A especialização passou de moda. Viva a generalização do “saber”!

O universo “bloguista” tem coisas engraçadas. Entre elas, passa hoje por ser o universo dos especialistas nas generalidades! Daqueles que opinam sobre tudo o que mexe. Seja cão, ave, lagarto ou alcabroz!  Será o triunfo  das criaturas que falam de tudo e sobre tudo dão palpites.

Mas é engraçado verificar que nos MCS mainstream também  muita gente parece “saber” de quase tudo – mania talvez começada por alguns politólogos, que discorriam sobre política nacional e internacional, depois passaram para balística e estratégia militar, intérpretes musicais e novos discos chegados ao mercado, filmes e livros, restaurantes e vinhos. E hoje em dia, fatalmente, analisam futebol.

O nosso atual Presidente, paradigma do comentário político, também nos habituou a “fazer uma perninha” noutras áreas do pensamento. Por isso, e como o exemplo vem de cima, tenham paciência…

Nesta continuidade de raciocínio dei por mim a ler nos jornais de referência vários impetrantes a falar de comidas e bebidas sem que para tal exibissem outras credenciais a não ser aquelas que o comum dos mortais também ostenta: comem e bebem.

Alguns têm graça. Embora a cultura mediterrânea das suas origens se desvaneça e damos por eles, aqui em Portugal, aconselhando uma forma prática de cozinhar salmão… E  do mal, o menos, que poderia ser carpa…

Meu mestre Quitério e o David Lopes Ramos de boníssima e saudosa memória, passavam a vida a ler e a estudar. A provar e a discutir as práticas com os melhores cozinheiros. Dissecavam as receitas, procuravam as incongruências, iam atrás na história para encontrar antecedentes, etc, etc… E a Dona Maria de Lourdes Modesto fazia (e faz)   o mesmo , todos os dias. Porventura numa vertente mais prática, em frente aos fogões.

Entendo ainda que esta nova geração de estudiosos escritores sobre o tema Gastronomia está muito bem lançada.  Obviamente que também na vereda do honesto estudo e do trabalho árduo.  Deixem-nos brilhar e dêem-lhes tempo e dinheiro (invistam neles!) para todos ganharmos com isso.

Agora, diletantes – onde me incluo – a opinar sobre estas coisas tão sérias só se admitem na ótica do “utilizador”, daquela criatura que, de guardanapo entalado (ou não) e de talheres na mão, dirá depois de provar o que achou da festança.

E aqui, no veredicto da prova gustativa, olfativa e estética, entendo também que é quem paga (isto é, “o” cliente) que pode e deve falar. Consigo próprio e com os amigos. O que vale é que, sendo eu muito dado ao convívio, tenho amigos que nunca mais acabam…

Feitas estas contas iniciais  e dado que o homem é por sua natureza volátil , incerto, inconstante e volúvel, não me irei embora sem deixar ficar mais uma receita do meu cardápio.

Não lhe chamarei “Tabuleiro de Carne à Preguiçoso” porque era um plágio descarado do meu colega de escola Miguel Esteves Cardoso. Mas aqui fica o “Tabuleiro de Carne à Minha Moda”.

E com muita sorte estão por hoje não me pôr a falar também da Síria, do Europeu de Futebol, e das últimas sondagens eleitorais aqui em Portugal (assuntos ficam para amanhã).

Tabuleiro de Cachaço de Porco no forno

Para 4 Pessoas: 1,8  kg de cachaço de porco, 2 alheiras de Vinhais, 12 batatas médias cortadas em cubos, cebola, louro,  salsa, alho, sal e massa de pimentão q.b. Um copo de Vinho branco e dois bons golpes de Azeite. Pimenta preta moída na altura ou malagueta (a gosto)

Peçam no talho 1,8 kg de cachaço cortado como se fosse para rojões. Temperem de véspera com alho, massa de pimentão, salsa, vinho branco  e louro. Não deitem sal nessa altura porque secam a carne.

Num fundo de um tabuleiro de ir ao forno coloquem azeite do melhor e por cima desfaçam o interior de duas alheiras de boa qualidade, em crú, às quais tiraram a pele.  Depois ponham uma cebola e meia  picada fina, uma mão cheia de sal marinho e alho também picado. Com uma colher de pau misturem bem  tudo.

Deitem as batatas cortadas  e os  bocados  do cachaço com todo o tempero  da véspera e voltem a misturar bem com o que está no  fundo do tabuleiro. Depois de tudo bem misturado em cru deitem pimenta preta (ou malagueta) a gosto, moída na altura, e mais um bom golpe de azeite por cima.

Vai ao forno quente por cerca de 2 horas, tendo o cuidado de ir virando as batatas com um garfo  grande, para que o conteúdo asse de forma uniforme e fique bem louro por cima.

Logo antes de ir para a mesa polvilhem com  salsa cortada.

Podem acompanhar com um tinto novo e vigoroso, com taninos ainda bem evidentes. Porque não um Bairrada Quinta da Dona 2009?

Manuel Luar