Por Mafalda Ribeiro
Mulher de Fé sem limites com 97cm. Comunicadora; autora. Feliz sobre rodas!

Conseguem imaginar uma história que começa por “era uma vez” e logo a seguir pressupõe um ponto final?

Temos o cenário, as personagens e a acção prestes a desenrolar-se mas a única coisa que se pode adivinhar, perante os factos, é um ponto final. Escreve-se na certidão de nascimento um nome ao qual nada é prometido, a seguir ao era uma vez, a não ser uma certidão de óbito. É tirar ao diagnóstico a possibilidade de prognóstico. É excluir a vírgula e as reticências de se fazerem úteis. Porque no início está também o fim e o ponto.

Só que esta não é uma história qualquer de ficção, é a minha. Desde o meu era uma vez que eu decidi ficar cá para contá-la. Contrariar a ideia do ponto final e colocar antes os pontos nos is, numa espécie de confronto entre a medicina e a fé. Entre o estudado e o inesperado. Entre as estatísticas e o que não cabe na lógica. Entre a ciência e o milagre.

Passaram-se entretanto trinta e três anos e na pontuação da vida fui guardando alguns is. Is que me foram fazendo humana e se calhar mais mulher. Is que me mantêm em permanente auto-educação acerca dos outros e de como também eles me vão construindo. Is que não me deixam conjugar os verbos no passado mas que me fazem ter saudades de um futuro sem sombras. Is que transformaram a minha esperança média de vida numa ode à esperança que é a dádiva do dia-a-dia.

Conseguem imaginar um i sem ponto? Eu consigo. Para vocês talvez soe a incompleto. Para mim é apenas diferente pois não deixa de ser um i. Ainda que o ponto faça parte dele, não o define. Tal como a minha cadeira de rodas que não sou eu. Tal como a minha embalagem, que, à luz da estética que envolve a minha condição, pode ser considerada como um i que lhe falta o ponto, pura e simplesmente porque não é comum.

“Pontos” no caminho? Guardo todos, um dia vou construir um castelo! Sem reservas, desconfianças ou coisas por dizer. Quero existir sempre de pratos limpos. Caminhar de agulhas acertadas com quem um dia me imaginou assim. Enfrentar os olhares curiosos de frente. Chamar as coisas pelos nomes delas porque os rótulos não passam de adesivos. Fazer da minha verdade translúcida como o vidro que dizem ser a matéria dos meus ossos.

Estes são os is que guardei para colocar por baixo dos pontos. E este é o castelo que gostaria de deixar a quem quiser contar o meu “era uma vez”.

Imperfeita: depois de sete ecografias que supostamente ditariam “perfeição”, este é o segundo nome da minha doença rara detectada apenas quando vim conhecer o mundo.

Incapacidade: não dei os primeiros passos, nunca andei, mas as rodas e os colos fizeram com que desistir fosse uma carta fora do baralho.

Improvável: contrariei todas as expectativas que até os mais optimistas tinham a meu respeito. Mais de 90 fracturas. Ter hoje ainda o tamanho de uma criança.

Independência: ser autónoma e independente são coisas diferentes. É na minha falta de autonomia que dependo de alguém e isso é uma benção porque mata o meu ego que pode desaguar em egoísmo.

Inclusão: que não se confunda integração com inclusão. Integrar é fazer pequenos ajustes, mas em nome da diferença é necessário que se faça mais para todos.

Identidade: não controlei nada do que veio à minha vida, mas posso controlar o que sai dela. Mudar a nossa perspectiva sobre as coisas pode mesmo mudar as próprias coisas.

Influência: podia manter-me na minha própria redoma de protecção de amor dos meus e por lá ficar a ser feliz à minha maneira. Só que partir o vidro dessa redoma é algo que não traz dores nem faz estragos, muito pelo contrário.

Que isto vos mova a Ir, ponto.