Hoje é a vez do Gil se encontrar com a actriz e encenadora Isabel Machado ;-)

Qual foi a última vez que testemunhaste algo de transcendente?

Bom, como tudo, a transcendência pode ser uma coisa boa, má, assim assim… Eu diria que a última e a única coisa que posso chamar assim foi em Junho de 2013, quando a pessoa mais próxima de mim morreu. É quando muita coisa acontece, sabes? Não só à pessoa, claro, mas a ti, tudo muda em ti. Ultrapassas-te, passas os limites de tudo: de dor, de surpresa, de capacidades, cresces. Há muitas outras coisas que poderia lembrar-me mas creio que nada bate o que me aconteceu naquele ano e acho que tudo trabalha para a pessoa que passados três anos és. Desculpem lá não ter levado para a piada, já agora.

O que é uma ideia?

Boa pergunta. Tem que ser uma coisa absurda ou não vale a pena, se quisermos seguir o Einstein. A Isabel gosta de pensar em ideia como alguma coisa que vem de um vómito, de um soco no estômago. Quando são boas ideias, ou nos parecem ser, há qualquer coisa que cresce cá dentro, as borboletas que gostam de aplicar aos inícios de romances: eu prefiro atirar essa sensação para o início de qualquer coisa, que geralmente parte de uma ideia, e deixar ver até onde é que isso vai dar.

Qual é o teu lugar predilecto?

Pois, eu vou ter que dizer mar. Seja norte, centro, sul… Mar. Era para nascer em Peniche, infelizmente não tinham maternidade em Agosto de 1992 e fui recambiada para a Estefânia. Não nasci logo, acho eu. Ainda deu tempo para a minha mãe deixar uma carne assada no forno. Esperei pelo fim da tarde e aposto que vim cá para fora a pensar na praia que me esperava. Sempre vivi muito ligada ao Oeste, ainda hoje, e diria que o mar dali seja a minha casa, o meu “lugar predilecto”. Depois uma pessoa vai crescendo e vai querendo outras coisas, e de repente vives no centro de uma cidade mais ou menos grande, tens trabalho, fazes projectos e pensas que estás no sítio onde deves estar; mas há dias em que basta um cheiro, uma lembrança, uma música e cais na realidade, na tua realidade. E acho que a minha realidade é aquela, a do mar do Oeste.

Qual é a tua memória mais antiga?

Brincar nas poças de água em Peniche ou na Lagoa de Óbidos, ouvir o Beethoven ao longe a ladrar (como sempre), a minha amiga Catarina e ver a minha mãe a acenar para eu sair da água. Porquê? Porque já estava roxa. Lembras-te, Catarina?

Entrevista por Gil Sousa