A Páscoa é a principal festa religiosa da cristandade, indicando o momento da ressurreição de Jesus Cristo. O nome em hebraico significa passagem (Pessach) supondo-se que este significado muito antigo se refira a celebrações pré-históricas do fim do Inverno e início da Primavera, da “passagem” do mundo morto onde a terra não recebe semente nem produz, para o mundo que rejuvenesce.
A data foi definida por decreto do Concílio de Niceia, no ano de 325 d.C. convocado pelo imperador Constantino.

Para os judeus “Páscoa” significa a saída do povo de Deus do Egito, marcando o fim da escravidão. As comidas típicas populares da véspera são semelhantes àquelas consumidas pelo povo hebreu no passado, com relevo para o borrego, comido de pé com o pão ázimo (matze)
Nesta altura muito especial do ano é comum em todo o país comer-se o borrego ou o cabrito assado.

É também prato típico da Páscoa o “folar de carnes”, preparado sobretudo no Alto Douro e em Trás-os-Montes. Sendo do género “salgado” é recheado de carne de vitela, frango, coelho, porco, presunto e rodelas de salpicão, cuja gordura dá sapidez deliciosa à massa que vai então ao forno. Podem ser grandes e altos, como em Bragança ou Mirandela, ou mais pequenos, como em Freixo de Espada à Cinta.

Mas existem alternativas gastronómicas de tradição muito antiga: na região do Porto algumas casas não desdenham o lombo de boi, também conhecido como “boi da Páscoa”, na zona da Beira Litoral, prepara-se a chanfana e o leitão assado. Em Trás-os-Montes não se passa sem o folar de carnes atrás citado, e no Alentejo embora o borrego seja o ingrediente principal, normalmente assado ou em ensopado, também se comem as mioleiras de borrego como entrada e aproveita-se igualmente o sangue e as vísceras para o sarapatel. A festa religiosa no Norte e Beira Alta passa pelo “compasso”, um grupo liderado pelo pároco local, que carrega o crucifixo e percorre as casas para as benzer.

Vários pratos típicos estão nas mesas das casas que recebem o “compasso” do pároco: “bôlas” recheadas, cabrito, folar doce ou “pão-doce”. Há ainda pão-de-ló, e, nos respetivos locais de origem, bolo de Margaride e os “borrachos” (de ovos, açúcar, pão ralado e canela) de Valença do Minho. Sem esquecer a garrafa de vinho fino, do Porto ou abafado.

No maciço central, por onde terá andado Viriato, a Páscoa é a altura ideal para se ter na mesa o melhor Queijo da Serra do ano. Tradicionalmente as famílias que arrendam pastos ao pastor convidam-no para o almoço de Páscoa, sendo obrigatório que o pastor traga como oferta um queijo feito em sua casa, normalmente de dois quilos, ou mais.

Um almoço de Páscoa nessas terras da Beira Alta, em casa de lavrador abastado, começava a ser preparado com antecedência, falando com o pastor para matar um borrego adequado que não se queria muito pequeno. Na Quinta-feira santa e na Sexta-feira santa não se mata gado, pelo que este assunto tinha que ser tratado antes.

O peso ideal do borrego da Páscoa (a chamada “carne de luxo” naquelas terras) andará pelos sete a oito quilos. Chama-se a este animal “mamão” por já ter idade para pastar mas andar ainda ao redor das tetas da mãe.
Temperava-se o “mamão” ainda na véspera com massa de pimentão, sal, louro, alho, azeite e vinho branco.

No dia seguinte o forno de cozer pão acendia-se logo pelas 7.00h da manhã e na altura de atingir a temperatura adequada começava a assar. Descascavam-se as batatas pequenas para o forno e faziam-se as obrigatórias “ervas à moda da serra”.

As “ervas” de que falo são o “esparregado de nabiças feito à moda serrana”. Eis como se faz: ” Migam-se as folhas de nabos como se faz à couve-galega para o Caldo Verde, grosseiramente e à mão, com faca. Cozem-se em água com um pouco de sal e, no fim de cozidas, escorrem-se muito bem. Em seguida colocam-se num tacho vários dentes de alho (3 ou 4) bem picados e junta-se azeite do melhor. Deixamos aquecer mas não refogar. Juntamos depois as nabiças escorridas e mexemos bem. Junta-se, por fim, um pouco de leite e de farinha mexendo sempre.
Ao retirar do lume dá-se um bom golpe de vinagre de vinho.”

No que diz respeito às sobremesas, eram doces típicos obrigatórios na mesa da Páscoa da Estrela: leite-creme e arroz doce, o pão-de-ló, Nesses tempos não se ouvia ainda falar de amêndoas cobertas de açúcar ou de ovos de chocolate.

O vinho tinto que se bebia nesses almoços de Páscoa tradicionais era o melhor que se tinha feito no ano passado na casa agrícola.

Para os dias de hoje, e admitindo alguma escassez de proprietários agrícolas que ainda fazem vinho, sobretudo nas nossas cidades, aqui deixo algumas recomendações para o cidadão comum, desta vez em garrafas de litro e meio (formato “magnum”) que estão cada vez mais na moda por permitirem melhor guarda do vinho em nossas casas e serem ideais para refeições com vários convivas: Quinta das Bágeiras 2011 Bairrada (Magnum) por cerca de 70€; Quinta da Pellada 2012 Dão (Magnum) por cerca de 82€; Crochet 2014 Douro (Magnum) por cerca de 85€; Mouchão 2009 Alentejo (Magnum) por cerca de 125€.

Boa Páscoa!

Por Manuel Luar