Terão desaparecido da linguagem coloquial as expressões onde “melão” era sinónimo (em calão simpático) de deceção ou surpresa desagradável.

-“ O amigo Joaquim entrou no alfarrabista à procura de uma 1ª edição dos Maias. Quando soube que tinha sido vendida no dia anterior ficou com um melão dos antigos, daqueles grandes e de casca de carvalho”.

Voltando ao “Melão” da fruta – talvez o fruto do Verão por excelência – o que podemos dizer sobre ele é que tem propriedades refrescantes e hidratantes, sendo composto por 90% de água. Deve ser conservado num lugar fresco e arejado, mas não deve ser conservado no frigorífico, o que pode alterar o seu sabor se não estiver já muito maduro.

Trata-se de um fruto que contém vitaminas A, B, C e E, e sais minerais como cálcio, potássio, fósforo e ferro.

Segundo escrevem os entendidos, Portugal produz anualmente mais de 90.000 toneladas de melão, numa área de cultivo de cerca de 4.000 hectares. As zonas geográficas de maior importância na produção deste fruto são no Sul do país, nomeadamente Vila Franca de Xira, Almeirim, Alpiarça, Beja, Moura e Algarve.

Também existe produção na região de Entre Douro e Minho, maioritariamente de melão Casca de Carvalho, que podemos considerar como sendo a “estrela da companhia”.

De entre as principais variantes comercializadas no nosso país destacam-se o melão Pele de Sapo, o referido Casca de Carvalho, o Tendral, por vezes chamado “melão preto”, pela sua cor da pele, verde muito escura e obviamente o Melão Branco do Ribatejo.

Mantenho alguma saudade do  verdadeiro e quase mitológico “melão pimenta” do Minho – aquela espécie de casca de carvalho que os apreciadores gostam muito maduro, para saborearem o apimentado.

É engraçado que tendo eu ideia que o “apimentado” era função do envelhecimento (do processo de maturação) houve produtores em Vila Verde que me afiançaram que existiam melões que já saíam da terra com o gosto a pimenta, enquanto outros criados ali ao lado não o tinham.

Poderá existir aqui um mistério hortofrutícola, parecido com o caso dos pimentos “Padróns”, em que uns são normais e outros são “Cabróns” (para rimar). Bem picantes ou não.

O melão pimenta era aquele que se guardava para o Natal. Apresentando nessa altura as características organoléticas de um amadurecimento profundo de onde lhe vinha o acentuar do apimentado do gosto. E quem o comia naquela altura não terá esquecido o prazer que lhe dava, não só por ser um mimo fora da sua época como também pela qualidade intrínseca.

Um grande melão casca de carvalho – daqueles cuja memória nos acompanha, e são dos que se comem e não a lembrança de algum desgosto – não se faz à pressa e em produções massificadas. Tudo começa na terra e nos cuidados do cultivo.

A rega, por exemplo, deve ser controlada. Se o meloal leva água a mais, o melão perde qualidade e fica a saber a água. Há que deixar o melão ficar com ‘sede’ para puxar pelo sabor.

A sementeira faz-se em final de Abril e, se as coisas não correrem mal, três meses e picos depois já temos melões, deduzindo a sua qualidade pelo som que reproduz ao bater-se-lhes na casca.

A casca gretada (muito característica da espécie casca de carvalho) vai sendo adquirida já na parte final do cultivo, quando atinge três ou quatros quilos. E só depois dessa altura é que o agricultor lhe “dá a volta” virando para o sol a parte que tinha ficado debaixo da terra, garantindo-se assim que a casca fique com um aspeto uniforme e não ganhe sabor a podre pelo excesso de humidade.

Refere-se que para guardar uns meses – o tal melão do Natal – quanto mais peso tiver o “bicho” melhor aguenta o processo de envelhecimento. Por isso, lá para o Soutelo, os melões de sete kg e oito kg são sempre os primeiros a serem vendidos.

Onde se podem comprar estes melões? Lá no local onde se cultivam: Soutelo, Vila Verde, entre final de Julho e meados de Setembro.

Embora qualquer de nós se lembre da famigerada receita do “melão com presunto” – que aparecia em todos os casamentos, batizados e festas da província, para já não falar de restaurantes, casas de pasto e clubes noturnos – o certo é que este amigo fruto, sendo bom, não requer qualquer acompanhamento. Nem doce, nem salgado. Come-se sozinho tendo apenas por companhia um belo copo de vinho ao lado.

E esta “maridagem” do vinho com o melão casca de carvalho bem maduro é antiga como o mundo.

Diziam os nossos antepassados que “com Melão, vinho de tostão”. Embora hoje “tostão” não pareça ser grande coisa, quando o ditado foi feito significava vinho “do melhor”.

E continuavam eles: “já se sabe que beber água depois do melão, mata, coze no estômago, rebenta o bucho, fura a tripa”.

Para que nada disto nos aconteça (cruzes canhoto) venha de lá para acompanhar o bom melão um Alvarinho bem fresco e que (felizmente) não tenha laivos de maracujá, o que hoje parece ser moda e praga.

O “Portal do Fidalgo Alvarinho Reserva 2015”. Considerado pela Revista dos Vinhos como Prémio de Excelência 2017. Um monumento que ainda se pode comprar a cerca de 30 euros a garrafita.

É caro? O melão casca de carvalho merece. E nós também.

Texto de Manuel Luar