Nem só de almoços e jantares vive a humanidade. Quando nos levantamos há que “desjejuar” e idealmente no meio da tarde haveria depois que “lanchar”. Sem esquecer os tempos antigos de uma certa classe mais abastada, que ainda tinha espaço para meter a “ceia” depois do jantar e antes da dormida. A moderna medicina dietética recomenda que se coma pouco de cada vez, alimentos bem escolhidos e várias vezes por dia.

Estaríamos assim a recuar no tempo das cinco refeições do século XIX – para quem podia, porque os outros 99% da humanidade se passassem o dia com uma sopa já gozavam. Não é bem assim. O que hoje se recomenda para a composição de cinco refeições diárias nada tem a ver com o exagero de ostentação das mesas ricas de antigamente, em lares onde era mister haver cozinheira e ajudante de cozinha, mais as obrigatórias “criadas”, de dentro e de fora.

Numa coisa contudo bate certa a preocupação da moderna ciência com a das nossas avós ou bisavós, sobretudo se fossem da província: a mais importante refeição do dia é o pequeno-almoço. Discorrer sobre o pequeno-almoço não pode nem deve ser feito a correr. É matéria que dará tema pelo menos para duas crónicas destas, referenciando a abundância da refeição nórdica conhecida vulgarmente como “english breakfast” e não deixando de dar notícia dessa modernidade chamada “brunch”, que hoje é de bom-tom existir aos domingos nos melhores hotéis de qualquer capital do mundo civilizado.

Comigo – menino da linha habituado ao café com leite e à vianinha com manteiga antes de ir para a escola – os pequenos-almoços completos que mais me impressionaram foram os registados por James Alfred Wight, o veterinário do Yorkshire mais conhecido pelo “nom de plume” James Herriot, autor da celebérrima série de livros sobre as atribulações da profissão na Inglaterra depois do final da 2ª Grande Guerra: “All Things Great and Small”.

Situando o leitor no tempo e no espaço, um veterinário no Yorkshire nesse tempo em que começava a fazer-se a transição da agricultura “puxada” a grandes cavalos de tiro, para a agricultura de tratores e de motocultivadores, tinha tanto de saber tratar de porcos, de vacas, de ovelhas e de cabras e dos ditos cavalos, como igualmente dos gatos e cães de estimação.

E o seu dia de trabalho efetivo nunca tinha menos de 13 horas, começando geralmente pelas seis da manhã. Sem contar com as emergências médicas, das quais recordo com humor um caso de uma porca premiada, menina dos olhos de um marquês, par do reino, que esteve em trabalho de parto da meia-noite para as cinco da manhã.

Almoçar ou jantar eram processos mais ou menos aleatórios, dependia do que havia para fazer e de onde se encontrava o praticante nessas alturas. A única refeição certa do dia era, por isso mesmo, o pequeno-almoço.

Justificava-se assim que a governanta da casa dos veterinários (Edna Hall) se levantasse às cinco e apresentasse na mesa do pequeno-almoço de todos os dias um “banquete” como o que segue: Salsichas frescas, Yorkshire black pudding (uma morcela de sangue e pão), rins de cordeiro grelhados, bacon fumado frito, tomates fritos, feijão guisado com bacon. E ovos, muitos ovos: mexidos, estrelados, escalfados. Sem esquecer os cogumelos no tempo deles, em omelete ou salteados na frigideira. O pão à fatia grossa, de duas qualidades, esmagava dois cestos de boa capacidade.

O enorme bule de chá preto decorava o centro da mesa e fazia a parte do acompanhamento líquido.
Era (e é!) obra…
Igualmente pantagruélico – e mais perto da modernidade – foi o pequeno-almoço em “buffet” que tive ocasião de comer ao sábado num hotel tradicional de S. Francisco (Califórnia), por volta de 1988:

Ao lado das imperativas panquecas com xarope de ácer, havia batatas “hash brown” (levemente cozidas, depois raladas, temperadas e fritas até ficarem bem douradas), um enorme presunto inteiro assado no forno à moda da Virgínia (com mostarda a servir de tempero e doce de laranja amarga para fazer o vidrado), o clássico bacon bem frito na sua própria gordura, omeletes de salsa e cebola, de presunto, de queijo; um dedicado cozinheiro ia fazendo as omeletes enquanto outro tratava de grelhar escalopes do lombo de vaca e de porco para ir abastecendo duas travessas aquecidas.

Noutro aparador estava a composição doceira: danish (bolos finos com creme), bagels (rosca de pão de especiarias), bolo inglês, croissants, e tigelas a perder de vista com as compotas. Para desenjoar, um tacho com mexilhões, uma travessa gigante de salmão fumado e, piscando o olho à tradição chinesa (com Chinatown ali perto) uma mesa carregada com especialidades asiáticas de pequeno-almoço, com caldos de arroz, caldos wonton (frango, camarões, cogumelos e carne de porco) pães recheados (baozi), crepes fritos, e os notáveis dim-sun (pequenos bolos recheados de várias condimentos, cozidos em vapor).

Para beber havia sumos naturais de várias proveniências, idem, idem para os tipos de chá e o inevitável café americano, fraco e servido em caneca. Admito que hoje em dia esta abundância não nos pareça hoje assim tão extraordinária em hotéis cosmopolitas, mas estávamos em 1988 e o mundo era outro. A ideia peregrina dos estabelecimentos hoteleiros mais finórios começarem a incluir no ramalhete do pequeno-almoço a garrafa de champagne, o caviar, as trufas e os morangos (com ou sem chantilly) entrou mais tarde neste campeonato, porventura por influência das celebrações de fim-de-curso de algumas escolas de elite nos USA. E em Inglaterra.

E acabou por se tornar um adereço de marketing que atrai clientes que possam pagar estas extravagâncias. Sorrio ao imaginar como o veterinário James Herriot, já com as galochas calçadas para ir fazer uma cesariana a uma vaca leiteira, teria encarado essa possibilidade…

Manuel Luar