O Encontrei-te na Esquina de hoje é dedicado ao Magafest que, a 10 de setembro, invade o Palácio Sinel de Cordes, em Lisboa, com tanta e boa música.

A Madalena Palmeirim também vai lá estar, mas não sem antes dar dois dedos de conversa com o Gil ;-)

Qual é a tua memória mais antiga?

Memória mais antiga… Boa pergunta. Não sei se será a mais antiga, mas das memórias mais fortes, deve ser do tempo em que tinha 3 anos, na altura do infantário; nós somos quatro irmãos, e era nas manhãs antes de ir para a escola… Ainda tenho aquela sensação muto vívida em mim: tomar o pequeno almoço, já estava a minha mãe a fazer almoço de madrugada, para levarmos para a escola… Portanto, essas manhãs e acordar, e depois sair a correr para apanhar o autocarro; o meu pai a pegar nos dois mais novos ao colo e os outros dois a correr atrás dele. Esse caos ainda está guardado com um carinho muito especial aqui dentro.
O que é uma ideia?
São… Tinha uma prof que dizia… Como é que era… As ideias são como as barbas: só as tens quando as deixas crescer. Eu acho que tenho muito esta visão de que as ideias se fazem, até porque por muito que tu consigas conceptualizar e esperar certo resultado, quando pões as mãos à obra ela mostra-se completamente diferente. Acho que as ideias são quando muito hipóteses.
Quando foi a última vez que assististe a algo de transcendente?
A última… Ah! 10 de Julho de 2016, a Selecção Nacional a ganhar o Europeu sem o Cristiano Ronaldo e com um golo do Éder. Não sei se querias apontar para algum contexto..? (riso) Mas é verdade que vejo isso todos os dias na música. Não sendo crente, embora tenha sido educada como tal, acho que vejo amais essa transcendência na música, na partilha entre quem faz e quem recebe. E acho que consegues ver isso quase como uma devoção emocional, e guardo isso muito mais perto de mim do que qualquer tipo de crença.
Conta-me, Madalena, uma história em que penses, a que regresses.
É capaz de ser a pergunta mais difiícil… (silêncio) Muito complicado escolher uma, e porquê. (silêncio) Posso pensar?
Bem, esta era a minha última pergunta… Mas pensamos os dois.
(pensamos)
OK: como é o teu imaginário?

Argh. Eu vou tentar. Inevitavelmente caótico, volátil, mas isso talvez seja o de todos? Como é que eu descrevo o inexplicável…? Gosto muito mais de que os outros me cataloguem se for necessário catalogar. Eu não tenho essa necessidade, de me definir. É uma pergunta interessante. Não deixa de ser um faz-de-conta, não é? Por um lado está muito ligado ao que tu és, por outro estás a esticar a realidade… É muito complicado de responder, e o máximo que consigo é adjetivar assim vagamente.

História?
Estava a pensar no sítio em que estou [Gulbenkian], e em como vivia o espaço cultural de forma muito forte. Lembro-me perfeitamente de quando acabou o ballet Gulbenkian. Na altura sob o pretexto de que o contexto, o panorama cultural tinha mudado muito, e que portanto iam reformular, e dar apoios a companhas portuguesas, etc. E não aconteceu nada. Um dos últimos sítios onde havia algum apoio e estabilidade para criadores portugueses, e foi assim arrancado. Eu tive uma tia que dançou cá, a minha mãe trabalhou no serviço de música, por isso lembro-me que foi assim um choque, depois de ver tanta coisa boa aqui, com tanta qualidade, com bailarinos tão bons. Criadores portugueses que vinham cá mostrar e trabalhar com condições… e olha. Foi um dia muito triste.
Entrevista por Gil Sousa
Foto por Ni Oh