A Quaresma pode – ou não – ser vivida à séria, com jejuns e abstinências e sermões edificantes.

Sem esquecer que do ponto de vista higiénico e regulador da nossa saúde é admirável termos umas semanas para purgar o corpo (e o espírito) das impurezas que para aqui enfiámos, desde as noites mais afoitas de álcool até às pequenas orgias de cozidos à portuguesa ou de sarrabulhos à moda de Ponte de Lima…

Tendo em atenção a quadra aqui deixo então duas sugestões fora do âmbito carnívoro. Mas como a Quaresma é um tempo indissociável de penitência e de sacrifício, não serão peixes grelhados nem brócolos salteados…

Quem não for natural da zona da Ericeira não sabe o que é a Caneja de Infundice (também chamada “enxúndia” pelos seus detratores).

O  verdadeiro “jagoz” da Ericeira aprecia a caneja (“cação anjo”) com mais dias “de infundice”. Os neófitos devem abster-se sem primeiro saber do que se trata. Eu já comi e gostei. Mas temos de passar pela barreira do cheiro. O travo a amoníaco é forte (tanto mais forte quantos os dias de “infundice”) e detém muitos bravos…

Como se calhar não sabem, explico que a “infundice” é a conservação do peixe em postas previamente salgadas e embaladas em panos brancos, isoladas umas das outras , tudo depois enfiado dentro de uma saca de serapilheira em local fresco, durante um período que pode durar entre 5 e 15 dias. O cação “mumifica” e é a partir daí que se coze, acompanhando com vinho tinto, batatas cozidas com a pele e bom azeite.

Esta a receita a que chamo de “civilizada”. Porque aquelas que os verdadeiros “jagozes” têm gozo em contar aos turistas é um bocadinho diferente…Ora leiam:

Apanhe-se um cação de bom tamanho e fresquíssimo (não sei bem para quê…).
Tira-se a Tripa (também não sei bem para quê…) e
Enrole-se uma serapillheira duas ou três vezes à volta da alimária.
De seguida torne-se a enrolar o “embrulho” da serapilheira em vários jornais ( uma ou duas edições do Expresso são ideais, pelo volume).

Encontre-se um terreno livre de cães e de toupeiras, relativamente perto de casa mas suficientemente longe para não ofender o nariz da família e dos vizinhos.

Nesse terreno faça-se um buraco de cerca de meio metro.
Enterre-se o cação escondido na serapilheira e no jornal.

Aguardem-se 1 a 2 semanas (dizem uns, outros 3 a 4 semanas).

Destape-se o buraco (com o nariz tapado) .

Leve-se a “coisa” para uma garagem (normalmente as mulheres não deixam “aquilo” entrar na cozinha, quanto mais na sala de jantar…) onde já está a mesa posta.
Retire-se o que resta do cação (em decomposição) tempera-se com bom Azeite e Vinagre e…

Coma-se acompanhada de batatas cozidas com a pele e cebolas. Muito vinho tinto para afogar o “cheirete”.

Não sei se lhe chame um prato típico ou antes uma curiosidade etnográfica, sem dúvida originada há muitos anos atrás, para garantir a conservação das vitualhas quando não se ouvia falar de refrigeração …

Mas, por outro lado, também a salga e a defumação das carnes e dos peixes começaram por ser uma resposta humana às necessidades de conservação dos alimentos, e deram coisas comestíveis tão aprazíveis como o Presunto Pata Negra ou o Salmão Fumado…

Enquanto que a Caneja… É só, mas mesmo apenas e só, para apreciadores.

Como sugestão vegetariana trago-lhes a “Kimchi”, prato tradicional coreano.

Foi em Seul que encontrei um prato vegetariano típico que – pelo sabor intenso e pelo odor – me lembrou da Caneja da Ericeira.

A célebre “kimchi”, couves que ficam a “marinar” vários dias dentro de umas barricas de madeira, com diversas especiarias, só depois podendo ser servidas à mesa.

Quando apareciam no prato o aspeto era acastanhado ou avermelhado, segundo as especiarias,  nada que lembrasse a cor natural antes do início da fermentação e sabiam quase que à “choucroute” da Baviera, embora com uma intensidade de gosto muito superior. E picantes à moda do artista cozinheiro…

É ainda hoje um dos pratos nacionais coreanos, existirão mais de 100 variedades formais, fora as outras que são receitas familiares e – correndo o risco de não acreditarem – sabe-nos bastante bem quando é bem feito.

E pronto! Duas sugestões para as Sextas feiras da Quaresma: uma de peixe outra vegetariana…

Tenham paciência que ainda faltam 40 dias para a Páscoa.

Manuel Luar