O Gil encontrou-se na esquina com o ilustrador Nuno Saraiva, com quem trocou algumas ideias :-)

Encontrei-te na Esquina #16 com Nuno Saraiva 

O que faz o teu espaço de trabalho teu?

Conforto, acima de tudo. Ou inspiração. Não posso dizer que seja exactamente a inspiração do espaço, porque encontro inspiração principalmente em pessoas, no convívio. Hoje viram três espaços de trabalho meus, talvez ainda sejam quatro, com a Associação Renovar a Mouraria, e em cada um o que me inspira são as vivências.

Achas que o público está consciente da omnipresença da ilustração?

Sim, diria que sim. O público urbano apercebe-se da ilustração e das suas variantes. Os trabalhos em murais são ilustrações gigantes, e são o que mais se vê na cidade. A ilustração está na moda. Começam a surgir galerias que investem em espaço para ilustração de autor – que é ilustração não publicada, geralmente não é feita com o propósito de ilustrar um artigo; é uma ilustração que é mais poética, talvez experimental, feita por pessoal mais jovem que está a tentar furar o mercado. Há cada vez mais instituições, poderes públicos e políticos, que recorrem à ilustração, porque sabem a força que tem. Vale mesmo muitas palavras, não é?, e tem um conteúdo enorme, não só político.

 Achas possível ensinar arte?

Sim. Bem, é uma daquelas questões filosóficas a que nunca sei responder. É como analisar O Banquete de Platão, ou tentar perceber a diferença entre o Gosto e o Belo. São fronteiras que não conhecemos bem, entre o bom desenho e o mau desenho, o que é arte e o que não é. No séc. XX foi um tema muito abordado: se retirarmos a função a um objecto, será que ele passa a ser arte? Daí A Fonte do Duchamp, ou aquele banco com uma roda no assento. Ensinar arte é essencialmente abrir mentalidades. Não é dizer desenhas mal, é dizer Já pensaste no desenho desta forma, já pensaste em torna-lo nesta coisa diferente, etc. É abrir espaços para pensar. O que é arte para mim pode não ser arte para ti. Em vez de um ensinamento, deve ser uma forma de abrir caminhos para cada um encontrar respostas.

 Qual foi a última vez que viste algo de transcendente?

(risos) Na intimidade? Bem, o transcendente é algo que vai para além da vida comum. É o único, seja bom, seja mau. O nascimento de uma criança, a morte de um parente. O nascimento da minha filha, por exemplo, olhar para ela, acreditar que estava a sorrir para mim, é transcendente. E a morte de um parente ou de uma pessoa próxima, que também é um renascer para nós, um acontecimento que nos faz mais fortes precisamente quando devíamos estar mais fracos. Não sei dizer qual foi a última vez… Acho que foi uma graça da minha filha, uma piada dela que me fez rir.

O que te atrai mais nos espaços informais?

Autenticidade. Não há coisa que mais me irrite do que o artifício, a plasticidade. Há sítios em que não gosto de passear; bares da moda, espaços da moda no geral. Não encontro autenticidade lá, ou nas pessoas. O que é engraçado é que mesmo essas mentes que procuram a artificialidade o fazem imitando o popular, o grotesco, o autêntico. Talvez porque se sentem fragilizadas, ou ausentes de conteúdo, ou mesmo de realidade. Gosto da autenticidade numa tasca, nas pessoas. Embora ache que em Alfama, o bairro dito mais autêntico, as pessoas fazem teatro: são exibicionistas, agridem o espaço do outro. Acho que é representação pura. E há outros bairros, como a Mouraria, o que eu mais acarinho, que reúne de tudo um pouco. E o que é curioso é que já desde tempos idos – antes de Portugal existir como condado – a Mouraria já era o sítio de chegada do estrangeiro que não era aceite e se instalava ali. Hoje vou à Mouraria e vejo o que é na sua essência ser-se lisboeta, que é ser-se emigrante. Seja de onde se parte, seja imigração de outro país, de África, dos países em roda do Mediterrâneo, do Brasil… É isto que me atrai. Os não-locais.

 Que trabalho é que te falta fazer?

Numa palavra: todo.

Entrevista por Gil Sousa

Fotografia por Matilde Cunha