O Gil encontrou-se hoje na esquina com o artista plástico Pedro Inock.

Deu nisto :-)

Com o que é que vais à bola?

Acho que aquilo com que vou mesmo à bola, ou aquilo a que reajo bem nas pessoas , é a honestidade intelectual. Porque acho que a forma do fazer, o devir da construção do trabalho diário e a forma como ele é feito, depois… Vou muito a bola com isso porque uma pessoa nunca vai exagerar a forma como faz as coisas; fá-las e elas têm o seu valor intrínseco. E essa honestidade do fazer, em qualquer profissão, seja nas artes plásticas, sejas nas letras, matemática, uma pessoa faz as coisas porque tem de as fazer; e isso é importante, sobretudo nesta crise de valores que atravessamos. Acho que — aliás, essa mesma honestidade intelectual é sempre um derivado de uma predisposição, de discussão, de abertura, e isso é o espírito que já nos vem do período pré socrático.

Qual foi a última vez que testemunhaste algo de transcendente?

Eu tenho sempre uma dificuldade grande em acreditar em algo acima de nós, que nos controla a vida. Aliás, todos os dias temos provas do contrário, mas, no meu caso, a questão de transcendência, a questão de nos conseguirmos aproximar do limite do etéreo sem nunca o tocar, acho que passei por ela dentro de uma máquina de ressonância magnética. Eu fui fazer uma ressonância, e estava extremamente nervoso e mexia-me, e a ressonância durou, e durou, e durou. Aquilo é ensurdecedor. Aquela cadência da maquina, aqueles barulhos, aqueles sons completamente estranhos, mecânicos. Mas voltando à cadência; é tão constante, tão…. não sei. Estou a tentar encontrar termos para isto, mas foi de facto uma experiência de que eu saí a dizer ‘Tenho de repetir isto.’ Senti-me de facto próximo de alguma coisa. E obviamente que isso deu origem ao começo de um trabalho. E… Pronto, não posso dispor de uma máquina de ressonância magnética todos os dias, mas enfim, foi das coisas mais… sei lá. Estranhas. Transcendentes.

Qual é o teu espaço predilecto?

O meu  espaço predilecto é o espaço onde consigo estar confortável o suficiente para trabalhar. Eu para trabalhar preciso de muita paz, muito conforto . Há sempre aquela distinção entre o sítio e o lugar: o lugar é onde te sentes bem, onde crias as memórias. Não vou cair na redundância de dizer que é o sítio onde nos sentimos nós próprios, mas pronto, nós próprios somos o trabalho, o trabalho é nós. Desde que o possa executar e partilhar, o espaço será uma casa, um atelier, um monte deserto, onde eu me sinta bem a receber aqueles que me são mais queridos, e onde aqueles que não são também não me afectam se la estiverem. Será um sitio onde posso praticar o meu trabalho e fazê-lo de consciência limpa, tranquilo. Voltamos à questão da honestidade intelectual; é preciso calma, é preciso serenidade, e o lugar que me permita ter isso será o meu favorito.

Fala-me de uma história em que penses, que te tenha marcado.

A história que mais me marcou é uma história que ainda está a ser escrita: a história dos meus pais, e o percurso que eles tomaram desde pequenos, as pessoas que os antecederam e formaram, porque eles, ao fim e ao cabo, serão o meu pilar. São quem me deu as ferramentas para eu pensar diariamente. E essa história, ao descobri-la, eu descubro a génese, a matriz, do meu desenvolvimento, consigo entender certas opções que tomo, e obviamente que continuando a desenvolver-se diariamente, é algo a que estando atento eu aprendo imenso, ando para trás, para a frente, e esta história é das ais bonitas que eu já vi. Regresso a ela recorrentemente, e tenho a sorte de ter os meus dois pais vivos, pelo que posso recorrer sempre a esse livro. Não ficou nada inacabado, posso pedir notas de rodapé que não li na altura, e obviamente é também um registo da minha vida. Portanto, esta é a história que me marca.

O que é uma ideia?

Uma ideia é liberdade de a ter. É a possibilidade do facto, não o facto em si. É exactamente isso: a possibilidade de algo existir e de nos podermos trabalhá-la. Quando eu falo de liberdade de pensamento, obviamente, falei há pouco da matriz, da génese. De facto, a liberdade é a matriz, a ideia e é o pensamento. Temos esta estrutura montada… Não quero dizer que a ideia é um conjunto de sinapses, nada disso. A ideia é um conjunto de elementos que vamos reunindo, e que, por alguma circunstância, por um clique, associação, déjà vu, se forma, e forma-se em abstração. Essa abstração é uma possibilidade, e a possibilidade, se quisermos, transforma-se num facto. Se não quisermos não perde mérito. Isto, para mim é uma ideia.

Entrevista por Gil Sousa