Tenho com o Marisco uma relação meio esquisita.

Não gostava quando era mais novo e ainda não gosto agora. Sobretudo de marisco grande, tipo Lavagante ou Lagosta. O que me sabe mesmo bem, sendo bons e frescos, são os “percebes” e as “bruxas”. As “bruxas” chamam-se Santieguilhos na Galiza e são um marisco que parece uma miniatura de cavaco, mas de incomparável (pelo menos para mim) sabor .

Quando – nos anos 70 – íamos à Casa Tirano em Alcabideche, o meu Pai alambazava-se com uma santola recheada e eu comia umas sandes de presunto…

Eu saía-lhe barato e se calhar era por isso que me levava mais vezes(!).

Onde comer marisco de qualidade em Portugal?

Não há espaço para falar disso tudo. Uns pontos apenas : a “Antiga Marisqueira” e o “Lusíadas” em Matosinhos, o “Ramiro” e o “Gambrinus” em Lisboa, o “Beira Mar” e o “Porto de Santa Maria” em Cascais. O “Jacinto” na Quarteira.

Todavia tenho uma grande saudade da Açorda de Lavagante que se comia em Leça. Sobretudo no defunto “Degrau do Castelo”. Depois do famoso e agora meio tristonho Garrafão (também de Leça) onde pontificava uma nuvem de mulheres do mar a descascar camarão de Espinho e da Aguda para a Açorda, nunca comi uma Açorda de Marisco tão bem feita!!

Questiona-se há séculos a ingestão de marisco de Maio a Agosto, o que me fez ir à procura das causas desta antiga “injunção”, já conhecida desde o século XV pelo menos.

Dois alunos da  Faculdade de Ciências da Nutrição e da Alimentação da Universidade do Porto têm um blog muito engraçado sobre os “mitos alimentares”. Recomendo.
É o mythusalimentarius.blogspot.com

Num dos seus posts escrevem sobre os meses sem “R” e quais as razões para evitar comer marisco nesses meses. Afinal parece que os antigos teriam razão, já que nesses meses de Verão mais quentes aumentam em número uns “bicharocos” (dinoflagelados, que existem no fitoplâncton) que são imunes às altas temperaturas da cozedura do peixe e do marisco e podem trazer problemas aos estômago e intestinos dos manducantes.

Embora este seja um fenómeno  recorrente sobretudo na América do Sul, por causa das elevadas temperaturas que a água do mar ali atinge no Verão do hemisfério sul e que dão origem às nefastas “marés vermelhas”

Nota: evitem piadas sobre o Benfica sff. Bem basta o que se viu.

Os amigos bascos e galegos concordam, mas sobretudo referem:

” La teoría por la cual se deben descartar los meses que van de mayo a agosto para comer marisco responde al ciclo reproductor de estos crustáceos. Es durante estos meses cuando estas especies se reproducen, por lo que pierden peso, su carne se vuelve más blanda y a su vez pierde sabor.”

Richelieu, sendo rei Luís XIII,  proibiu a recolha de ostras em França nos meses sem “R” (Maio a Agosto). Figuram no real decreto as duas razões:

– As condições de transporte e conservação existentes na época, que provocavam graves (e mortais) intoxicações;
– A intenção de proteger as espécies na época da reprodução .

De notar que as razões ligadas ao impróprio estado do fitoplâncton nas condições descritas, tanto são válidas para marisco como para os peixes, já que ambos têm como alimento as algas alteradas devido às altas temperaturas. Quer isto dizer que quem deseja 100% de garantias nem deve comer peixe, nem marisco, de Maio a Agosto…

A não ser que…consuma animais de viveiro, onde as águas são purificadas!

De notar ainda que embora peixe e marisco possam ser afectados, o grande perigo está nos Bivalves!

O Brasil é um local afectado regularmente, motivo pelo qual as autoridades de segurança alimentar possuem uma política severa em relação a estas matérias.

Estando eu em Moçambique a dar formação, no final dos anos 90,  fui atingido por esta praga da intoxicação por dinoflagelados. Tinha sido convidado para um almoço onde o marisco local foi rei e senhor, na praia de Bilene. Nunca tinha visto camarão e caranguejos tão grandes e em tanta quantidade!

Sem referir as dezenas de lagostas-bebés… E como eram grelhados e servidos com bué de piri-piri nem dava para notar pelo sabor que alguma coisa não estaria bem.

O pior foi quando cheguei ao Hotel. Fiquei 48 horas “isolado” no quarto a Imodium Rapid e UL-250…

Em conclusão: Por aqui, em Portugal e quanto mais se subir para o Norte, menor será esta preocupação com a intoxicação do peixe e marisco devido às águas quentes do Verão. Todavia, estando as temperaturas das águas a subir por via do aquecimento global, nada impede que se apliquem já as precauções normais e de senso comum – frescura dos alimentos, origem conhecida. Evite-se sempre comer bivalves  no Verão,  a não ser que sejam de bancos e viveiros certificados.

Manuel Luar