No Verão não nos apetece cozinhar. Só de pensar no calor dos fornos ou dos bicos do fogão começamos a transpirar. E se a “horda” familiar é daquelas que sai para a praia às 10h e só regressa às 18h, faz mister ter em casa algo aconchegante para o estômago mas que esteja de feição com a caloraça do meio ambiente.

Quem pode vem para o quintal ou para o terraço petiscar qualquer coisa; quem não pode “abanca-se” mesmo no local habitual, e senta-se em frente à ventoinha de janelas mais ou menos escancaradas.

De todas as formas o que se come nesta altura do ano é geralmente mais leve e dá menos trabalho a fazer do que por alturas do frio.

Um Gaspacho à moda do nosso Alentejo, mas o rústico, sem ser passado até ficar em puré, parece uma proposta bem razoável para entreter o estômago da família nestes dias mais quentes.

Deve haver quase tantas receitas de Gaspacho como casas de família no Alentejo (Alto e Baixo)…Passe embora o exagero, o que quero dizer é que se trata de um prato onde a interpretação livre do “artista” é usada e desejada.

Para organizar as hostes em torno deste petisco comecem por pedir no mercado, na banca do peixe, para lhes arranjarem um kg de carapau pequeno a médio.

Existe agora a mania de não se arranjar carapau pequeno (não lhe tiram a tripa, sobretudo nas peixarias dos hipermercados…). Em consequência, e se têm dedos grossos e desajeitados como eu, vão à praça tradicional onde este serviço continua a ser feito.

Salguem, passem-nos por farinha e fritem-nos muito bem em óleo de amendoim (monoinsaturado como o Azeite, mas mais resistente sem degradação às altas temperaturas).

Depois de fritos deitem os carapaus por cima de um bom pedaço de papel absorvente para fritos (este papel vende-se nas mercearias e parece o antigo “papel pardo”). Podem fritar antecipadamente que dão bem para mais dois dias. Com ou sem escabeche.

Notas sobre fritar bem sem deixar o peixe ensopado: Mais importante que tudo é a temperatura do óleo. Sempre bem quente. O truque é olharem para a superfície do óleo e só começarem a fritar quando aparecem bolhinhas.

Depois é conveniente que tenham perto do bico onde fritam três travessas. À direita do bico de fogo colocam a farinha. E à esquerda, nas outras duas travessas, o papel “pardo” de absorver o óleo. O peixe sai da frigideira para uma delas. Repousa e quando a 2ª dose estiver pronta a saltar do óleo tiram a primeira dessa travessa e colocam na outra onde também está papel absorvente.

Voltando ao gaspacho: na altura de comer partam para uma terrina grande, aos bocados pequenos: pepino, tomate sem estar muito maduro, pimento vermelho e verde. Tudo sem grainhas, pevides ou fios. Acrescentem bocadinhos de presunto bem cortados e sem película.

Entretanto deem uns socos em 4 ou 5 bons dentes de alho, tirem a pele, juntem-lhes duas colheres de sopa de sal e misturem num almofariz.

E vai tudo – a massa de alho e sal mais os vegetais e o presunto – para cima de algumas fatias de pão da véspera (alentejano de preferência) partidas elas também aos pedaços.

Temperem com azeite e vinagre a gosto, um pouco de pimenta e cubram de água fria. Na altura de servir juntem gelo aos cubos e salpiquem com orégãos. Há também quem lhe deite um copo de vinho branco por cima (quantidade para uma tigela grande). Se quiserem perfumar com o vinho façam-no, mas cortem então um pouco no vinagre.

Fica também bem se em vez dos bocadinhos de pão lhe acrescentarem “croutons” na altura de servir – pedaços de pão torrado que se vendem hoje aos sacos em todos os supermercados.

E, está claro, há quem utilize o gaspacho simplesmente como entrada e evite os carapaus fritos…

Para mim uma refeição completa de categoria é ter uma malga de boas azeitonas, dois ou três queijos frescos partidos às fatias finas e salpicados de sal, pimenta e orégãos, uma cestinha com pão escuro, os carapaus ao lado e, no centro da mesa, a terrina com o gaspacho.

Bom Apetite!

Manuel Luar