O Gil encontrou-se hoje na esquina com o João Leitão, realizador do filme Capitão Falcão e da série televisiva Mundo Catita. O João vai estar no Trampolim Gerador deste sábado, dia 15 de Outubro, na sala dos ofícios dedicada a cinema a ensinar tudo o que sabe sobre realização.

Qual é a tua memória mais antiga?

Uma memória muito vaga do quarto dos meus avós num pequeno apartamento em Matosinhos. Não sei que idade tenho mas sei que ainda não consigo andar. Só morei lá entre 1982 e 1984, nos primeiros dois anos de vida. O chão é uma carpete azul que ainda hoje lá está. Lembro-me de estar sentado na carpete e sentir que tudo era gigante. É nesse mesmo quarto que o meu avô está agora a dormir, 32 anos depois, enquanto sofre de um estado avançado de Alzheimer. A minha primeira memória é da mesma divisão onde ele está agora a perder todas as suas. Nunca tinha pensado nisso até este preciso momento.

E o teu lugar favorito?

Tenho muitos lugares no Porto e em Lisboa a disputar este primeiro lugar, mas é provavelmente em Carreço (uma pequena freguesia de Viana do Castelo) em que me sinto melhor. Mas só se estiver rodeado de família.

Qual foi a última vez que testemunhaste algo de transcendente?

Há duas semanas atrás estive em Tróia num festival que adoro. Sem contexto nem explicação, quando entrei no quarto de hotel vi um homem adulto (de costas) a enfiar uma ameixa no próprio rabo. Quando se virou era um dos meus melhores amigos. Demorei 10 minutos a parar de rir. Pensei que ia morrer asfixiado.

O que queres preservar?

Já que não posso preservar todas as memórias, gostava de tentar pelo menos preservar a voz da minha família e amigos. Estou a preparar um projecto onde vou tentar fazer isso. A ausência de existência é inevitável mas quero lutar contra ela na mesma. Aterroriza-me a ideia de me esquecer da voz das pessoas que amo.

Entrevista por Gil Sousa