Já cheira a Primavera! Boa desculpa para falarmos de peixe.

A Costa Vicentina de há muito que tem a fama de ter dos melhores patrimónios piscícolas do País.

Os Percebes, as Lagostas e Santolas, o afamado Sargo da ponta de Sagres, o Pargo legítimo, o Goraz, as Douradas de 2 e 3 Kg, e por aí fora…

Não admira por isso que abundem na zona entre Vila do Bispo e a Vila de Sagres muitos restaurantes que apregoem aos 4 ventos terem à disposição dos passantes estas maravilhas da nossa natureza.

A prudência, contudo, é essencial na escolha dos locais onde amesendamos, sobretudo em Agosto.

Em Portugal – e no Algarve… – Há ainda a mania de que se trabalha em Julho e Agosto para dar para o resto do ano… (não sei se me entendem?)

Temos em Vila do Bispo a Dª Lilita do Café Correia, já de todos conhecida pelas suas idiossincrasias. Com uma comidinha bem saborosa parece que estamos em nossa casa…Ou em casa da sogra se ela estiver com os “azeites”. Cheguem cedo e sejam corteses que não se arrependerão. Em havendo não percam os Percebes de Sagres, rijos e saborosos como em mais nenhum lado.

Mesmo no centro da Vila de Sagres, quase ao lado dos bares e discotecas da zona (Dromedário, etc…) existe já há alguns anos o Restaurante “Carlos”.

Embora ultimamente se decline a sua oferta com base em algumas “italianadas”, era conhecido pelas Massadas de Peixe, Cataplanas e Lulas recheadas, mas tem também peixe fresquíssimo, comprado na sua grande maioria aos pescadores lá do local e que consta sempre na ementa. Para os verdadeiros conhecedores o Patrão Carlos guarda na cozinha uma mesa enorme de mármore com o que chegou naquele dia do mar e está à disposição.

E para as sardinhitas dos santos populares??

Então dou-vos um endereço quase secreto no centro da Vila de Sagres, talvez mais conhecido de espanhóis (que passam palavra uns aos outros) do que de portugueses… Trata-se de uma Tasca tascosa mesmo, chamada Catizé (sabe-se lá porquê). Fica numa pequena rua a uns 100 m do Mareta Beach (pequeno hotel de charme à entrada da Praia da Mareta). Perto do Quiosque, por detrás e paralela à rua dos restaurantes e esplanadas, sempre em Sagres, e vale bem a pena procurar um pouco por ela.

Venham cedo (ou reservem as sardinhas porque estas nunca chegam). O Patrão , já de uma certa idade, está de serviço à grelha, bem no meio da rua e à frente da pequena esplanada da tasca. As sardinhas vêm para a mesa, dose a dose e sem nunca esfriarem…É esta uma comodidade difícil de encontrar noutros locais. Vamos sempre comendo sem esfriar o “material” e vendo as “mininas” a assarem mesmo à frente da nossa vista…

E para terminar em beleza o paradigma dos peixes no forno: o Pargo Assado.

Eu conheço o peixe no prato, mas também de o ver na lota. É certo que os entendidos falam de muitas espécies de peixes parecidos, sempre de bom gosto quando assados no forno, mas Pargo verdadeiramente Pargo (o chamado “legítimo”) só haverá uma espécie: Pagrus, pagrus. Está aí ao lado nas mãos do pescador que o apanhou!

Depois há o Pargo capatão (dentex, dentex) ou Mitra (com uma protuberância na cabeça) também conhecido no Algarve por Pargo fêmea. Deste ainda conhecem os entendidos o Capatão de Bandeira! Há depois o Pargo Africano (pagrus africanus) , o Pargo Mulato ou Pombo (Plectorinchus), e os também muito apreciados Imperador e o Goraz.

Tudo Peixe grandão, vermelhão e estimável para assar com as batatinhas novas, tomate e chalotas…

Aqui vai a minha Receita de Pargo no Forno (ou Goraz, ou o que desejarem, e esteja mais fresco na banca e mais adequado às bolsas…):

Para 6 pessoas contem com um bicho de 3 kg. É costume estimarmos meio kilo por pessoa.

Peçam para vos limparem muito bem o Pargo na banca. Se estiver ovado é ouro sobre azul! Dêem-lhe 3 ou 4 golpes no dorso para melhor o despinharem depois.

Em casa disponham num tabuleiro de ir ao forno e dimensão adequada a “cama” onde vão assar o peixe: em vez de cebola usem chalotas, muito mais discretas e saborosas. Também tomate aos pedaços bem maduro, alho picado pouco. Um alho francês às rodelas fica sempre bem. Deitem azeite do melhor, uma mão cheia de sal grosso gema e 4 ou 5 grãos de pimenta . Por dentro do peixe um ramo de salsa.

Acamem o peixe nesse fundo, virando-o de um lado e do outro. Não usem bacon ou presunto por cima, o que apenas iria disfarçar o gosto excelente do peixe. Sacrilégio!!

Disponham as batatas novas descascadas dos dois lados do peixe (e partidas aos quadrados para assarem melhor) se couberem.

Levem a forno previamente aquecido (230º) durante cerca de 50 minutos a uma hora, tendo o cuidado de ir regando o peixe por cima, com o molho do fundo do tabuleiro, de 15 em 15 minutos.

Nota: É preferível comprarem dois Pargos de 1,7 kg e assarem em dois tabuleiros onde caibam as batatas, do que assar as batatas à parte… Mas se tiver de ser, então façam a “cama” às batatas num tabuleiro à parte tal como fizeram para o peixe…

Eu gosto muito de acompanhar este pargo com batatas com um arroz de pimentos malandrinho, apresentação que era comum no Norte, na Margarida de Leça ou no saudoso Degrau do Castelo.

Para o arroz: façam uma puxada em azeite, cebola picadinha e algum alho. Juntem os pimentos cortados finos nessa puxada, acompanhados por dois bons tomates também picados finos. Acrescentem uma mãozinha de sal (meia ou cheia, dependendo do gosto). Depois deitem o arroz, envolvam no molho, fritem por um minuto e de seguida acrescentem água com um bocadinho do molho do tabuleiro de assar o Pargo, na proporção de 3 de liquido para uma chávena de arroz. Quando estiver o arroz cozido ao dente é tirar do lume , abafar e deixar abrir já na mesa, ao lado do tabuleiro do Pargo assado.

Manuel Luar