O Encontrei-te na Esquina de hoje é dedicado à Supernova, o festival que promete levar arte para dentro da universidade, em pleno Campus de Campolide da Universidade Nova de Lisboa, a 17 de setembro.

O Gil sentou-se na Gulbenkian com o músico João Marcelo, mais conhecido por Éme, da editora Cafetra, para quem está reservada a escadaria da Faculdade de Economia e onde o Éme vai tocar.

Com que idade te sentes?

Pá, 24. É a idade que tenho. As pessoas dizem que sou um bocado cota para a minha idade, mas eu sinto-me… jovem. 24 são os novos dezanove, não é?

Conta-me uma história da tua vida.

Deixa-me cá pensar… eu que sou conhecido por estar sempre a repetir histórias, sempre que conto uma é… Pá,  eu já contei esta história? Mas deixa-me pensar numa do meu best of… (Pensa)

Queres passar à frente e já cá voltamos?

É melhor…

O que é uma ideia?

(Pensa) Não sei o que é uma ideia, por acaso.

Mas tens, de vez em quando?

De vez em quando tenho ideias, mas eu tenho sempre a coisa de pensar um bocado por regras. Por exemplo, lembro-me de uma coisa qualquer, e normalmente são coisas formais: formas de fazer, maneiras de as coisas correrem bem, e depois assumo isso como regra durante…

Isto são regras pessoais ou técnicas?

Pessoais e técnicas. É difícil… Lá está, eu trabalho com ideias, não é? Só que também trabalho com a minha vida. E às vezes é um bocado difícil pensar numa ideia no vazio. Numa ideia, vá, que se calhar nem existe propriamente, porque já fiz uma ligação tão grande com a minha forma de viver que uma ideia é quase uma acção, não existe de outra forma. Isto depois resulta em muitas ideias e pouca acção. Se tu achas que tens uma ideia e que estás a agir conforme – daí a cena da regra: tens uma ideia, depois assumes como regra, e a partir do momento em que a assumes já parece que estás a agir segundo essa ideia, e fica tudo um pouco confuso. Depois não sabes se estás a agir ou não… e olha, pode ser tudo um grande acaso. Não existe. É isso, resposta final: a ideia não existe.

O que queres preservar?

Não sei. Por um lado eu não sou muito conservador. Quer dizer, eu gosto de estabilidade, gosto de sentir que há um chão. O chão é uma coisa que eu curtia de preservar, ter um suporte para os pés, mas mesmo isso rapidamente pode desaparecer, por isso na verdade gosto de, gostava de preservar a minha existência e a das coisas que faço. É uma coisa boa para preservar. Existir não é fácil.

História. Só falta a história.

Esta história foi um amigo meu da secundária que era, é o Henrique, que tinha a mania de gravar as aulas, só a parte sonora das aulas com um dos primeiros iPods com câmara. Távamos numa aula e eu tinha uma professora de história, Ana Andrés, que era assim um bocadinho fora, e tava na aula a dizer que nos ia dar um pequeno lamiré de uma situação qualquer. E eu levantei o dedo e perguntei o que é um lamiré. E a professora de repente pôs uma cara furiosa e disse “Um lamiré?”. Não, aliás, ela pôs uma cara furiosa e começou logo a dizer “João, quem é que o João pensa que é para me tar a dizer o que eu devo ou não fazer na minha aula. Isto é uma situação inaceitável, e o João pode sair já. Vá para a rua com uma falta disciplinar…” E eu a dizer, “Desculpe lá, só perguntei” E ela gritava por cima. Nisto começou tudo a rir, não sei quê, eu já a ver a vida a andar par trás, e o Henrique levanta o dedo, e isto está tudo gravado, e diz “Professora, ele só perguntou o que era um lamiré.”. E ela sem mais nem menos: “Ah, um lamiré? Uma pequena amostra.” E pronto, acabou assim a situação. É essa a história.

Entrevista por Gil Sousa

Foto de Daniel Rocha

A Supernova é uma ideia da NOVA e do Gerador