Bom, se correu bem uma vez, irá correr bem mais uma, de certeza. Desta vez o nosso director convidou uma actriz famosa, quase desde que nasceu, e o instagramer português com mais seguidores. Como poderia isto não fazer uma boa conversa? Mas melhor ainda é a coincidência dos nossos dois convidados, apesar de se desconhecerem completamente, terem nascido apenas a algumas centenas de quilómetros um do outro lá do outro lado do oceano.

Ao Sejkko conhecia-o do instagram, das publicações internacionais e das andanças geradoras, é o presidente do júri dos Insties Gerador, e de instameets que já tinha feito connosco. O tipo na realidade chama-se Manuel Pita e é um cientista que estuda inteligência artificial, e chama-se Sejkko como um anagrama japonês que pode significar várias coisas, entre as quais criança curiosa. A Joana de Verona conheci-a de a admirar em filmes, séries e novelas e o ano passado o destino fez-nos irmãos num projecto ficcional. Parecendo resumido, é mesmo de admiração pura que imaginei estes dois figurões juntos na mesma conversa. Ambos artistas intuitivos e curiosos até à medula, são daqueles que serão sempre eternos estudantes, e não é espectacular descobrir que ambos nasceram na América? Ele na Venezuela, ela no Brasil. Mas onde colocar o novo mundo do Manuel e da Joana frente-a-frente, senão num local isolado e esquecido como é a Ordem e Progresso? O nosso velho mundo perde espaços destes à velocidade da luz e nada melhor que juntar o novo ao velho e esperar que a faísca os faça transar*. Tudo muito sexy, mas de facto eu e a Joana chegámos atrasados e o Manuel tinha de ir dali a pouco para as aulas. Nem quase tempo deu às apresentações e ligada a máquina começámos a gravar com a Joana a clicar uma foto atrás da outra. Algures no escuro tive a sensação de que a Patrícia me desejou sorte com o polegar, mas pode ter sido só uma sensação porque eu já estava a disparar a primeira pergunta…

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Joana, o que significa para ti, atravessar o Atlântico?
“Significa chegar a dois lugares que eu chamo casa, no entanto dois lugares que convocam em mim coisas muito diferentes. Eu sinto-me a mesma pessoa nos dois países mas há coisas, partes de mim que vêm mais ao de cima lá e outras cá porque o próprio país, a própria cultura acaba por convocá-las”. E sentes isso logo quando chegas? “Sentes o ar, sentes o cheiro, sentes a temperatura, sentes as pessoas mas não sei se é completamente imediato. Quando chego ao Brasil tenho família brasileira que é outro tipo de família completamente diferente, se eu for comparar os meus tios de Vila Real, Trás-os-Montes com os meus tios do Rio de Janeiro é muito diferente”. Mas quando chegas ao Brasil começas a falar com sotaque de lá e quando chegas a Vila Real também? “Sim. Mas o meu sotaque brasileiro é muito melhor que o meu sotaque do norte, porque eu morei no Brasil quatro anos”. E para ti Manuel, o que significa atravessar o Atlântico? “Acho que é uma coisa dual, por um lado é a aproximação à natureza, estar com o meu avó nas bananeiras da Madeira, no meio dos frutos. Por outro lado é esta coisa mais selvagem que o latino americano tem de se refinar. Vivi muito tempo no Reino Unido e existe essa definição que o selvagem vai para a Europa refinar-se”. Mas achas que ainda há o mito de a Europa ser um lugar mais culto? “Quando eu crescia, sim. Toda a gente tinha de passar um ano em Londres senão não eras ninguém”. Mas tu tens dois destinos no Atlântico, os teus pais são da Madeira. “Sim, por isso para mim primordialmente o salto para o Atlântico é estar no meio do trigo com o meu avô”. E não voltaste à Venezuela? “Desde 93, não. Apesar de os meus pais continuarem lá”.

Os emigrantes portugueses eram geralmente os donos das padarias, isso continua a acontecer? “Já não, na Venezuela havia muita gente de Aveiro que tinha muitas padarias, mas muitos já voltaram. Os que ficaram são principalmente os madeirenses que estão mais noutros ramos de negócio”. Diz Manuel. “No Brasil continua a haver, sobretudo em alguns bairros mas já não há um boom de pessoas sempre a chegarem. São sobretudo pessoas mais velhas que vão desaparecendo mas ainda é presente isso”. Acrescenta Joana. E conheces alguma anedota sobre portugueses? “Todas”. Conta uma, vá lá! “Quando eu estava no sétimo ano, morei lá dos dez aos catorze anos, eu lembro-me muito de perguntarem: (aqui têm de imaginar o sotaque brasileiro irónico da Joana) Oi, Joana, então lá no Portugal tem Makdonald’s. Meu irmão, Portugal é primeiro mundo, tudo o que tem no Brasil tem em Portugal”. E tu sentias-te portuguesa ou brasileira? “Sempre foi uma grande confusão porque lá eu era portuguesa, cá eu era brasileira. Lá eu era a portuga cá eu era a zuca”. Também sentes isso Manuel? “Sim, totalmente”.

Então qual é a vossa nacionalidade emocional?
“É uma coisa mista, híbrida. O pessoal está à espera que tu digas que as tuas raízes são estas ou aquelas, no meu caso é uma coisa mista e de facto vai variando de acordo com o momento da vida. Eu tenho uma influência muito forte da minha infância na Venezuela, uma influência muito forte madeirense que é diferente da influência daqui do continente, e britânica. Eu morei catorze anos na Escócia”. Isso é um mix do caraças. Foi isso que te lixou a cabeça para ires estudar inteligência artificial? “Não, isso já estava cá”. (Rimos todos.) De onde te veio essa vontade de saber a maneira das máquinas pensarem? “Eu sempre tive interesse em pensar, quando vejo desenhos de diagramas e mapas e símbolos penso numa massa cinzenta que temos dentro da cabeça e pergunto como é que isto acontece? E quando ia à Madeira e via a goiaba em flor e a fruta a começar a aparecer eu perguntava ao meu avô: como é que a árvore sabe que é agora a altura para florir e não noutra altura do ano? O meu avô ficava a olhar para mim e dizia sempre: eu sempre disse ao teu pai para não casar com a tua mãe”. (Rimos mais ainda.) “Porque ia sair eu a perguntar coisas”. Os teus pais fazem o quê? (Pergunta a Joana.) “O meu pai está no ramo da comida, agricultura, distribuição e a minha mãe ficou em casa connosco. O ramo do meu pai é super da terra, do trabalho, são hedonistas, satisfação rápida, tudo isso. O lado da minha mãe são depressivos, analisam tudo, lêem, todos muito complexos. Da soma nasceu o Sejkko, hedonista conceptual”. E o Sejkko é um fotógrafo? “É um fotógrafo em formação, mas ainda não diria que sou um fotógrafo. Sou uma pessoa que está a evoluir para ser um fotógrafo. Tento dirigir o meu trabalho para a fotografia de Belas-Artes que já inclui a parte de edição e colage e conceptualmente vou para o realismo mágico. A mim interessa-me muito cenas que possas ver e acreditar que são possíveis, que existam. Uma cena que não possa existir, não quero”. “Realismo mágico é uma coisa muito presente no cinema brasileiro. Já fiz cinema de realismo mágico também”. (Diz a Joana.) “É coisa que tu, enquanto público ou apreciador de imagens ou de um filme, percebes que… como diz um primo meu: não vou ligar nisso que é muita mentira para um filme só. É uma realidade que não é completamente impossível. O Touro, filme que fiz quando voltei a São Luís do Maranhão e redescobri a cidade onde tinha nascido, é um híbrido entre um documentário e uma ficção quase de cinema B. É tudo documental, realista, só que é um filme completamente onírico e fantasioso baseado numa crença em que eles acreditam que o Dom Sebastião, perdido nas Europas, vai voltar à Ilha dos Lençóis e que há um touro encantado com uma estrela na testa, que numa noite de lua cheia voltará. Então tens um filme que é completamente realista, um documentário antropológico com uma temática onírica.

Então como é o filho desta transa entre o novo e o velho mundo?
(E começa logo a Joana.) “Tens o velho mundo com imensos factos históricos, aristocrata com um povo colonizador que conquista o mundo, com um outro país como é o Brasil que mistura a Europa com a África e isso traduz-se nos ritos, nas crenças religiosas, traduz-se na Umbanda, no Candomblé, na música e também no cinema brasileiro que tem todas estas influências muito ricas e diferentes, e o cinema em Portugal fala muito mais sempre do mesmo tipo de coisas. Apesar de termos o Miguel Gomes com o filme Mil e uma noites, que derivou um bocado disso”. Mas o cinema brasileiro tem mais variedade, é isso? “Por exemplo no Touro, que tinha uma equipa muito pequena e muito jovem. Tinhas-me a mim, que sou brasileira-portuguesa, que estava a morar em França para estudar documentário antropológico; tinhas a realizadora brasileira mas que tinha estudado na escola de cinema de Genebra, na Suíça; um director de fotografia que era de Coritiba; havia gente de Brasília, um baiano. Uma equipa minúscula, mas cada uma de uma parte diferente do Brasil. Então cada um de nós tinha expressões completamente diferentes e não conhecíamos as dos outros”.

E a autoestima do novo mundo? As pessoas sentem orgulho na sua própria cultura? “Na altura em que eu cresci e vivia lá, sim. Agora não. Agora o traço central da cultura venezuelana é a humilhação. As pessoas sentem-se humilhadas e incapazes de dar a volta ao que se está a passar no país. Já o Brasil é outra coisa. Porque eu vejo o Brasil como um subcontinente, não como mais um país da América Latina. Porque é tão grande e há tanta variação da expressão de sentir e fazer as coisas. Coritiba ou Minas Gerais? Conheço mais gente de Coritiba que é pessoal mais estruturado e mais europeu e tens outras partes que têm influências alemãs ou japonesas”. E tu Joana? “Quem eu acho que tem falta de autoestima é Portugal e a Europa velha. A influência europeia no Brasil tem muito a ver com a arquitectura e com a língua. É muito engraçado veres no Brasil, que é um território muito recente, cidades com nomes de Portugal. Depois é uma grande misturada, em que a maioria dos brasileiros tem mistura de sangue africano, indígena, europeu. Por isso eles podem sentir-se, de alguma forma, encabulados e lamentarem o caos e absurdo político do que está a acontecer, mas são um país com aquela velha máxima de que Deus é brasileiro. Mais autoestima do que isso?”

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E podemos melhorar esta relação entre estes dois mundos?
“Aqui a opinião sobre o latino-americano e sobretudo sobre o brasileiro é mais verbalizada do que no mundo anglófono. O britânico, o que está a pensar não diz, you stupid american, e os australianos, que os olham sempre como os descendentes dos presos que foram exilados para lá. Os estereótipos já não ficam por detrás da boca, saem. Então se se conseguir curar essa coisa bipolar que existe haverá uma muito melhor integração”. Sentes isso também, Joana? “Acho que faz sentido o que estás a dizer, eu não sinto que acha essa simpatia falsa. Mas quando estavas a falar das novas identidades, na América Latina há mais desequilíbrio do que noutros sítios, como Hong Kong, em que, apesar de uma ocupação cultural, existe uma nova identidade independente que emerge dessa relação. Porque o Brasil, apesar de ser uma grande potência em muitas coisas, tem uma cultura muito própria só deles. Mas continua a haver a questão do terceiro e do primeiro mundo”.

E agora o desafio de convidarem o outro a conhecer o vosso próprio trabalho…
Manuel: Sugeria, se tiveres o tempo e o interesse, que faças uma passagem, uma impressão do mapa da página. Que fizesses a página passar rapidamente no ecrã para veres os pontos desse mapa maior e pensares como os unes, e que depois comentes comigo em privado ou em público.

Joana: Preferia que visses filmes e um espectáculo que vamos repor no Teatro Nacional chamado Ensaio para uma cartografia da Mónica Calle. Revejo-me mais nesse tipo de trabalho do que nas parvoíces que eu ponho na net.

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Com a notícia em primeira mão de que iremos em breve ter uma exposição fotográfica do Sejkko algures em Lisboa, onde exactamente não nos disse, mas que será em breve, será. E com a certeza de que a Joana tem 96 mil seguidores no seu instagram, apesar de não pensar muito nisso, fechámos esta conversa com a promessa de boleias a todos, porque o Manuel já estava atrasado para as tais aulas de que nos tinha avisado no início, apesar de estar com menos pressa agora, e partimos com a pressa possível a caminho do centro da cidade de Lisboa, e que pena eu ter desligado o gravador, que pena…

*tran·sar |z|
(transa + -ar)

verbo transitivo
1. [Brasil, Informal] Ajustar um acordo ou um negócio.

verbo transitivo e intransitivo
2. [Brasil, Informal] Ter relações sexuais.

“transar”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

 

Café Central por Pedro Saavedra
Fotos de Joana Correia