Ponho nesta semana à consideração dos leitores a escolha de um restaurante para amolecer credores (e incentivar a exportação).

Amolecer credores (e incentivar a exportação) são temas que estarão muito na ordem do dia se nos fiarmos nos prognósticos dos politólogos (raio de nome). 

Poderá contestar-se que “amolecer credores (e incentivar a exportação)” são temas “macro”, enquanto que a ida a um restaurante é um assunto mais privado.

Vivemos num país onde isso não é verdade. Não há negócio em Portugal (grande ou pequeno) que não meta posta de bacalhau assada ou coxa de pato confitada – conforme a índole do negócio – regados por Vallado 2011 ou Pellada 2011, ambos excelentes e passe a publicidade.

O restaurante de onde o credor possa sair “amolecido” tem que ter algumas características importantes.

Desde logo não pode ser demasiado caro, já que quem convida paga a continha e se a mesma não couber na Avenida da Liberdade (pelo número de zeros) qualquer credor desconfiaria da boa-fé do pedinte.

Ao mesmo tempo tem de ser um bom restaurante, com boa cozinha e serviço. Nada mais aborrecido do que o “emprestador” sair do local a falar com a sua gravata de seda: – “mau pagador e sovina! Onde ele me levou…Nem tinham “Soalheiro”. Miserável”.

Conviria ainda ser um restaurante de bom ambiente e onde esteja garantida a sala cheia. Se a conversa der para o torto, o credor numa casa destas pensa duas vezes antes de insultar em voz alta o seu parceiro de mesa.

Se estivesse numa tasca até lhe atirava com a travessa à cabeça. Mas sendo um restaurante de “bom ambiente e cheio” estamos relativamente protegidos.

Existe na Lisboa velha uma casa deste tipo,  há 40 anos a dar de comer aos passantes de bom gosto e de bolsos razoáveis. Não é uma casa cara, mas também não se trata de nenhuma chafarica onde se vai trocar carapaus fritos por 5 euritos.

É o Solar dos Presuntos, na Rua das Portas de Santo Antão, mesmo pegado ao Elevador do Lavra. Casa de matriz bem minhota, onde se pratica cozinha de Monção. No seu tempo apresentam a lampreia, o sável, o cozido do Minho. Tem ainda uma impressionante carta de vinhos, muito bem organizada e a preços sensatos.

O que mais impressiona – hoje e sempre – neste Solar, é o milagre com que consegue ser uma morada popular e aberta a todos os tipos de gentes de qualquer parte do mundo que nos visita, sem nunca deixar de cultivar a tradicional e rica cozinha típica portuguesa que os tornou famosos junto dos mais exigentes gastrónomos nacionais.

É um local onde tanto se satisfaz meu mestre Quitério  (o que não é fácil) como ainda consegue fazer experimentar o  prazer da mesa a um qualquer “checospolaco” que não sabe o que será  o bacalhau nativo, desconhece o cabrito no forno e nunca lhe passou pelo estreito o esplêndido “marmelo assado”.

Num Congresso  Internacional sobre Ciência Política (que reuniu 35 peritos de todo o mundo) há alguns anos em Lisboa, o jantar no Solar foi votado pelos congressistas como “o melhor de todos os congressos, em qualquer país onde se realizaram”.

Nesse jantar comeu-se uma esplêndida mayonnaise de garoupa e gambas,  e continuou-se por  uma pescada fresquíssima, imponente de aspeto, às postas simplesmente fritas. Acompanhava com arroz de ameijoas e arroz de tomate, à escolha.

Bebeu-se um branco verde de Monção (da casa) e um tinto Álvaro de Castro, Quinta de Saes, com estágio prolongado.

Pena ter sido comido por politólogos? Também pensei isso… Se fosse a malta da “troika” ainda os convencíamos no fim da comilança a reduzir umas migalhas nos juros da dívida.

Teremos outras oportunidades. Digo eu, sem querer agourar.

Manuel Luar