Já saí mais à noite do que faço agora.

Não por ter “medo” dos assaltos ou até dos controlos do álcool da Brigada de Trânsito (que aprecio como condutor), mas pura e simplesmente porque os ambientes de bares e de discotecas – no meu imaginário da “boa vida” – perderam terreno face a um bom restaurante, entre amigos, onde se possa ainda cultivar a arte da conversação e civilizadamente.

Decerto que a conhecida “PDI” não será estranha a esta alteração dos meus hábitos.

De facto em mais novo eu era muito dado “ao convívio” e tinha garrafa em várias discotecas, bares e outras “profundezas” da noite de Cascais e de Lisboa. Algumas até com nomes de bichos do Jardim Zoológico…

Vem a talhe de foice esta introdução para discorrer sobre uma nova ocupação noturna de alguns “cotas” que substituiu com vantagem o “forrobodó” de antigamente: as provas de vinhos organizadas por alguns restaurantes ou garrafeiras, na presença de produtores e juntando às garrafas uns petiscos para “ir ensopando”.

Nessas tertúlias a conversa civilizada ainda é possível sem que os tímpanos sofram com a interpretação. Pelo menos quando começa a prova, porque lá mais para o fim já nada garanto.

Numa destas ocasiões discutiu-se um mistério da nossa enologia: porque é que em Portugal existem poucos vinhos ditos “de guarda”, que se podem aguentar durante largos anos?

O grande gastrónomo (e criador de vinhos e cozinheiro e muitas coisas mais…) José Bento dos Santos,  a propósito referiu.

” Antigamente ia-se a um grande restaurante para poder provar vinhos que eles tinham religiosamente guardados e que nos iam saber maravilhosamente com a comida adequada. Hoje em dia vamos a um restaurante comer uma comida mais simples e o que se pede é a novidade do Vinho: qual foi o último que chegou? É o mundo em que a gente vive…”

Não só o paladar dos aficionados está mais feito aos vinhos novos e à sua exuberância, poder, corpo e choque olfativos, como também os Produtores – por motivos de MKT mas também de rentabilidade – desataram a fazer vinhos que não são para guardar, mas sim de consumo imediato.

Hoje estranha-se que o “Barca Velha” seja posto à venda 6 ou 7 anos depois da vindima que o viu nascer e, quando o provamos, parece-nos “chocho” ao pé de um “Pintas” do ano passado”.

É o Barca Velha que está “chocho” ou somos nós que privilegiamos o imediatismo e o agrado fácil dos sabores que nos explodem na boca próprios de um vinho novo (e obviamente muito bem feito)?

Um grande Vinho de Bordéus pode ser apreciado 15 a 20 anos depois da vindima. O mesmo se passa com um Vega Sicília de “nuestros hermanos”…

Mas onde está o português, normal apreciador, que tem 2000€ para pagar por uma dessas preciosidades e depois criticar?

E quem, depois de pagar essa fortuna, ousaria criticar? Mesmo que (sacrilégio!) de facto não gostasse?

A beatice reverenda existe também no mundo dos vinhos. Nem sempre o “Barca Velha” será o melhor vinho de Portugal, mas que não se utilize essa observação pontual para afirmar que o seu tempo “já passou”.

Se passou para alguns que desenvolveram o gosto pelos vinhos com outro perfil, não terá passado para outros – grupo onde me encontro – que apreciam sobretudo a variedade de opções.

“Nem sempre Galinha nem sempre Rainha” – como dizia El-Rei D. José ao seu confessor quando este o criticava por umas escapadas conjugais.

Deixem-nos beber hoje um branco amadeirado e encorpado, amanhã um branco leve de citrinos e seco, depois um Tinto novo e poderoso e finalmente um Tinto elegante, macio e pleno de aromas terciários!

Na variedade das propostas báquicas está um dos segredos da qualidade de vida.

Porque a qualidade objetiva e subjetiva de um vinho  que provamos não depende só dele, nem apenas  da comida que o acompanha. Depende em muito de quem o bebe. E como o bebe, e em que condições.

Manuel Luar