Chega o Verão e pedem-me receitas para uma “sangria”, uma bebida fresca, pouco alcoólica, que nos dê algum conforto nestas tardes de canícula.

A origem da palavra associa a cor do vinho tinto à do próprio sangue. E, tirando para fora da conversa as variedades com base na “zurra valenciana” – a sangria branca , é aceitável que atribuamos a origem da sangria, tal como a conhecemos, ao sul da Península Ibérica, especialmente à região da Andaluzia e ao nosso Alentejo (com boa vontade).

A sangria das tabernas andaluzes esteve sempre associada às Touradas, à Festa Brava. Este “Sangre de Toro”  festivaleiro, estival e aficionado  contribuiu  talvez também para lhe dar  o nome há muitos anos atrás. Tinha uma vantagem naqueles tempos de miséria: era barata de fazer, tinha pouco grau álcool, podia-se, por isso mesmo, beber à vontade.

Aqui vão algumas receitas, começando por aquela que se considera ser a “base” de tudo o resto:

No fundo do jarro colocar laranjas, limões, maçãs e outras frutas eleitas. Cobrir com açúcar e bebidas alcoólicas (já lá chegaremos). Com uma colher de pau, um rolo da massa ou qualquer outro instrumento contundente, macerar bem o conteúdo.

Está feita a “massa” da sangria. Depois despejamos, sem contemplações, duas garrafas de vinho tinto para cima da “mistela” e mexemos tudo. Podemos refrescar, deixar repousar e beber.

Não usem o vinho tinto mais barato que encontrarem! Eu utilizo muita vez os vinhos do Dão, elegantes e de boa relação qualidade\preço. Por exemplo, um Dão Cabriz do ano.

Quem gostar da cor tinta mais carregada deve usar um vinho mais “retinto”. Como os que são feitos com base em Alicante Bouschet. Deitem-no 24 horas antes de servir, para macerar e ir tomando o gosto.

Passemos à parte em que podemos personalizar a “nossa” sangria.

O ideal é utilizar laranjas amargas. Como as avenidas de Lisboa já não são decoradas a laranjeiras bravas, podemos e devemos usar Cointreau.

Maçãs Bravo de Esmolfe, se se encontrarem são belíssimas e de bouquet inestimável. Mas algo doces. Contrariem com mais limão ou lima sff. Os citrinos (Limões, laranjas e limas) são muito importantes para dar o tom à bebida. Lavem sempre bem e descasquem. Admito que não se descasquem as variedades de casca bem fina. Por norma as rodelas com casca  à vista ficam apenas para a decoração final.

Devemos usar igualmente um bom Gin: Gordon’s, Tanqueray, a escolha é cada vez mais variada, agora que virou “bebida da moda”.
O Vinho do Porto, em pequenas quantidades resulta bem,
Cointreau e Gin, três “shots” de cada devem ser suficientes. E dois de Porto.

Prova-se, a quente. Se estiver muito doce acrescente-se mais limão, se estiver muito forte, acrescente-se vinho. Quando estiver perfeitamente equilibrada, tapa-se e vai para o frigorífico durante – pelo menos – 24 horas.

A hortelã, preferencialmente as folhas pequeninas da ponta do ramo, pode ser logo introduzida e ir “dormir” com a sangria. No dia seguinte deitamos umas folhas maiores, assim como rodelas inteiras de maçã e laranja, só para enfeitar.

E está feita a nossa sangria.

Perguntarão onde é que fica a gasosa ou outro refrigerante nesta potente sangria. Eu digo que fica no copo.  A sangria deve servir-se em copos grandes, só com gelo, para os mais aventureiros e afoitos e “cortada” com refrigerantes, na quantidade que se desejar, para quem preferir um refresco menos forte. Podemos utilizar 7UP ou outro tipo de gasosa.

Uma variante interessante é esta que apresento de seguida, uma Sangria de Espumante, que costumo fazer muitas vezes no pino do Verão. Esta não necessita de “descanso” no frigorífico. É feita no momento.

2 colheres de sopa de açúcar amarelo

1 pacote de frutos silvestres, amoras, mirtilos, framboesas
2 laranjas (idealmente das sanguíneas)
1 limão (ou lima)
1 pau de canela
1 garrafa de espumante
1,5 cálice de Cointreau
3 folhas de hortelã
1 garrafa pequena gasosa ou 7up
sumo de 1 laranja

Colocam-se num jarro grande os  frutos silvestres, 1 laranja descascada e partida aos quartos, o mesmo com o limão. Juntamos   o açúcar amarelo, um pau de canela, duas folhas de hortelã, o licor e  o sumo de laranja.

Mistura-se tudo e na hora de servir despeja-se a gasosa (ou 7up) e  a garrafa de espumante, ambas bem frias…Decoramos com as rodelas da outra laranja e um ramo de hortelã.

Espumante  – Gosto de usar um Blanc de Blancs . Experimentem o Soalheiro de Alvarinho.
Gasosas ou Seven Up’s – Tal como o espumante, e ao contrário do vinho tinto, devem apenas ser entornadas no momento de servir. E bem frias.
Gelo? – Por norma não coloco no jarro… Apenas no copo se houver necessidade. Mas há quem goste no jarro, para diminuir a concentração da mistura.

Quando Beber? – Só recomendo uma regra: nunca às refeições!

Que me desculpem os que a apreciam com as sardinhas, saladas de frango, pastas ou outras coisas estivais… Mas de facto não parece bem acompanhar a comida com bebidas adocicadas deste tipo…

Fora isso quando quiserem! Mas quando nos sabe melhor é nestes fins de tarde de Verão, fazendo de aperitivo para o jantar…

Manuel Luar