Quem se casou nos anos 70 do século passado terá quase de certeza recebido o clássico “serviço de copos” como prenda de casamento. Era uma opção para Tias e Tios, que ficava entre o (mais caro) serviço de mesa da Vista Alegre e os (mais económicos) serviços de chá e de café da mesma proveniência.

No meu caso o que estava na moda na altura eram uns copos de pé alto e lapidados em diamante, de bordas direitas. E quase tão pesados como a Taça da Champions League. Nesses tempos a disposição na mesa tinha que ser o copo para água (o maior) à esquerda, e seguia-se por ordem decrescente de dimensão, o de vinho tinto, o de branco, e o de Porto (que parecia quase um dedal).

As “flûtes” para o Champagne começavam a aparecer, mas o que se usava ainda eram as “taças”. Aquelas que teriam aparecido pela primeira vez em França lá para 1780, tendo sido o primeiro exemplar moldado em cima dos seios da rainha Maria Antonieta, segundo diz a lenda. Todavia as “taças” não se colocavam na mesa. Eram utilizadas perto do aparador de serviço, para receberem os convidados com champagne e aperitivos.

Diria o Senhor de Chabannes de La Palisse que, para além do próprio liquido, o outro elemento fundamental do serviço de vinhos são os copos. Os especialistas garantem que o mesmo vinho servido em copos distintos sabe e cheira de modo diferente. Eu já tive ocasião de comprovar esta afirmação. Sobretudo se utilizarmos copos com diferenças notáveis de capacidade e de forma.

Trata-se de uma visão mais técnica e apurada do assunto, relativamente moderna, e que teve uma consequência imediata nas grandes firmas que comercializam copos de qualidade, as quais apuraram o respetivo marketing de forma a criar (com algum exagero, digo eu) tipos de copos adequados a castas de vinhos e a regiões, e já não apenas para vinho branco, tinto e champagne.

Se visitarem os “sites” das mais famosas marcas de copos de vinho – Glass&Co, Leonardo, Riedel, Schott Zwiesel, Spiegelau, Zalto, (por exemplo) – poderão constatar isso mesmo. Algumas das propostas elencam mais de uma dezena de derivações de copos para vinhos tintos e quase outras tantas para vinhos brancos.

E em relação aos preços estaremos a falar de um intervalo que pode variar entre os 3€ por copo do modelo “Ivrig” da Ikea (que não está na lista dos mais conceituados, mas será o mais vendido mundialmente), e os 30€ por copo do modelo “Universal” da Zalto.

Não querendo entrar em preciosismos de grandes conhecedores, daqueles que até conseguem detetar na prova a aldeia onde foi abatido o carvalho da pipa que deu madeira ao vinho (passe o exagero), sempre vos digo que para um dos nossos jantares em casa, formal ou informal, devemos ter no mínimo 4 copos disponíveis, todos com pé: o de vinho tinto (que deverá ser o maior), o de vinho branco, o flûte de champagne e um copo para destilados que tanto pode ser um balão como um cálice mais alongado, dependendo do que se vai beber. O copo para a água pode não ter pé e admite-se que estará na mesa facultativamente.

Sobre os copos para vinhos deixo aqui algumas indicações: O copo deve ser incolor e sem quaisquer ornamentos, de modo a poder ser apreciada a cor e a limpidez do vinho. Deve ter igualmente um pé por onde se pegue, de forma a evitar que a mão aqueça o líquido. E ainda possuir uma boa capacidade, para que o vinho contacte livremente com o ar, admitindo que um copo será cheio somente até dois terços da respetiva capacidade.

Finalmente, deverá ter uma forma do tipo tulipa, curvando nos bordos para o interior, para concentrar os aromas. O que convém sempre fazermos antes do serviço é examinar cada copo antes de os colocar na mesa, procurando manchas. E estarmos preparados para detetar os cheiros a “armário” ou a “detergente”, que por vezes se concentram nos copos.

Embora possa parecer estranho a alguns (ou algumas) os copos lavam-se apenas em água morna ou quanto muito com detergente neutro, se forem à máquina. Depois de lavados deixam-se a escorrer com a boca para baixo, em cima de um pano de cozinha. E no dia seguinte secam-se bem antes de arrumar outra vez.

Se estão guardados em armários fechados com pouco uso, devem ser tirados para fora um dia antes do serviço, passados por água, secados e postos a arejar. Dentro do armário arrumam-se por alturas, com as bordas para cima e deixando algum espaço entre eles, para ajudar a manusear.

São pequenas atenções, mas que se revelam muito importantes na altura de apreciar um grande vinho, tinto ou branco. Uma garrafa de um tinto “reserva especial” que acompanhe e realce o assado no forno merece estes carinhos, e vai devolver esse amor aos provadores logo de imediato.

Porque se o que estiver em causa for um verde tinto “vinhão” do ano, para acompanhar as sardinhas assadas no quintal, não se deem a estes trabalhos. É ver se o copito está lavado e andar para a mesa. “Atar e pôr ao fumeiro”, diriam noutro enquadramento.

Por Manuel Luar