Por Gil Sousa, jornalista que se encontra na esquina

Há carpintarias e carpintarias. Combinei encontrar-me com o Samuel Úria e a Lena d’Água, dois bichos musicais e irrequietos, no Sport Lisboa Amoreiras em Campolide, que noutras ocasiões os habitantes enchem nos festejos da bola. Dois músicos daqueles bem conhecidos, desta feita falámos de música, escrita, cantada e vivida.

O Samuel e a Lena não são estranhos. Enquanto me sento vou apanhando pela conversa que estiveram juntos em alguns eventos, e não é surpresa. Movem-se ambos nesse bairro que é a música portuguesa, que cresce a olhos vistos, mas no qual os habitantes ainda se tratam a todos pelo primeiro nome.

“Eu sou um falso preguiçoso”, diz o Samuel quando eu finalmente lhe pergunto se tem um método para escrever canções. “É algo que eu assumo como ócio, mas que na verdade não é. Passo meses sem sentir necessidade de escrever uma canção, mas quando decido que sim, agora é que vai ser, descubro uma riqueza de coisas que fui apanhando e processando enquanto não escrevi. Às vezes é uma questão de ainda não ter terminado com as músicas antigas. Gosto de as actualizar”.

“Eu brinco muito em palco”, diz a Lena. “É um sítio onde tenho total liberdade, e eu gosto de não repetir fórmulas, de ser inconveniente. O palco ainda é um espaço único”.

O Verão significa descanso para muitos, mas menos para músicos, sejam estes ou os emergentes. “Para um músico, o ao vivo é importantíssimo”, diz o Úria sobre a actividade dos meses quentes. “Já que as receitas de vendas de discos são-no”.

“Irrisórias”, corta a Lena. Riem-se os dois, e o Samuel termina: “Curtas. Direitos de autor é melhor, mas mesmo assim… Tem que se apostar em formatos ao vivo”.

Chegam garrafas de água e o Samuel pausa. Lá fora, as indas e vindas dos habitantes de Campolide marcam o compasso lento das andanças neste bairro calmo.

“Há uma grande quantidade de coisas a aparecer, e acho que a qualidade pode ser validada ou revalidada por aquilo que se faz em palco”, termina ele.

A Lena concorda. Conta-nos que ainda há pouco, num dos seus concertos mais íntimos, só voz e piano, um casal aproximou-se dela no fim do espectáculo e lhe disse o quanto se tinham emocionado os dois a ouvi-la. “E não é que enquanto ele me conta que se tinha comovido enchem-se-me os olhos de lágrimas e começam-me a cair dos cantos dos olhos, e a ele e ela também, e ficamos os três assim”. À volta da mesa, nós os três sorrimos. “Isso faz valer a pena os pequenos desertos por que passei ao longo dos anos. De pouco trabalho, dos discos não terem a divulgação que acho que mereciam, et cetera. Mas nestes momentos em que as pessoas se comovem… Pronto, é isto. É isto que a música tem de ser. Uma coisa que nos une e nos torna melhores”.

Pergunto-lhes se esta onda de actividade os inspira. “Claro”, diz logo o Samuel. “A música é uma indústria enfraquecida, mas este núcleo de músicos que se conhecem, apoiam, e realmente gostam daquilo que uns e outros fazem é incrível. Acho que daqui a uns anos vamos olhar para trás e aperceber-nos de que fizemos parte de uma vaga que não tem nada a ver com aspectos estéticos, mas com aspectos humanos. Cada um a meter o bedelho nos projectos dos outros”.

Enquanto o Úria fala, a Lena vai fazendo que sim, que sim. Depois diz, “Isso que estás a descrever eu reconheço-a no que havia no jazz há vinte anos. E era incrível. Uma mobilidade fantástica, músicos sempre prontos a saltar para o palco. Se um baterista não podia arranjava-se logo outro, ou contrabaixo, ou o que fosse. E até antes disso, quando eu era mais nova”.

Ao fim de 41 anos de carreira, Lena tem de pensar nas histórias que nos conta. São tantas que ela mesma se queixa da memória; diz que quer escrever um livro delas mas que, com “milhentas” histórias, não consegue escolher uma.

“Tempos maravilhosos”, acaba por dizer. “Eu fiz o segundo e terceiro anos do magistério primário enquanto já cantava nos Beatnicks, a minha primeira banda. Ia para as aulas aprender a ser professora e depois ia tocar. Nunca dormíamos. De madrugada vínhamos na carrinha do leite, que era pai do viola-baixo, que fazia a distribuição na Amadora. Eu era a única menina, vinha à frente, e eles atrás, com o equipamento. Éramos todos uns miúdos. Tu já tens 40?” pergunta ao Úria.

“37”, responde ele. A Lena sorri e abana a cabeça. “És 4 anos mais novo que a minha filha. Já não viste nada disto”.

Entre histórias, acabamos por voltar ao tema da composição, e do acto de cada um se inserir no trabalho que faz. Pergunto ao Úria, como letrista, como se sente em relação a essa comunicação de que a Lena falava.

“Para mim, aquilo que é maior de tudo é o reconhecimento”, diz ele. “Especialmente quando as pessoas ficam tocadas por alguma coisa que eu escrevi e que canto, e para elas o significado é completamente diferente. O simples facto de haver alguém com a paciência para me entender, e às vezes para querer mudar a sua vida por causa de alguma coisa que eu escrevi por desabafo da minha, é melhor que tudo. É impagável”.

A conversa estende-se, assim animada, até que todos cedo ou tarde admitimos que temos ainda coisas para fazer durante o dia, horários exigentes. Enquanto começamos os movimentos lentos de abandonar um bom café — terminar as bebidas, guardar os telemóveis, coleccionar lixos vários e depositá-los num cinzeiro — lanço-lhes uma última pergunta: estão cansados?

Diz o Úria, sem hesitar: “Eh, pá! Viver da música, que é uma coisa de que eu gosto tanto, que me dá tanto prazer, e poder pagar a renda, poder pagar comida… Esquece lá o cansaço e as agruras”. E ri-se.

Diz a Lena: “É o preço. E para mais, essas coisas fazem parte. Já são tantos anos e já passei por tantas fases difíceis, e acho que se for tudo fácil para um artista perde-se qualquer coisa. É por isso que eu gosto tanto de colaborações. Por falar nisso…” acrescenta ela,”… lembras-te que eu te perguntei se querias participar…”

“A mim?” pergunta o Úria. Voltam-se um para o outro, e de repente eu sou a única pessoa em processo de se ir embora.

“Sim, no lançamento do…”

“Ah, claro!”, o Samuel bate com a mão na testa. “Isso ainda está a valer?”

“Está pois!”

E aqui não quero eu interromper. Saio discretamente, de volta para as ruas de Campolide, e deixo-os aproveitar os minutos extra que conseguirem espremer do encontro. Sabe-se lá o que sairá daqui, mas, a julgar pelo entusiasmo, promete.

Café Central por Gil Sousa
Fotos do Herberto Smith