Hoje, no Encontrei-te na Esquina, o Gil está à conversa com a repórter Carolina Rufino ;-)

Qual é a tua memória mais antiga?

Começamos bem, Gil. O documentário “David Lynch – The Art Life” também começa assim.

Por entre o enevoado onde residem as memórias do passado, acho que a minha memória mais antiga situa-se nos meus três anos e pouco, quando parti um braço, estava sozinha. Lembro-me da sensação, não da dor, mas da consciência de estar sozinha. Apareceu o filho de uns amigos dos meus pais, e levou-me ao colo até casa. Lembro-me desse colo e de estar a tocar à campainha do prédio, sim, disso lembro-me tipo imagem fotográfica. E depois o cheiro da relva recém cortada, da terra molhada pelas primeiras chuvas e do cheiro das dunas. Dizem que as nossas memórias mais fortes são as associadas ao cheiro. Para mim o cheiro a relva cortada é sempre uma viagem no tempo…Alemanha, início dos anos 80. O cheiro a terra molhada transporta-me ao campo onde fui criada, às brincadeiras de criança e o cheiro das dunas leva-me até aos tempos de adolescência, da efervescência e alegria de estar com os amigos e à memória dos primeiros beijos.

Qual foi a última vez que testemunhaste algo de transcendente?

Os testemunhos mais sublimes são aqueles que mexem diretamente com as nossas emoções, aqueles que presenciamos quando abandonamos os porquês, e nos colocamos frente às coisas sem filtros. Talvez a Natureza seja aquilo que de mais transcendente exista…o mar, as montanhas, os bosques e arvoredos, o céu estrelado, a neve, as quedas de água, o frio gelado na cara num dia de inverno, os pés descalços num campo de geada, a água quente dumas termas…a Arte, fruto da natureza de criatividade humana…e o silêncio.

O céu estrelado mais bonito que conheço é aquele que se situa por cima da casa dos meus pais, no campo, em Tavira. Talvez seja o mais deslumbrante por ser também, talvez, aquele que mais vezes tive o privilégio de observar. Nas noites de verão, é inevitável, antes de entrar em casa não deitar os olhos ao céu e ficar uns minutos a usufruir daquele espetáculo de luzes. É maior que eu, é mais que eu, transcende-me, mas ao mesmo tempo sinto que faz parte de mim, que caibo nele, pertence-me e guardo-o em mim.

O que é uma ideia?

Isto está mesmo muito Lynchiano, oh Gil?! Temos que conversar, sem ser à esquina…“Catching the big fish”.

Identifico três tipos de “Ideias”: a Ideia como pensamento (sendo toda a torrente de informação que povoa a nossa mente diariamente, incessante, ininterrupta, constante, em loop…), a Ideia como inovação/descoberta/novidade (pertencente às mentes mais idiotas, aquelas que do comum fazem nascer o novo) e a Ideia como memória (o quando “tenho a ideia que…” ou “não tenho ideia”).

No campo das novas ideias, acredito, que as grandes ideias partem sempre das premissas mais simples, duma atitude humilde e de disponibilidade, como o estar constantemente aberto e permeável ao que te rodeia, colocando as questões mais simples e espontâneas, numa atitude de criança. É nesse encontro de ti com o exterior a ti, que nasce a magia das coisas novas.

E conta-me uma história em que penses, a que regresses, por favor. 

Como um sonho febril? Aqueles recorrentes de quando estamos com febre?!

Regresso sempre, porque transporto em mim, as histórias com aqueles que conheço (ou conheci), que amo (ou amei), ou que mesmo não conhecendo, admiro, como os cineastas, músicos, escritores, encenadores…As pessoas, sempre as pessoas. Seria tão injusto enumerar só uma história.

As histórias em que penso e a que regresso têm sempre a ver com pessoas, lugares. Como o que uma vez vi definido como um sistema circulatório fora do nosso corpo: os nossos corpos com veias para fora deles, ligadas a pessoas e lugares especiais de que gostamos. O coração que bate no nosso peito como o reflexo de todos outros nossos corações, que batem em tantos lugares e tempos diferentes. Uma outra noção de anatomia…

Entrevista por Gil Sousa