O Famous Fest’17, que teve lugar nos dias 29 e 30 de setembro no LX Factory, fez com que esperássemos o inesperado. Durante duas noites este festival apresentou concertos, momentos de humor e um live cooking com associações improváveis de artistas.

 

As pessoas começam a ocupar as cadeiras do palco 1, onde decorrerá The Lubjo Show – o live cooking com Ljubomir Stanisic. No palco figura uma galinha em fuga, um caranguejo gigante metálico que fita a bancada de cozinha, dois cadeirões e um piano de cauda. A voz-off soa e apresenta o festival. As luzes baixam e ganham um tom avermelhado, o auditório cheio silencia-se. Mónica Franco e Makarov ocupam os cadeirões, Rui Massena fica ao piano. Ao som da melodia de Rui, Mónica começa a relatar uma história. Fala de um menino de 14 anos, chamado João, que deixa de ter uma vida livre para ir para a guerra tendo de “ver a morte de perto”. Findo o primeiro capítulo desta narrativa o cozinheiro irrompe sala a dentro com um grito – “Finalmente!”- e assumindo-se como o João da história. A sala enche-se de aplausos.

Hugo Nóbrega, diretor de produção do festival, que já vai na sua 7ª edição, esteve à conversa com o Gerador e explicou em que consiste esperar o inesperado: “Desde o início que assinamos o espera o inesperado com momentos inéditos. Portanto, ele (o Famous Fest) é fora da caixa por serem momentos que nunca aconteceram. São momentos de estreia, momentos em que cruzamos artistas, em que os artistas arriscam e muitas vezes não sabem ainda o que vão fazer. Portanto, nesse momento é sempre fora da caixa. Esse é o mote deste festival – deixamos os artistas criarem o que quiserem. O convite é feito e depois são os artistas que escolhem o quão fora da caixa o espetáculo é.”. Revela que quando começou o festival, em 2011, inspirou-se no maior festival de artes do mundo- o Fringe de Edimburgo. Este festival acolhe milhares de performers em múltiplos palcos para apresentarem espetáculos ao seu gosto. Desde nomes sonantes a artistas desconhecidos, o Fringe visa agradar todos os gostos apresentando teatros, música, exibições, storytelling, espetáculos para crianças, circo, dança ou comédia. Hugo salienta a comédia como o elemento mais importante desse festival e, por isso, revela que o Famous Fest começou por ser um festival de comédia, mas que depois percebeu que era importante juntar mais artistas. “Tinha mais potencial explorar todo este conceito. Mesmo o interesse do nosso patrocinador, a The Famous Growse, também era esse – estender o festival a outras áreas artísticas. A LX Factory também surge naturalmente como o local ideal para isso. O humor está a crescer. Cada vez mais há interesse pela comédia nas várias áreas. Há apetência das pessoas para verem comédia nacional e internacional.”

Procurou apostar no humor ao trazer novos talentos nesta área. “Há uma sessão ai que são Os Inesperados, em que vou trazer o Hugo Van Der Ding (“A criada malcriada”), a Catarina Matos (primeira portuguesa a participar na Comedy Central), o Guilherme Duarte (“Por falar noutra coisa”) e o Guilherme Geirinhas (um dos fundadores de “Bumerangue”). Sem dúvida que estamos a utilizar esta malta”. Estes são nomes que revelam donos de blogues e páginas de humor bem-sucedidos em Portugal. Juntos apresentaram um espetáculo de stand-up comedy, com temas fraturantes, mediado pelo radialista Diogo Beja. Antes deste momento pudemos assistir ao concerto da Clarice Falcão, a abrir o festival. Vinda do Brasil, e depois de ficar conhecida pela participação na Porta dos Fundos, a cantora, compositora, escritora e atriz focou-se na música e estreou-se em Portugal em formato concerto. Enquanto as suas melodias enchiam corações, a letra era carregada de humor e tragédia numa mistura perfeita de agridoce. Acompanhada pelo músico João Erbetta incluiu sucessos dos álbuns “Monomania” e “Problema Meu”, desafiando ainda o público a fazer de coro. Após o concentro e Os Inesperados, a noite terminou com um DJ Set dos Sampladélicos, em que o músico Sílvio Rosado e o documentarista Tiago Pereira nos brindaram com uma performance audiovisual cujo mote era a música portuguesa. Nesta sessão, onde a “música portuguesa gosta dela própria”, pôde-se dançar a memória documental de músicas mais antigas ou histórias/ ambientes em que todos nos revemos.

Findo o primeiro dia de festival é altura de recarregar baterias para o que o dia 30 tinha preparado. Hugo revela ainda que a escolha de artistas passou pelos que considerava serem os que poderiam alinhar no mote do inesperado. “Sim, é preciso eles alinharem. Isso é o mais difícil. Os artistas são sempre quem manda nestas coisas. Podes ter ideias muito fixes, mas tem sempre a ver com a disponibilidade que eles têm, a forma como eles vêm as coisas, o medo de falharem. A coisa que eu mais aprendi com a Porta dos Fundos, por exemplo, foi isso – o fazer. Eles não têm nada aquele receio que todos nós temos de falhar. Esse espírito é muito importante para as coisas efetivamente ganharem escala e, portanto, os artistas é que comandam as operações. Este projeto dos Cuca Monga (que participaram no segundo dia, calma já lá vamos!) representa muito esse espírito. Eles têm um critério de qualidade, querem fazer as coisas bem feitas e que as coisas saiam bem para o público, mas também têm esse espírito de não se focarem no “e se”. Se correr mal, está bem. Estamos a fazer, a construir.”.

De volta ao live cooking e à história do cozinheiro João, Ljubomir começa por pedir ajuda ao público, pois precisava de um assistente de cozinha. É então que o público é surpreendido com o ator Diogo Amaral que se levanta da plateia e vai ter com o chef, vestindo a indumentária apropriada. O primeiro prato representa o João Pé de Feijão, onde nem a terra falta, feita de cogumelos e azeitonas fermentadas. Acabado o primeiro prato, as luzes voltam a baixar e a história continua na voz de Mónica Franco. Desta vez focamo-nos no oceano, pois tal como Ljubomir diz: “Apaixonei-me pelo mar”. É altura de fazer um prato de polvo. As pessoas ouviam em silêncio e de sorriso na cara. Por vezes, o silêncio era interrompido por gargalhadas provocadas pelo humor do chef, que continuava a história relatada por Mónica, mas com os seus toques característicos. Ao segundo prato o cheiro do polvo a caramelizar já chegava à plateia. A última parte da história cruza uma outra narrativa com a vida do cozinheiro – Fernão Capelo Gaivota de Richard Bach. Este foi um livro que inspirou Ljubomir a lutar pelo seu sonho e, tal como Fernão, um dia encontrou um grupo de pessoas que eram como ele e que o ensinaram mais sobre a área que o apaixonava, até que um dia se tornou no professor. Posto isto, a gaivota dá corpo a uma perdiz, o último prato do chef. Termina a agradecer à nossa nação: “Obrigada Portugal, porque foram vocês que me acolheram, que me deixaram ser”. A música enche a sala e Ljubomir dança enquanto a plateia recebe bebidas.

Depois de uma pausa para jantar regressamos com O Mundo Segundo os Ruis, onde Rui Unas, Rui Massena e Mundo Segundo se juntam para um Maluco Beleza ao vivo. A sessão começa com Rui Massena ao piano para tocar uma das suas músicas e com a dúvida “Onde é que fica o dó?”. Só depois começa a conversa com os dois convidados. Rui Massena começa logo por dizer que para ele existe música, como resposta a qual seria a terminologia correta para a sua música: clássica ou erudita? A resposta deste Rui era sempre “sim”. Falou-se, também, da associação improvável destes dois músicos, que afinal não era tão improvável assim. À conversa com o Gerador, Mundo Segundo revelou que “já tive oportunidade de fazer um ou outro espetáculo privado com o Maestro. Ou seja, já tínhamos algo cozinhado de há uns meses e vamos fazer isso. Neste caso, vai ser um pouco de rap ao piano. É totalmente diferente ouvir rap com batida e rap tocado ao piano. A mim dá-me muito gozo e acho que as pessoas que vão lá estar também vão gostar. Por isso, em termos de surpresas planeava que “surpresa será este momento de cocriação com um maestro, porque foi uma coisa que nunca ninguém viu, não foi aberta ao público. Poucas pessoas tiveram o prazer de assistir quando o fizemos e eram pessoas de outro meio, mais velhas e que não têm a ver com as pessoas que normalmente vão ao Famous Fest. Por isso, aconselho todas as pessoas a irem lá porque vai ser algo diferente e que vale a pena irem ver.”. Foi algo diferente em Portugal, pois tal como o Maestro salientou durante a conversa isto é algo que já se faz no estrangeiro. Mundo disse estar entusiasmado por este momento, pois “aprecio há já muito tempo o trabalho do mestre Rui Massena, do qual sou amigo pessoal e também do Rui (Unas) que já conheço há muitos anos. Vai ser para mim um privilégio, porque vamos estar ali os três a fazer uma tertúlia e criar algo em conjunto. Vai ser muito interessante. Esse será um dos momentos que terei curiosidade de ver”. Numa conversa, que foi o casamento entre o humor, o piano do Maestro e as rimas do Mundo, discutiram-se temas que desafiam ambos os estilos musicais. Quando questionado pela forma como as pessoas podiam passar a gostar mais de música clássica, Rui Massena disse que primeiro têm de começar a ouvir. O problema não está na música, está em as pessoas não a ouvirem. Na conversa com Mundo Segundo quisemos perceber se sente que os rappers não são vistos como músicos. “Eu sou MC Produtor e como produzo música, considero-me músico. O rapper acaba por ser mais um poeta e vocalista e é dessa forma que deve ser visto. Agora se fores algo mais do que um MC e produzes música, tens de ser visto como músico”. Revelou, ainda, o desejo  de passar esta mensagem durante a conversa: “durante o ano faço alguns workshops e passo sempre essa mensagem de que o Hip Hop não é uma coisa para miúdos. Existem pessoas com 40 ou mais anos que continuam a fazer Hip Hop e a espalhar boas mensagens nas músicas e a abrir os olhos dos adolescentes para a realidade do futuro. A minha mensagem é esta, uma mensagem positiva e construtiva”. E foi algo que conseguiu fazer quando uma pergunta do público incidiu sobre esta temática. Este Maluco Beleza teve algumas surpresas como o Rui Unas a declamar o seu “Margem Sul State of Mind” ao som do piano ou uma sessão de improviso entre os três, já no final da conversa. Tal como Mundo nos tinha advertido, este ainda não foi o momento de se aventurar pelo piano, mas “já tive essa conversa com o Maestro e será algo que estarei a fazer no futuro e, eventualmente, ter algumas aulas com ele é uma coisa que gostarei de fazer. Ainda não estou preparado (risos). Mas vou preparar a ver se para o ano estou pronto e já consigo fazer qualquer coisa”.

De seguida, a Grande Noite Cuca Monga, um concerto que juntou várias músicas que compõe o coletivo da editora Cuca Monga como Capitão Fausto, Bispo, Ganso ou El Salvador, meteu as pessoas ao rubro, desde logo, pela forma como surgiram em palco. Com calças de ganga, camisola de cavas branca e chapéus variados (desde bonés, a chapéu de pescador ou de cowboy), alguns com óculos de sol, invadiram o palco com a sua energia contagiante.  O Gerador falou com o Tomás Wallenstein, vocalista dos Capitão Fausto, em antevisão do concerto. Seguindo o mote do festival, também Tomás nos falou sobre a questão do medo abordada por Hugo: “o medo é o inimigo dessas coisas todas, não é? Qualquer coisa que um gajo queira estar a criar e a trabalhar em conjunto, é a primeira coisa que faz com que as coisas fiquem fraquinhas e percam o interesse”. Quanto ao que podíamos esperar deste concerto disse que “se este ano fosse a minha primeira vez também não conseguia muito bem responder a esta pergunta, porque não sabia muito bem para onde ia. Nós, o ano passado, fizemos uma data de maluqueiras, desde o planeamento do concerto do Capitão Fasto, convidamos o Samuel Úria, depois irmos fazer a produção da fotografia do cartaz e depois o próprio concerto. Foi tudo diferente do que costumamos fazer que é: lançamos um disco, depois temos um concerto mais ou menos montado, andamos a repeti-lo com algumas alterações. É sempre uma oportunidade para pensarmos numa coisa um bocadinho diferente e tentarmos perceber o que vamos fazer para se integrar neste formato. Portanto, eu acho que é sempre uma experiência enriquecedora”. De todos os projetos que compõe a Cuca Monga, nesta noite uniram-se numa “mega banda. Em que vai estar o conjunto Cuca Monga: os Modernos, os Bispos, o Salvador, Ganso e Luís Semedo. Vamos estar todos a tocar ao mesmo tempo, toda agente que está na editora toca as músicas uns dos outros. Já fizemos algumas vezes este concerto e achamos que era o ideal para a noite, porque é muito bem disposto e segue a parte da comédia. Acho que se vai integrar muito bem”. No palco assistiu-se a um rodopio de músicas, em que se mudavam os postos dos músicos. Ora uns tinham a visibilidade de fila da frente, ora outros ficavam em segunda fila. Mas sempre animados, a aproveitar a música e a balançar coreograficamente com a batida. Uma das promessas do Famous Fest era a de que iria ser a medida perfeita entre o génio e a loucura. Tomás revelou que “nós não vamos equilibrar minimamente. Nós vamos deixar o génio completamente de parte e ficamos mais do lado da loucura. Essa é a nossa participação. Eu acho é que nós vamos estar a puxar a balança para um lado e os génios a puxarem para o outro e isto ficar equilibrado”. Após o concerto, a festa continuou noite dentro com o DJ Set da Cuca Monga.

As espectativas para o festival eram grandes. Hugo Nóbrega conta que “o ano passado o festival acabou com o concerto dos Capitão Fausto com o Samuel Úria e depois com um DJ e aquilo colou de uma forma incrível, foi uma festa em crescendo, foi fantástico. Se acabar com o clima do ano passado já é um clima muito bom, porque representa muito bem aquilo que é uma noite bem passada, despretensiosa. Acho que tem a escala certa (1000 e tal pessoas num sítio) e ao mesmo tempo para mim foi uma noite inesquecível. Saímos de lá tardíssimo e se isso voltar a acontecer era muito bom sinal. Era sinal de que o festival começou a crescer e que agora está novamente em alta”. Tomás deixou o desejo de “não me querer limitar a fazer sempre a mesma coisa”. Mundo Segundo esperava que no final as pessoas dissessem “primeiro, que se divertiram, que é o objetivo principal, e despertar o interesse às pessoas tanto no humor, como no clássico ou o rap. Que as pessoas fiquem a conhecer não só a nossa história, mas também a nossa área”.

Todos estes desejos se concretizaram. Desde o concerto da Clarice Falcão à atuação da Cuca Monga, o festival esteve repleto de momentos inesperados. Num sítio sem pretensões e onde cada um vai para se divertir e ter um contacto mais próximo com aqueles de quem admira o trabalho, estas foram duas noites inesquecíveis, num crescendo de emoção, que aproximaram as pessoas à arte e aos artistas.

 

 Texto e fotografia por Andreia Monteiro