Nos Maus Hábitos 

Fazer um café central de dois em dois meses parece pouco ou muito, dependendo da perspectiva. Mas correr terras e conhecer pessoas através de uma conversa com um café no meio é coisa de português e portuguesa gostarem muito. Desta vez, era tão importante isto correr bem que enviámos a nossa Ana Vice para entrevistar duas pessoas com o mesmo nome que nunca sabiam a que Rui ela se estava a referir. Vêm aí o músico Rui Reininho e o actor Rui Paixão.

Cheguei esbaforida ao Maus Hábitos, espaço que tinha apenas conhecido de fugida numa das minhas visitas ao Porto numa longínqua noite de um mês de Abril, agradavelmente surpreendida com a vista que se descortinava daquela janela imensa da sala onde acabei a tomar um pequeno-almoço reforçado com o Rui Reininho e o Rui Paixão.

Mas antes de chegarmos à comida propriamente dita (que é sempre das minhas partes favoritas!), o Rui Paixão levou-me numa viagem imaginária pelas praias do Norte. Numa questão de segundos fui de Espinho à Aguda e parei na Granja, a praia onde Rui Reininho aprendeu a nadar apesar de ter nascido na famosa “fábrica de tripeiros”, mais conhecida por Maternidade Júlio Dinis, em Cedofeita, no ano do primeiro single do Elvis Presley. “Estive recentemente lá, convidaram gente nascida lá no século passado. Sou de Cedofeita, eu e o Jorge Nuno [Pinto da Costa]. Nasci no mesmo ano do rock and roll, estava eu a nascer e o Elvis Presley já andava ali a abanar o queque”.

O passo seguinte desta viagem onde a conversa me levou foi, como não podia deixar de ser, à Pronúncia do Norte, também ela uma canção mítica dos GNR na voz do Rui Reininho. Falámos do que é ser do Norte, da teimosia granítica de quem aqui vive, dos ideais liberais que aqui sempre nasceram, da importância do futebol na vida dos nortenhos e do “famoso” Futebol Clube do Porto, presente na vida dos nossos dois convidados desde pequenos e nas memórias de Rui Reininho que chegou a ser sócio do clube e ia assistir aos jogos com o pai, a pé, ao Estádio das Antas nas tardes de Domingos: “Ia a pé com o meu velho pai, morava aqui na Baixa, no Campo 24 de Agosto, comecei a ir desde muito pequenino já e lembro-me de irmos a pé. Era o programa de fim-de-semana, o meu pai levava-me aos Domingos. Era um companheirismo engraçado, os meus primos vinham de elétrico, iam almoçar lá a casa e seguíamos em manada”.

Quando chegámos mesmo à questão da pronúncia constatámos que nenhum dos Ruis tem pronúncia do Norte, um porque a escola de teatro lha retirou e lamenta muito isso, o outro porque as canções o obrigaram a perdê-la e as outras línguas foram amortecendo o possível sotaque. Mas a “tripeirice” mantém-se quando desatam a exemplificar este modo de ser do Norte onde cada frase tem um recheio farto e gostoso de asneiras e palavrões que libertam quem as diz e provoca choque e medo em quem as ouve. O Rui Paixão exemplifica: “Não se ouve ninguém a abrir o telejornal a dizer: Então c***, já viram como é que isto está hoje? Não acontece, mas os palavrões são super libertadores!”

Enquanto aprecio a vista da janela e da baixa do Porto num dos dias cinzentos que leva a maioria das pessoas a dizer que o Porto é uma cidade escura e sombria, deixo-me conduzir na conversa e na viagem e paro no basquetebol, desporto praticado na infância pelos nossos dois Ruis e que no caso do Rui Paixão apareceu para cumprir uma indicação médica quando precisou de perder peso. Foi o basquetebol que sempre o fascinou pela componente de espectáculo que lhe é inerente e que desde pequeno lhe servia para ir treinando e aprimorando os seus dotes de palhaço: “Fui para o basquetebol, mas ficava sempre no banco, porque provavelmente era o melhor jogador da equipa! Só jogava 2 minutos no fim e quando eu entrava toda a claque me apoiava, era um reforço positivo porque me divertia. Não era a competição, era por ter estes momentos de espectáculo em contexto de jogo”. Para ele é este o desporto rei, e não o futebol que nas palavras do Rui Reininho pode ser comparado a um concerto onde apenas se ouve a afinação dos instrumentos, se as equipas tiverem o azar de empatar a zeros: “O futebol é um espectáculo caríssimo, para às vezes não acontecer nada. O 0-0 é a pior coisa, é como se fôssemos a uma ópera e ninguém cantasse. Então quando é que ouvimos a tenor, a soprano? Ninguém cantou, foi 0-0!”

Já no caso do Rui Reininho, foi graças ao basquetebol que partiu um dedo num dos jogos e onde era famoso pelo seu 1,90 m que o tornava popular e onde encontra algumas semelhanças com a arte circense, nomeadamente nos jogos das grandes equipas da NBA onde a componente de espectáculo ganha uma maior dimensão: “É um desporto muito circense, a aptidão de ter uma bola no ar não é a coisa óbvia de dar um pontapé na bola e qualquer coisa acontece. Ali tem de se ter o mínimo de destreza, perícia, o jogo do corpo é muito importante”.

Enquanto apreciava a vista daquela janela enorme sobre o Coliseu, local onde o Rui Reininho actuou tantas vezes e onde vai voltar brevemente, viajava nas palavras do Rui Reininho sobre a sua definição de mainstream e com o facto da maioria dos projectos nunca chegar a ser obra: “O mainstream é quando uma pessoa começa a trabalhar. Eu tenho essa consciência, atingi o mainstream e pensei: Isto agora é a minha vida. O resto era garagem e nos cafés onde parava com as giras das Belas-Artes, nos anos 70. Era o máximo! A partir do momento em que percebi que ia viver com isto e para isto, isto é a minha vida, não é só para ser um projecto. Projecto é linguagem de arquitecto, não é a obra. O projecto tem de ser aceite para ser obra”.

Mas foi realmente o estômago que me trouxe de volta ao relógio e me fez perceber que estaria na hora de dar a conversa por terminada, não sem falar do rótulo de sexagenário que Rui Reininho adquiriu recentemente, da mudança de identidade associada ao seu envelhecimento e da importância de não se levar a sério e fazer o contrário do que é suposto: “Agora tenho de ter cuidado ao atravessar a rua porque já estou naquela faixa etária em que sai nas notícias ‘Sexagenário atropelado fora da passadeira’. É verdade! Tenho de ter muito cuidado porque eu já sou sexagenário, já não sou o Rui, agora sou mais pessoas. Daqui a 5 anos vou começar a ter desconto nos transportes! São banhos de humildade a que acho graça”.

Terminámos a conversa a falar sobre a preparação que cada espectáculo implica e a importância do silêncio, do recolhimento e da disponibilidade física e mental para cada actuação. E juro que quando me levantei daquela mesa me senti não uma mera espectadora mas sim uma artista que tinha acabado de fazer a actuação da sua vida na companhia de dois convidados privilegiados.

Café Central por Ana Azevedo
Fotos do Renato Cruz