O conhecido caso do final da saga dos cavaleiros Templários (pelo menos em França) deu má fama perene a este dia de calendário. Recordando os factos, Filipe o Bom , rei de França, tratou da saúde a muitos cavaleiros da Ordem em 13 de Outubro de 1307, uma sexta-feira. O Grão-Mestre, Jacques de Molay, que foi queimado vivo nessa data, amaldiçoou para sempre o dia, o rei e toda a companhia que presenciou o drama.

Mas já antes do século XIV a sexta-feira 13 tinha má fama. Alguns iluminados juram e trejuram que teria sido nesse dia que Eva trincou a maçã, que começou a cheia da Arca de Noé, e até que a Torre de Babel teria iniciado a construção.

Não tive, infelizmente, ocasião de presenciar estas ocorrências. Por isso aqui as transmito sem pôr a mão no fogo sobre a veracidade das mesmas.

Do ponto de vista gastronómico a sexta-feira 13 passa mais ou menos ao largo da nossa costa. Temos (por importação norte-americana) a ceia da noite das Bruxas – Halloween – na véspera do dia 1 de Novembro. Antiga manifestação da noite anterior ao Dia de Todos os Santos, dia dos mortos, com origens no folclore celta e nórdico.

No México atinge-se o máximo desta celebração do 1º de Novembro, “Dia de Los Muertos”, com festividades nas ruas que rivalizam com o carnaval do Rio de Janeiro ou de Veneza.

Todavia, em Montalegre (distrito de Vila Real) há vários anos que se celebra a Sexta-feira 13. O Padre Fontes faz a tradicional “Queimada” e haverá bruxas e bruxos, correndo pelas ruas, obrigando os menos afoitos a recolherem a casa. Para se deliciarem com os melhores produtos do fumeiro barrosão.

Nas palavras dos promotores:

“Montalegre, a ‘capital do misticismo’, volta a vestir-se a preceito para acolher milhares de pessoas. Este é um dos maiores espetáculos de rua do país, que mais uma vez promete voltar a surpreender.
O programa e animação desta ‘Sexta 13’ arranca a partir das 13 horas para a ‘Teia dos Sabores’, já com as ruas devidamente enfeitadas para os malfeitiços.”

Através da realização do Congresso de Medicina Popular de Vilar de Perdizes, cuja primeira ocorrência foi já em 1983, o Padre Fontes transformou a sua terra num dos maiores polos aglutinadores do turismo daquela região.

Medicina Tradicional, Fumeiro do Barroso e Misticismo (crendices populares) são os três pilares que permitem à zona de Montalegre-Vilar de Perdizes, cantar de galo no que diz respeito a visitantes e ocupação hoteleira.

Porta de passagem da Galiza para Portugal – e vice-versa – Montalegre, acolhe os galegos de braços abertos e com eles compartilha memórias e histórias. Padres, médicos e veterinários prestavam (e se calhar ainda o fazem) parte dos seus serviços, de um e outro lado da fronteira. E já assim acontecia em tempos remotos, muito antes de nos chegar a União Europeia.

Neste espaço cabe-nos obviamente falar do Fumeiro do Barroso. É, como se depreenderia, o reino do Senhor Porco. Do porco bísaro mais para os vizinhos de Vinhais, de outras raças mais produtivas para o Alto Barroso. Mas sempre criado em casa. À moda antiga, com batatas, couves e alfaces.

Este Fumeiro regional tem enchidos (ensacados em tripa natural) como a a alheira, a chouriça, o chouriço de abóbora, o salpicão, o salpicão caluga (formado de um só fragmento da perna), e a sangueira; e tem as carnes fumadas:  a cabeça, a entremeada, o pé, peito, pernil e o aristocrático presunto, que agora é IGP.

A “Alheira” merece tratamento especial, pelo que aqui não aprofundo o tema.

Na conceção dos outros enchidos pretende-se manter a tradição, submetendo as carnes a um processo lento de maturação com temperos naturais. O método da fumagem é artesanal feito sobretudo com lenha de carvalho, o que torna o cheiro e o paladar distintos.

Os produtos de maior qualidade não levam aditivos para aumentar o prazo de validade. Por isso existem quebras notáveis nos armazéns dos produtores, sobretudo nos que apostaram em níveis já médios de fabrico, requerendo uma cuidadosa atenção à cura.

Sua Excelência o Presunto do Barroso, se bem feito de acordo com as especificações das regras IGP, é um petisco de se lhe tirar o chapéu. Depois da salga de 3 semanas passa ao fumo (lenhas locais, como referido) por mais uns três meses. Estas fumagens pouco intensas e graduais, combinadas com a alta qualidade da carne, dão-lhe um sabor único e muito elegante.

Para acompanhar o fumeiro do Barroso (seja ele em cru ou na sua alta recriação em Cozido Completo de Carnes do Barroso) todos devem estar à espera de tinto. O que é verdade, sobretudo para o Cozido.

Mas…Se vos der no goto uma prova destes produtos a cru, tentem um belo branco de Trás-os-Montes.

Para um caso e para o outro, tinto ou branco, recordo o Valle Pradinhos. Mas também mestre Manuel Vieira (Sogrape) encetou uma nova aventura em Valpaços, a qual conviria irem espreitar… Chama-se a marca nova: Valle de Passos. E tem já vinhos muito bons.

 

Manuel Luar