Eu ia à pesca. Sendo que aqui o mais importante da frase é o tempo do verbo: “Ia” (do passado). Não confundir com IA – Imposto Automóvel.

Atualmente, a simples visão imaginada da minha pessoa num barco pequeno a remos causa-me alguns arrepios. Nos dias que correm a minha função a bordo só poderia ser uma de três: Boia de salvação, no caso de algum percalço; servir de lastro para aliviar a carga dada a importante relação peso/volume; e, finalmente, no caso dos grandes desastres, servir de ração de emergência para a tripulação inteira de algum ferryboat afundado nos mares da China.

Mas vamos lá a pôr o comboio nos carris. Como disse,  eu ia à pesca.

Meu pai levava-me na “chata” do Bino banheiro, da praia da Azarujinha, e íamos direitos aos pesqueiros escondidos, um dos quais era conhecido por “Janela Aberta”. Íamos de noite para regressar de madrugada.

Encontrava-se o pesqueiro fazendo o alinhamento entre dois pontos visíveis da costa a cerca de um quilómetro e meio da praia. Um deles parece-me que  era o forte novo da praia de S. João, do outro já não me lembro.

Estes “pesqueiros” faziam parte da tradição dos homens do mar ali da zona. A sua localização passava de pais para filhos, em segredo, porque havia já o cuidado de ir poupando na exploração dos recursos do mar.

Apanhavam-se safios, moreias para secar, algum robalo, corvinas, sardas e cavalas, petingas e sardinhas e, em certas noites de lua cheia especiais e luminosas,  as famosas lulas da toneira, que tinham aprestos próprios, parecidos com o “polveiro” da praia, para se apanharem. Vinham ao luar, provavelmente em busca de sexo.

Polvos, como referi, e os linguados, pescavam-se mais perto da praia. E os mexilhões eram petisco nas marés baixas grandes, quando as rochas ficavam à vista. Eram a do “Pescoço de Cavalo”, de onde mergulhávamos, e as duas gémeas à entrada da Azarujinha, os chamados “Corvos”. Lembro-me ainda de nas mesmas rochas crescerem percebes, embora pequenos.

O que ainda não disse é que tudo isto se passava a 150 m de minha casa, a menos de um quilómetro do Casino Estoril, mas – e obviamente – há já 50 anos atrás…

Quando as marés vivas prenunciavam as grandes vazantes  era certo e sabido que tínhamos a petisqueira do mexilhão de tomatada lá no pequeno quintal da nossa casa. Vizinhos e amigos partiam de madrugada para a apanha do marisco e lá mais para as cinco da tarde estava a panelona ao lume, com a base de boa cebola tomate e alho, sal e alguma malagueta. Ali se deitavam os mexilhões depois de bem escovados e lavados em muitas águas.

Acompanhava o petisco  uma água-pé bem fresca (para alguns a clássica Cerveja Sagres) e a então famosa “Laranjina C” para a malta menor de idade. Um vizinho trazia uns queijos frescos de Mafra, outro não se esquecia do chouriço e do paio, meu Pai e o meu Tio Joaquim cozinhavam e forneciam as bebidas. O pão vinha também ele de Mafra e, se o Bino banheiro acedia a compartilhar a frugal mesa, era certo e sabido que aparecia em apoteose com um saco  cheio de navalheiras e de bruxas, “roubadas” ao Pai João Banheiro dos muitos “covos” que este mantinha ao largo.

E ficava tudo à conversa até bem por dentro da noite.

A “água-pé” era feita mesmo ali ao lado no Vale de Santa Rita, numa adega de “amadores” com piso de terra batida onde a frequência era dividida ente os “sócios” e os “convidados”. Sem prosápia nenhuma. E era uma “cooperativa”. Todos entravam com dinheiro para as uvas e para os outros custos do processo. Depois eram distribuídos os garrafões de acordo com cada “quota”.

A água-pé era um “vinho dos pobres” que se obtinha aproveitando o mosto do vinho. E teria sido inventada pelos patrões das explorações agrícolas ribatejanas para os trabalhadores beberem, porque tinha menos grau álcool e era mais barata.

Fazia-se no próprio lagar depois de envasilhado o vinho. Espalhava-se bem o mosto, mexia-se e adicionava-se-lhe água. Pisava-se e deixava-se repousar umas horas até ferver. Depois abria-se a bica do lagar e saía água-pé.

Não tenho saudades desses anos. Não havia saneamento básico em muitas casas, mesmo ali no centro do Estoril “pobre”. Não havia liberdade de expressão. Não havia nem igualdade de direitos nem de obrigações para os dois sexos.

Mas havia peixe e marisco a escassos metros da costa.

E, o que tinha alguma importância para fazer esquecer as agruras da vida, o Benfica reinava e ganhava, com o grande Eusébio da Silva Ferreira a pintar de vermelho e negro as tardes de Domingo e as Quartas-feiras europeias.

Não tenho saudades desses anos. Mas tenho saudades de algumas coisas dessa época…

Não existem mundos perfeitos…

Manuel Luar