Para encerrar este ciclo de crónicas dedicado aos motivos da escolha de um poiso restaurativo, apresento a todos os leitores um restaurante onde se deve ir para …comer.

Por estranho que possa parecer a muita gente, a um restaurante também se vai para comer.

Já sabemos que se pode ir a esses locais por muitos outros motivos, que vão desde o bom lançamento do namoro até ao choradinho perante os credores. Para já não falar das tendências de moda e da necessidade de frequentar os locais mais “in” para ver e ser visto.

Desta vez, todavia, falo de outro tipo de necessidade. A que assalta pessoas de bom gosto e de elevada cultura gastronómica de vez em quando. A “gula” entendida de forma venial, originando pensamentos impuros e incentivando desejos de celebrar a concupiscência, comendo e bebendo do melhor que existe.

Se estamos numa dessas marés, existem ainda poisos admiráveis onde é possível dar largas à luxúria aplicada aos prazeres da mesa. E se a onda dessa maré for de peixe fresco e de marisco, um dos melhores locais onde podem exercitar a descarga emocional, a catarse desse tipo de desejos, chama-se:

Restaurante Beira-Mar
Rua das Flores, 6
(junto à Lota de CASCAIS
Telefone: 21 482 73 80

Aqui celebra-se sobretudo o mar. O mar evocado magnificamente por Al Berto: “Aprendera, também, que o mar, aquele mar – tarde ou cedo – só existiria dentro de si: como uma dor afiada, como um vestígio qualquer a que nos agarramos para suportar a melancólica travessia do mundo.”

Falo da pesca artesanal que à custa de alguns pescadores teimosos continua a abastecer aquela casa de restauração com coisas a que apenas os eleitos têm direito: os pargos e os sargos selvagens apanhados no Cabo da Roca, os linguados cor-de-rosa mariscados, os pregados a saltar dos baldes, os carabineiros de 200g cada um, as verdadeiras gambas de Cascais de mão fechada (8cm) e por aí fora, passando pelos percebes, pelas bruxas (cavacos mais pequenos) e pelas lagostas e lavagantes, estes dos azuis, as primeiras salpicadas de preto.

E para os grandes especialistas, as anchovas vivas de quilo e meio, o carapau manteiga (mais para os mares setubalenses) e os famosos salmonetes das rochas , sempre servidos “encapotados” para podermos depois aproveitar os fígados levemente temperados com duas gotas de sumo de limão, espalhados sobre torradas quentinhas.

Não é um restaurante onde se possa ir todos os dias. Só trabalha com matérias-primas de primeira qualidade, peixe e marisco selvagem, e todos sabemos o preço (até pela cada vez maior raridade) que essas espécies hoje em dia atingem.

Mas vale a pena conhecer, nem que seja para mais tarde poder contar aos descendentes como se comia nas aldeias piscatórias antes da sobre-exploração das reservas marítimas que liquidou a pesca “à vista da costa”.

Neste Beira Mar, Juan Carlos de Espanha dizia que ia comer o “melhor peixe frito do mundo”, pela nobreza (onde se apanha hoje o Linguado Rosa e quem sabe o que é isso?) e pela forma de o fritar  “à pobre”, isto é, sem polme, e com a temperatura do óleo ideal.

São também criações estimadas por muitos os famosos Filetes de Pescada do Cantábrico com arroz de marisco, e ainda as Cabeças de Garoupa ou Cherne “estaladas” no forno em Azeite e Alho. Pratos que continuam a manter a fama e o proveito desta casa.

Para meros plebeus em busca de conforto, o pretexto – de Fevereiro a Abril – é sempre o Arroz de Lampreia, feito ali com a qualidade  e a sabedoria de quem  aprendeu com os maiores a tratar o divino ciclóstomo. Lampreia garantida do Rio  Minho.

Mais ou menos na mesma altura do ano, o Sável, com açorda de ovas do mesmo, é sempre sublime no “Beira”, com base numa interpretação da receita tradicional onde as postas finíssimas do peixe quase não contêm já espinhas, fruto da prévia maceração em tempero adequado.

Na época da caça,  as Perdizes à Beira Mar,  só feitas com azeite, vinagre e alho, são soberbas também e servem para desenjoar de tanta criatura aquática.

No final de uma refeição onde algumas destas iguarias fizessem figura de corpo presente, qualquer mortal ansioso se sentiria já livre de toda a luxúria acumulada.

“Não tenho mais rancor!”

Quantas caixitas de Prozac teriam o mesmo efeito?

Manuel Luar