Nunca dediquei este espaço exclusivamente a um restaurante. A ideia para a qual fui “co-optado” não era bem essa, embora dentro do espírito da “coisa” coubesse também a referência em causa.

Mas há sempre exceções. E a que abro nesta semana tem a ver com o carinho e o respeito que sinto por um grande Senhor da restauração portuguesa, que faz a 2 Abril de 2016 a bonita idade de 95 anos e continua – como sempre – à frente do seu restaurante: O Sr. Emílio Andrade, proprietário do restaurante Adega da Tia Matilde, casa de bem servir a boa comida de conforto ao gosto lusitano, que fica situada ao Rego, na Rua da Beneficência 77.

Muitas vezes tratamos o Sr. Emílio carinhosamente pelo “velho”.

-“Vamos almoçar ao velho?”

E toda a gente já sabe que o local de encontro é na Tia Matilde.

Não só se trata de uma joia de pessoa, daquelas que se não tivessem nascido teriam deixado o mundo mais pobre, como também e para todos os efeitos “legais”, convém reconhecer que  o Sr. Emílio já tem de facto alguma idade…como dissemos são 95 aninhos…

Do alto da complacência que essa idade lhe proporciona, com a sabedoria a transbordar e o saber fazer no seu métier que é incomparável, o Sr. Emílio nunca está quieto: recebe os clientes na sala. Levanta as mesas, prepara o couvert, aconselha os pratos, serve os vinhos e, quase no final, chega humilde ao pé dos comensais e pergunta em tom baixo:

-“Então como foi? Acha que estivemos bem?”

Nos dias frios e chuvosos de Novembro recomendo uma ida à Tia Matilde. No almoço de Terça-feira tem o Cozido à Portuguesa, um dos melhores de Lisboa, talvez o melhor mesmo. Mas quem não aprecie pode sempre escolher a Canja de Cherne ou Garoupa com ameijoas e espinafres (de cair para o lado!), a Sopa rica de peixes, o Pato corado no forno, o Cordeiro assado no forno, o Coelho também ele assado, e os Bacalhaus. Entre Janeiro e Março, daqui a pouco acaba, a Lampreia (excelente também) e o Sável.

De todas as formas,  e indo lá na época, é crime saírem sem comer o “Marmelo Assado”.

Delícia sazonal que se derrete na boca, de tão tenro. Com o sabor agridoce que não se parece com mais nada, é um ponto final condigno para o almoço, pedindo algum tempo para filosofar, com um “puro” nos beiços e agradecendo aos deuses estarmos vivos e com papilas gustativas a funcionar bem.

“Um puro nos beiços?”

Sim, trata-se de uma casa civilizada, onde há uma sala reservada para fumantes. Desculpem lá o politicamente incorreto…

O meu Amigo David Lopes Ramos amava o Sr. Emílio. Todos os anos tento lá ir nessa época do ano, “ao Marmelo” (como dizemos na brincadeira),  para lembrar quem partiu e saudar quem, felizmente, ainda lá está rijo que nem um pau de marmeleiro!

Num destes dias começámos com pataniscas de bacalhau, soberbas. Continuámos por eirozes fritas com vinagrinho, muito boas, e seguimos em frente com mioleira de borrego mexida em manteiga e ovos.  Para estas entradas juvenis serviu-se (e bebeu-se) um Camarate Branco Seco, agora com alvarinho no lote, que satisfez, limpando o palato para o que havia de vir.

Depois do “intervalo” viraram-se os olhos e as papilas gustativas para a garrafita de Mouchão 2006 já aberta desde que tínhamos chegado. Grande Vinho, a casta alicante-bouschet no seu esplendor em terras transtaganas!

E para ficarmos de igual para igual reparem só no que se seguiu: Canja de Robalo de mar com Ameijoas (deslumbrante!) . Coelho bravo à caçadora  (magnífico de sapidez, molho guloso e pujante). Canónico de apresentação e conteúdos.

Depois de dois dedos de conversa a intervalar voltámos às coisas sérias: Queijo da Beira Baixa e da Beira Alta, ambos curados no ponto certo e sem nenhum toque do abominável frio que estraga o gosto a qualquer um.

Em redor de dois cálices de Lagavullin (o bem amado e iodado whisky de Islay) voltámos à conversa, desta vez sobre uma maleita que vem afligindo o nosso anfitrião Sr. Emílio e que todos desejamos que parta tão cedo quanto for possível.

Porque se há locais em Lisboa com uma grande, enorme, “atmosfera”, este é um deles!

Nota: Os jornalistas antigos do Bairro Alto devem lembrar-se de uma fala de anedota onde um pacóvio que vinha a Lisboa gastar os “contos” se referia a uma rusga no antigo cabaret “Nina”, por cima do S. Carlos, e confundia “ambiente” com “atmosfera”:

“- Ele há locais em Lisboa onde não há atmosfera, sobretudo durante a noite”.

Manuel Luar

Fotografia CML