O Gil encontrou-se com o Luís Clara Gomes, ou Moullinex, no estúdio do músico em Lisboa :-) 

Com que idade te sentes?

Sinto-me com idade para ainda fazer muita coisa que quero.

Chamas-lhe “barulho”, mas consegues descrever a tua música?
Consigo. Descrever a minha música… Sei que não é negativa, não necessariamente positiva, mas não negativa. OK, consigo mais facilmente dizer o que não é do que o que é.

A vossa editora [Discotexas] é algo de que sentiste a falta quando estavas a começar na música?
Não a criámos com a pretensão de ocupar um espaço que precisava de ser ocupado, mas, quando muito, trazer um espaço que estava nos corações com vontade de transbordar. Ou seja, temos muita música de que gostamos, música que fazemos e de pessoas cuja música admiramos, e quisemos criar um veiculo para a pôr cá fora. Tivemos a ingenuidade de pensar que conseguiríamos fazer tudo nós. Uns anos depois, funcionou.

Uma das coisas que fiquei mais surpreendido por descobrir foi do teu passado em ciências e engenharia. Achas que compartimentamos demasiado, entre arte e ciência?
Acho, acho. E acho mesmo que é no cruzamento das coisas mais díspares que estão, ou nascem, os objectos interessantes. Não estou com isto a querer estabelecer comparações nenhumas, absolutamente nenhumas, mas quase todos os vencedores de prémio nobel tocam um instrumento. De todo alguma comparação, é só um caso a expor.

E o que faz o teu espaço de trabalho teu?
Bem, foi desenhado por mim, para satisfazer as minhas necessidades, e tudo o que preciso está sempre ao alcance da mão.

É diferente de outros que vi. Tu construíste o teu escritório e a tua sala de gravações nos mesmos dez metros quadrados.

Isto não corresponde ao estúdio convencional, onde normalmente tens uma sala com músicos e uma sala onde gravas. Nós aqui fazemos tudo na mesma, porque imagina que estou a trabalhar uma ideia que gravei e quero logo ter este synth ligado para o gravar na hora e não ter de chamar o teclista e dizer-lhe “Agora vai para a outra sala e grava isto aí.”

Quando foi a última vez que te deparaste com algo transcendente?
Acho que é uma pergunta pertinente. Acho que o maior erro que as pessoas cometem ao crescer é perder a capacidade de serem surpreendidas e maravilhadas. Acho que o crescimento é cruel porque consiste em limar os nossos receptores de estímulos; quando chegamos a velhos já vimos tudo, e estamos bué blasé. Eu obrigo-me a eliminar preconceitos e qualquer tipo de cinismo que possa ter em relação à arte, ou mesmo qualquer aspecto da vida.. Tento ser o mais infantil possível no que diz respeito a absorver a realidade. É algo que também os cientistas têm, assim como os músicos, e que muitas vezes espanta. Sempre que conheci gente que admiro, um traço recorrente serem capazes de ficar maravilhadas.

Procuras ficar surpreendido?
Sim. Não procuro no sentido de sentar-me e dizer surpreende-me, mas quando vou, por exemplo, ver um filme que é uma sequela de um filme que vi com seis anos, tento sentir-me uma criança com seis anos outra vez. Porque se tentar ver algo que me bateu com seis anos com a mentalidade de alguém com trinta e dois, vou estar carregado de um cinismo que me vai impedir de ter essa experiencia de novo.

Ainda sobre arte e ciência… Escolheste bem?
Sou feliz, por isso sim.

Entrevista por Gil Sousa

Fotografia por Matilde Cunha