Hoe, no Encontrei-te na Esquina, o Gil conversa com Raquel André, autora e performer de Colecção de Amantes e Colecção de Coleccionadores ;-) 

Qual é a tua memória mais antiga?

Não sei se é de uma fotografia que me influenciou, ou se existiu mesmo, mas lembro-me de ser muito pequenina, com três ou quatro anos, a ver a minha boca por dentro, ’tár ali a ver como era tudo. Embora haja uma fotografia, ela não inclui eu a olhar assim para a minha boca, e lembro-me perfeitamente de estar assim à procura e ver que tinha coisas cá dentro.

Qual é o teu lugar favorito?

Pá, não sei, se calhar vou dizer só aquele de que tenho saudades agora — agora estou com muitas saudades do Rio de Janeiro. E… Foi o meu lugar favorito dos últimos seis anos, portanto…

O que gostavas de preservar no teu trabalho?

Acho– acho que a força das artes performativas é essa: é que não construo objectos. Tenho de fazer, agir, para que algo exista. Foi uma cena gira, quando estava a fazer o mestrado estava num grupo de artes plásticas e artes visuais. E nós tínhamos que apresentar trabalhos e eles apresentavam pinturas, músicas, objectos. E eu actuava, fazia, tinha de me implicar. Então essa ideia de preservação, com o meu trabalho, talvez seja só mesmo a experiência. Que as pessoas ainda de se emocionem, ainda se envolvam, ainda se questionem ao assistir a um espectáculo.

É bastante sobre isso que eu trabalho. Como guardar o efémero — daí a intimidade. Para mim a intimidade é o auge do efémero, o mais difícil de definir e de capturar. Como a nossa troca de olhares neste momento. Por mais que a gente fotografe não é o mesmo. Provavelmente vamo-nos esquecer, ou não, porque isso é outra coisa, o que fica e o que vai, mas há sempre uma parte que se perde.

Conta-me a última vez que testemunhaste algo de transcendente.

Talve porque ainda esteja muito presente, mas respondendo rapidamente. Esta sexta feira quando estreei a colecção de coleccionadores, aconteceu-me uma coisa que nunca me tinha acontecido em palco, que foi escapar-me, assim ficar sem chão, tive uma queda emocional. Já me tinha emocionado, já tinha chorado porque era necessário, mas algo assim tão directamente… Eu no espectáculo peço às pessoas que me dêem um objecto. Quatro pessoas levantaram-se, deram-me quatro objectos: uma moeda da Croácia, moeda da sorte, outra pessoa deu-me um pote de mel, outra deu-me uma carteira da Isabel Alves Costa, que foi a criadora das Comédias do Minho, do teatro Rivoli, do festival de marionetas do Porto. O viúvo dela deu-me a carteira dela, disse-me, “Se ela fosse viva ia adorar conhecer-te.” E outra pessoa deu-me uma fotografia tipo passe da filha que não fala com ela há seis anos. E–e tu fazes um espectáculo e isto acontece. E para mim é teatro, e ficção, não interessa, interessa só a experiência. E de repente temos cento e tal pessoas a assistir àquele momento, aquelas pessoas que confiam. Para o mim espectáculo acabou ali. Emocionalmente, atravessou-me. Era a estreia, na minha inocência eu achei que me iam dar uma caneta, sei lá. No segundo dia um rapaz deu-me o caderno pessoal dele, cheio de notas do último ano. Para mim foi transcendente, sim. Tu ’tás em palco, tens aquela máscara, está preparado, e deram-me algo de que não dás conta, que é a experiência. E quando isso te dá a volta… Escapou-me tudo. Tive uma quebra.

Entrevista por Gil Sousa