Calor e aconchego estomacal não ligam muito  bem. Os antigos sabiam disso e remetiam para o Estio aquelas comidas mais leves e mais frescas: as saladas, as pastas frias, os grelhados.

Para estas iguarias são aconselháveis os vinhos leves brancos ou rosés, sem esquecer um ou outro tinto novo e de pouco grau álcool, se é que isso ainda existe neste mundo onde hoje em dia se troca dinheiro por “graduação” engarrafada.

E é exatamente por aí, pelo exagerado grau dos vinhos de hoje, sejam verdes, brancos ou tintos, que começo.

Onde se encontra, sem ser na panóplia limitada de Entre Douro e Minho, um bom vinho, branco ou tinto, com 12 graus e daí para baixo?

Esta é para mim a graduação ideal para os meses de Verão, quando cá fora o termómetro bate acima dos 30º e o nosso corpo pede sobretudo refrescos…

Já vi quase de tudo para tentar – através da bebida – baixar a temperatura que nos aflige e limitar o grau álcool daquilo que ingerimos: desde misturar cerveja com ginger ale, passando pelas muitas receitas de sangria e até deitar no jarro de tinto novo uma garrafa de 33 cl de sprite limão e pedras de gelo q.b…

Vi igualmente com estes olhos que a terra há-de comer um cidadão estrangeiro a pedir numa esplanada, de um conhecido restaurante de Cascais, uma Coca-Cola fresca para melhorar o Pêra Manca que decantaram à sua frente, dando quase um ataque cardíaco ao empregado do restaurante. Mas isso são outras notas de quinhentos…

Se a comidinha for de feição – a sardinha assada com salada, os carapaus assados, uma salada de bacalhau cru (o célebre bacalhau onanista de meu mestre Quitério) – nada existe que mais satisfaça a sede que as quenturas nos trazem  do que uma ou duas taças de verde tinto vinhão, sobretudo se as provarmos lá nos seus solares minhotos.

Aqui para baixo o tinto verde engarrafado sabe-nos (ou sabia-nos, já lá chegarei) sempre um pouco a remédio… O ideal para esses vinhos verdes tintos comuns será abrir a garrafa já refrigerada e deitar o conteúdo todo num jarro de barro, também previamente refrescado. Vão ver que assim se recupera algum do gosto original.

Em preço, qualidade acertada e servindo de “bombeiro” para os calores que se aproximam, não importa o que pensam os “senhores do vinho”! Viva o verde tinto carago!

Reconciliando o gosto plebeu com os ditames dos especialistas, agora que grandes produtores e enólogos começaram a olhar para esta “família” com olhos mais abertos, é já possível encontrar verdes tintos de muita qualidade e feitos com todos os preceitos da moderna enologia.

Recordo o “Oppaco” (17 euros), o primeiro vinho tinto do conhecido produtor “Soalheiro” de vinhos Alvarinho na região de Melgaço. Este “Opacco” é o resultado de uma mistura de diferentes variedades da casta Vinhão com a casta Alvarinho.  E é muito bom!

Também Anselmo Mendes pôs as mãos na massa para esta variedade de tinto e lançou o “Pardusco” (8 euros), verde tinto muito bem construído e ideal para a canícula. Dele diz a Revista de Vinhos:

Feito a partir de Vinhão, Alvarelhão, Cainho, Borraçal e Pedral é um Verde de perfil muito singular, com cor aberta, aroma elegante e cheio de fruto, sabor super refrescante e delicado, perfeito para a mesa.

E quanto às comidas? A regra de ouro é limitar a quantidade e abusar da variedade: muitas saladas em pratos diferentes, pouca batata, evitar molhos quentes (com a possível exceção do “molho à espanhola”) e sempre que possível e desejável usar e abusar do gaspacho completo!

O belo conjunto de tomate, pepino, pimento, orégãos, presunto aos pedacinhos, azeite e vinagre, água e gelo, pãozinho do melhor!  E acompanhado pelo que houver de mais fresco e mais pequenino nesse dia na praça:  jaquinzinhos ou petingas, qualquer deles a estrelicar, saltando da frigideira para os pratos.

Quem tem terraços e quintais pode aproveitar para comer “al fresco”. Quem não tem utilize as esplanadas, que as temos boas e para todos os preços.

Na Beira Alta, em Agosto, só podemos comer no terraço pela tardinha, porque os calores das horas de sol alto não o permitem de outra forma, mesmo com sombra por cima das cabeças. Suponho que a mesma receita seja válida nos outros locais deste nosso país, dando corpo à ideia que comer no exterior será sobretudo um privilégio do entardecer .

Ressalvo alguns paraísos, onde a sabedoria árabe continua a imperar sob a forma de fontes, pequenos lagos e riachos correndo pelos pátios, o que aliado às sombras naturais das latadas permite almoços dengosos e de autêntico sibarita, a deitar o olho para a otomana espreguiçadeira… Lembro-me de um local assim, em Sevilha. No Alphonso XIII, antes deste ter caído em decadência.

As sardinhadas e churrascos são sempre boas apostas para estas refeições ao ar livre. Excelentes ocasiões para o convívio e para cada qual meter as mãos à obra, seja fazendo as saladas, seja estando atento às brasas do carvão, onde o balde de gelo ao lado,  com cervejas enfiadas,  é aqui de rigor  para refrigério do assador de serviço.

Como nota final, agora que o calor nos dá boa desculpa, usem e abusem dos nossos belos Espumantes Brutos, ousando iniciar sempre a refeição com eles.

Manuel Luar