Hoje o Gil encontrou-se com o Nuno Aleluia, vocalista dos esfera, para mais um Encontrei-te na Esquina ;-) 

Qual é a tua primeira memória?
Quando era miúdo, dormia imensas vezes na casa da minha avó. Lembro-me de estar a ter um sonho bastante vívido (sobre o quê…? Não me lembro ao certo…) e de ter acordado na casa da minha avó. Sei que não é muito espetacular, mas recordo-me disso com uma certa ilusão, quase como se tivesse sido o momento onde “me tornei”, onde ganhei consciência e comecei a viver… Apesar de já ter três anos!

O que é uma ideia?
Uma ideia… Hmm… É um momento de personificação: onde cada um de nós se apropria de um qualquer agregado de conjecturas, damos-lhe formas e feitios sobre uma interpretação inteiramente nossa. Por isso é que parece que umas nunca se param de repetir, porque já foram tidas por outras pessoas, o que faz delas ideias completamente diferentes. São uma coisa inseparável do processo criativo e, para mim, todo o processo criativo tem como modelo a intenção. É imensurável, eu sei, mas é a intenção que define qual o aspecto das ideias e de que maneira são nossas.

O que gostarias de preservar?
Gostava de preservar duas coisas: a minha identidade e o meu parecer da arte. Querer ser artista é sempre uma actividade egoísta: encontram-se grandes valores nas coisas que são nossas, valores que achamos grandes que chegue para merecerem ser partilhados. Em relação ao meu parecer da arte: quando crio música acabo sempre por lhe dar uma estética muito própria. Imagino que isso seja o meu parecer da arte, o que idilicamente acredito que a música devia ser.

Conta-me uma história.
Sempre fui uma pessoa dada a paranóias. Um dia, há uns anos atrás, depois de ter saído à noite com uns amigos, fomos para a garagem de um deles jogar vídeo-jogos, tocar guitarra, beber e fumar. E muito tarde, por volta das 6 da manhã, tive de voltar para casa sozinho: tive imenso medo do caminho, e fi-lo todo a olhar para trás do ombro. Quando cheguei à porta de casa, encontrei no chão imensos CDs partidos. Todos tinham datas e nomes… O medo e aparanóia  que me ocupavam olharam para aquilo e viram imensas coisas, coisas assustadoras. Deu-me um impulso gigante para procurar nos CDs um que não estivesse partido e encontrei um. Nem me lembro o que dizia, mas não interessava. Subi para casa e pus o CD no computador, tinha que ver o que tinha lá dentro: um ficheiro Word, com duas páginas escritas sobre marijuana, provavelmente um trabalho da escola, pela forma como estava escrito. Acabava com a frase “NÃO FUMEM MARIJUANA!”. Talvez houvesse aqui uma lição: podia ter aprendido uma lição espiritual, mas aprendi uma soberana grande lei do acaso ao invés.

Entrevista do Gil Sousa