pagar as contas?

E se for para ir, sentar, comer mal, pagar e nunca mais lá pôr as solas, porque diabo iremos?

Lembra-me esta conversa as minhas aulas de análise de risco que dei no ISCTE, quando associava valores de probabilidade a certas decisões de gestão.  Quanto maior o risco (medido em custo ,  despesa, ou prejuízo potencial) mais alta deveria ser a medida de probabilidade que aconselhava a ação.

Ou, dito por outras palavras: “Se vais ter uma reunião importante de tarde e almoças antes arroz de lampreia, tira a gravata de seda à mesa!”

Há ainda tanta casa boa e conhecida  para comer… Porque é que havemos de correr o risco?

Porque, parece que estou a ouvir o David Lopes Ramos e o Zé Quitério a criticar esta posição demasiado comodista, “quem não arrisca, não petisca”.

E é o caso aqui. Não petiscas mesmo!

Manuel Luar