O português citadino come mal de manhã. Troca a elegância de comer sentado pelo conforto de mais uma hora de cama. E quem o poderá criticar?

Antes de sair de casa engole um copo de leite a correr, normalmente com um pãozinho da véspera recheado de queijo ou de fiambre. Se tiver mais uns minutos fará uma torradinha.

O que não deixa de lado é a tradição da bica nalgum café já perto do emprego.

Mesmo assim muito melhorámos. Recordo que quando comecei a universidade, em 1972, vi muitas vezes operários a pedirem num quiosque, às sete da manhã, um pãozinho com manteiga, um café e um bagaço, “para matar o bicho e começar bem o dia…”

Outras terras, outros hábitos.

Regresso de novo à alameda da memória para evocar mais um pequeno-almoço fora do comum, desta vez nos Países Baixos, onde me encontrava para uma reunião de trabalho na zona de Dordrecht (Zuid-Holland).

Dordrecht (ou “Dordt” para os habitantes) é uma bela cidade situada na confluência de vários braços do Mar do Norte. Por isso a gastronomia local é uma mostra de tudo de bom que aquele mar permite apanhar. Até nos pequenos-almoços mais formais, como fiquei a saber.

O nosso anfitrião era um homem que vivia para divulgar o património da sua terra, com grande relevância para a gastronomia. Tinha por missão na vida, segundo me confidenciou, tirar da ideia dos europeus do sul que a cozinha holandesa era feita de guisados de peixe e vegetais com queijo “gouda” à sobremesa, tudo engolido com o auxílio de canecas de Heineken. Em mesas decoradas com um jarro de túlipas.

De facto, sobretudo no sul dos Países Baixos que receberam uma grande influência da Borgonha, a cozinha tradicional é bem sofisticada, com um tratamento notável dos produtos locais.

Mas voltando à vaca fria (que neste caso será peixe), o amigo Visser presenteou-nos com um pequeno-almoço de homem do mar do norte, que por ser servido ao domingo e já a uma hora mais tardia – das 10h para as 11h – foi um digníssimo precursor do que mais tarde haveria de ser entronizado civilizacionalmente como o “brunch”.

Deixo de lado a mesa com o habitual carregamento de manteigas excecionais, natas, leites, pães de todos os tipos e queijos vários. Basta referir que a Holanda tem dos melhores lacticínios do mundo, sendo um dos primeiros países a apresentar comercialmente variedades com sal, meio sal e sem sal.

O interesse estava voltado para a novidade: um balcão comprido onde duas senhoras estripavam e filetavam arenques e cavalinhas ainda a bater a cauda, passavam-nos por água, mergulhavam os filetes em travessas com várias marinadas (limão, molho de tomate, cidra e vinagre, natas ácidas, etc…) e alegremente passavam-nos para os pratos de servir à mesa, rindo muito das nossas caras de espanto.

Noutra mesa estavam os mesmos peixes, simplesmente fumados ou em conservas de vários tipos, servidos em grandes fatias de pão preto acabado de sair do forno e a pingar daquela manteiga magnífica. Ali se encontravam também as obrigatórias enguias fumadas típicas da região e o muito bom salmão selvagem.

Tudo isto, peixe fumado e cru, era proposto com conservas de “pickles” em abundância e variedade. O que ainda foi o que salvou alguns paladares mais delicados.

Grandes cafeteiras e bules de chá davam o complemento líquido, embora o maroto do Sr. Visser não se esquecesse de pôr discretamente, ao fim da fila das mesas de serviço, uma maquinazinha de tirar Heineken à pressão.

Foi um “brunch” tão completo que serviu de pequeno-almoço, almoço e jantar…Com direito a  “kompensan” antes da deita.

A minha vingança demorou dois anos mas foi terrível. E passou-se numas caves de Vinho do Porto.

O amigo holandês, após um leitãozinho na Mealhada já de si bem regado, viu-se às cinco da tarde rodeado em Vila Nova de Gaia por garrafas de Porto de idade avançada, sobre as quais destemidamente avançou. Depois das provas de várias colheitas centrou-se numa única daquelas garrafitas, a qual derrotou por completo. E ainda rematou com uma aguardente velha Ramos Pinto. E foi esta que o venceu.

Toma lá que é para aprenderes a dar peixe cru ao “tuga”.

 

Manuel Luar