Hoje o Gil encontrou-se na esquina com o ilustrador Paulo Goulão, autor dos desenhos do documentário “Portugueses do Soho”, do nosso parceiro Arte Institute, exibido no CCB no passado dia 23 de Junho ;-) 

Com que idade te sentes?

Na realidade não me sinto com idade, não no sentido de um número. No trabalho artístico a idade não é um conceito relevante e como freelancer não espartilho o tempo como toda a gente que espera pelas 6 horas da tarde, da 6 feira, dos sessenta e tal para a reforma.

Qual foi a tua melhor ideia?

Sempre tive dificuldade em apreciar os meus próprios desenhos, como se os meus truques ou efeitos não me entusiasmassem porque já os conheço. Como um mágico que não se surpreende com os seu próprios truques. Mas desde sempre estes causavam reações nos outros.

Quando tinha 12 anos comecei a trocar os desenhos que fazia por brinquedos, com os meus colegas de escola. Ainda não sabia mas começou aí a minha actividade profissional como ilustrador.

Qual foi a última vez que testemunhaste algo de transcendente?

A noite passada e todas as anteriores. Criei um hábito, já não sei quando, de olhar para as estrelas antes de me deitar. Fico num relaxamento perfeito para adormecer. Olho-as durante uns momentos e acabo sempre por encontrar no firmamento três estrelas perfeitamente alinhadas. No meio de um polvilhado infinito de luzes estas estão lá, como que a impor uma ordem.

Conta-me a tua memória mais antiga.

Invariavelmente assalta-me a ideia de que a pessoa ao meu lado não está a ver a mesma paisagem que eu. Filtramos a imagem através do que somos cultural e geograficamente. Um caleidoscópio de imagens de vários observadores tendo como ponto de partida apenas uma. Qualquer situação também ressoa de maneira diferente em cada pessoa. Quando tinha 3 anos mudámos de casa, lembro-me das paredes nuas e dos ecos que uma casa vazia faz. A apreensão à mudança, que ainda hoje é recorrente em mim, deve ter nascido aqui.

Entrevista por Gil Sousa

Desenho do Paulo Goulão