Passar da sardinha e do chouriço assado para um tema sobre “Street Food” parece apropriado. No fim de contas, muito antes dos festivais de “Street Food” andarem pelos roteiros de viagens, já a sardinha e o chouriço eram pratos deambulatórios nas noites dos Santos, em Alfama ou em Carnide.

Comecemos por definir o termo: “Street Food” , ou “comida de rua”, são comes e bebes vendidos em locais públicos, como as ruas, mercados ou feiras, muitas vezes a partir de uma barraca de alimentos ou de caravanas e outros veículos motorizados.

Podem obter-se nos quiosques das praças públicas, podem ser comprados “ao balcão” de motorizadas com atrelados ou podem ser adquiridos na clássica “roulotte” dos couratos que é sempre presença obrigatória junto aos estádios de futebol em tardes de grandes jogos.

As bolas de Berlim à venda nas praias, os gelados tirados da mala térmica em frente ao banhista, juntamente com a bolacha a que se convencionou chamar “língua da sogra”, eram prenúncios estivais desta matéria.

Mas talvez a mais antiga manifestação de “Street Food” que eu me lembro de presenciar tenha sido na antiga Feira Popular de Entre Campos, com as trotinetes de algodão doce e o carrinho das farturas. Lá para os anos 60 do século passado.

Hoje a escolha é muito maior e passa pela especialização da oferta e da procura. Há locais destes que só estão abertos à noite, existem outros que abrem também durante a tarde. Haverá ainda os que são mais “fixos” de paradeiro, o que permite fidelizar a clientela, enquanto outras roulottes e triciclos seguem o fluxo das multidões.

Recordo-me bem quando uma das distrações (?) do alfacinha embasbacado e beato era “ir ver o Tollan” a partir da Cruz Quebrada, durante os três anos em que o porta-contentores ali esteve encalhado (1980 a 1983). Pois não tardou muito que nas tardes de sábado e domingo por lá aparecesse a malta das farturas e dos couratos, tal e qual como se fosse um desafio de futebol importante.

Hoje a oferta de “Street Food” aburguesou-se. Há limonadas com sabores, batatas fritas à francesa com hambúrgueres da carne de vaca certificada, iogurte gelado, cachorros quentes em pão de centeio com mostarda Colman’s, etc…

A origem desta forma de consumir alimentos não é unânime. Terá a ver com a necessidade de servir um número elevado de pessoas, num espaço de tempo e num espaço físico tão limitados quanto possível. Daí a proveniência urbana quase de certeza absoluta, com possível referência às grandes urbes asiáticas.

Todavia não se consegue provar que a ideia do “Street Food” começou na Ásia. Tenho ideia que no nosso imaginário construído com base nos filmes e séries de TV, as ruas apertadas de Hong Kong ou de Singapura possam ter a ver com essa ideia.

São os neons, as luzes baixas, os anúncios móveis em empenas de prédios, as paredes cobertas de malhas metálicas. Conseguimos até ver atrás do balcão um empregado com um chapéu de palha vietnamita. Um ambiente muito à moda do “Blade Runner” original.

Nesses locais da Ásia urbana podem comer-se as tigelas de “noodles”, os pratinhos de “miso-ramen”, um caldo de carne e ovos à japonesa, as baguettes vietnamitas do tipo “bahn-mi”, ou ainda o “Pad-Thai” de Bangkok. São ainda hipóteses os clássicos “Dim-Sun” da China, a galinha frita coreana ou a “perigosa” couve em conserva “Kimchi” da mesma proveniência.

Tudo isto já provei, mas em Londres…Estamos num mundo global.

O que se pode dizer é que a “Street Food” é hoje uma tendência de moda. Há festivais (tivemos um recentemente em Lisboa, no Martim Moniz)  e escreve-se nos “blogues” de referência sobre este assunto.

De tal forma que, dando a volta ao texto original, já hoje se abrem restaurantes (e caros!) onde estes tipos de comidas são servidos à mesa, com boas toalhas de pano alvo e guardanapo igualmente.

Ficará para próximas crónicas um olhar sobre o “Streef Food” ibérico “indígena”. Mais cultivado no lado de lá da fronteira por “nuestros hermanos”, com o seu civilizado “tapear” do final da tarde, mas não sem falarmos da nossa antiga “comida das feiras” que daria hoje em dia um “chelique” a qualquer inspetor da ASAE que por lá passasse: a Leitoa de Negrais.

Manuel Luar