O encontrei-te na esquina de hoje é dedicado ao Magafest que, no dia 10 de setembro, invade o Palácio Sinel de Cordes com muita e boa música. Hoje, foi com o músico Carlos Bica que o Gil esteve a falar ;-) 

Com que idade te sentes? 

Quando eu era um jovem imaginava que alguém com a minha idade actual já seria uma pessoa muita velha, agora que lá cheguei posso dizer que não é verdade. Kafka já dizia que qualquer pessoa que mantém a capacidade de ver a beleza nunca irá envelhecer. Na realidade fazer arte é sem dúvida um excelente método anti-age.

Como é isso dentro da tua cabeça? O teu imaginário?  

Tento ter uma atitude muito naif naquilo que faço, tentando que a mente enganadora não interfira com a verdade. Ser criativo é uma tarefa que implica um trabalho rotineiro, sem medos e sem expectativas. A grande dificuldade no processo criativo está em sermos capazes de diferenciar entre o que é lixo e aquilo que tem razão de existir.

Qual foi a última vez que testemunhaste algo de transcendente? 

O transcendente está sempre presente, só que a maior parte das vezes não somos capazes de o constatar. Fazer música é estarmos mais próximos do divino.

Conta-me uma história em que penses, a que regresses. 

Os meus primeiros concertos como músico em palco foram muito especiais e marcaram-me para sempre. Refiro-me à minha primeira audição enquanto estudante de contrabaixo na Academia de Amadores de Música, onde  só me recordo de ter acabado de tocar a peça quando ouvi as palmas do público. O outro episódio aconteceu quando dei o meu primeiro concerto de jazz. Foi na cave do restaurante Velha Goa, em Campo de Ourique, em Lisboa. No dia 29 de Setembro de 1981, eu que nem criança no dia de Natal, levantei-me da cama mais cedo para apanhar o comboio para Algés para poder comprar o semanário O Sete, que só umas horas mais tarde estaria à venda em Oeiras, onde eu vivia, e poder desfrutar do prazer de ver o nosso concerto anunciado num jornal, custava-me a acreditar que eu iria nos dias seguintes estar de verdade a tocar para um público. Essa sensação de poder partilhar música e a enorme responsabilidade inerente, foram desde logo uma paixão.

Entrevista por Gil Sousa

Foto por Vera Marmelo