Daniela Ferreira é uma jovem ilustradora que se rendeu à paixão pela ilustração. Autora da crónica Postais de Pescada no Gerador, foi também aluna do Faísca Gerador, de onde surgiu o livro que ela lançou durante a Birra da Cerveja, “Hoje é o Dia”. O Gerador aproveitou para passar pelo lançamento para falar com a Daniela.

“Hoje é o Dia” descreve um dia de um senhor atormentado pelo demónio da depressão em que decide que aquele é o dia em que se vai matar. Está decidido. Mas a sua determinação é abalada por algo que lhe chama a atenção. É distraído pela música abafada de um bar clandestino situado num beco solitário da cidade. Ele entra e lá, fica em paz. Mas chega a hora de fechar e o demónio reaparece. Está a ficar novamente profundamente infeliz mas, ao menos, no final, ainda tem forças para colocar a máscara do consolo e escolher sobreviver mais um dia. O livro já está à venda aqui.

Como descobriste e a tua paixão pela ilustração?

Toda a vida desenhei, mas não enveredei por essa área naquela idade em que temos de escolher uma área. Gostava mais de escrever do que desenhar e, então, acabei por escolher deixar o desenho parado durante muitos anos. Depois, há cerca de uns três anos, voltei a desenhar e reparei que era isto que eu gostava de fazer. Entre rabiscos e assim fui tirando alguns cursos e agora tenho andado a desenhar bastante e com muito gosto.

Como surgiu a ideia para a história deste livro? Foi uma forma de juntares as duas paixões, a da escrita e a do desenho?

Não, porque isto é uma espécie de BD, mas tem muito pouco de escrita. Na realidade, foi muito natural. Apenas me lembrei desta história. Gosto muito de desenhar a preto e branco, a cor para mim ainda é difícil, e com o meu traço acho que faz mais sentido o preto e branco. O Hugo (professor de ilustração do Faísca Gerador) ia dando sugestões. Dizia, ‘olha, vai ter de ser um livro’ e tal, e então pensei em fazer uma espécie de BD. Sempre tive na ideia que queria tudo mais para os cinzentos e como tinha feito o meu outro projeto, os Postais de Pescada, com tudo colorido e com piada, queria agora uma coisa um bocadinho mais séria. Depois lembrei-me de nós na vida. Isto é uma espécie de hipérbole da vida. Isto é um senhor que se quer matar. Ainda não me deu para isso (risos), mas surgiu porque nós na vida estamos sempre assim muito atarantados, um bocado dormentes com a vida. E há pequenas coisas que nos fazem continuar. Neste caso, escolhi a música porque é uma coisa que, de facto, é aquilo que gosto de fazer. Todo o dia estou a ouvir música. E eu gosto muito de desenhar bandas de jazz e foi por aí. Então depois pensei, pronto é um rapaz que decide viver mais um dia porque teve ali aquele bocadinho que lhe deu energia para passar.

Esta tua relação com a música é só como ouvinte ou tens mais alguma relação?

Não, não. Sou só ouvinte, mesmo. Há um arrependimento imenso em eu não saber música, mas…

Ainda vais a tempo!

Talvez (risos). Mas gosto mesmo muito de música e, para mim, a música diz-me muito. É a evasão do dia-a-dia, mais do que outra coisa qualquer. Mais do que passear, cinema, gosto de tudo o que tenha a ver com arte, mas a música realmente está mesmo presente na minha vida. Então lembrei-me disso! Eu fico contente quando estou a ouvir música e ver bandas e concertos, foi por aí.

Tens um gosto especial pelo jazz?

Não. Eu oiço todo o tipo de música, vou do pop até ao clássico, às vezes. O jazz é uma coisa que tenho estado a redescobrir. Nos últimos dois anos tenho estado a ouvir muito, às vezes ainda vou ao Hot Club. É uma coisa que uma pessoa tem bastante de aprender a ouvir, mas tenho estado a gostar. Sou daquelas pessoas que não consigo dizer, ‘epah não gosto nada disto’. E o jazz para mim tem a ver muito com o meu gosto pelos instrumentos de jazz e de desenhá-los. Foi sobretudo isso.

E as expressões dos músicos, não sei se já reparaste, mas nunca vi em nenhum género musical tantas expressões, tantas trocas de olhares.

É incrível! O pianista está com uma postura, o trompetista está com outra, o contrabaixo, que adoro… O jazz é um género de música que tens de aprender a gostar. Oiço aquele mais comercial. Não sou daquelas pessoas que gosta de estar duas horas a ouvir jazz de improviso. Gosto se estiver a fazer alguma coisa. É sobretudo pela expressão que eles fazem que eu acho incrível e gosto muito! Gosto muito dos instrumentos.

O que é a máscara do consolo?

É exatamente aquilo que te faz continuar, não é? Sou uma rapariga muito bem disposta, mas tu não sabes como vou estar por dentro. Posso estar triste. Nós, no dia-a-dia, não estamos constantemente contentes. Lá está, no “Hoje é o Dia”, apesar da depressão estar a voltar ele fica mesmo, ‘epah vou pôr outra vez a máscara, vou aguentar mais um dia’. É mesmo a máscara da vida. Nós fingimos que estamos aqui a sorrir e, no entanto, se tu sorrires a vida torna-se um bocadinho mais fácil. Não sei se para ele no próximo dia vai ser, não é? Deixei tudo assim em águas de bacalhau, vamos ver.

Que técnica usaste para traçar esta narrativa?

É uma BD não convencional, não tem os quadradinhos e assim. Usei aquilo que eu gosto mais de usar, que é o pincel. Daí o meu traço ser tão incerto. É o que o meu pai diz, ‘então já sabes desenhar à Leonardo Da Vinci’? Não, pai. Faço bonecos de uma forma incerta. É como calhar. Depois é pouca cor, tudo à base dos cinzentos. Usei caneta também, lápis de cor e pastel. Gosto muito de misturar várias técnicas. Tenho ali alguns desenhos em que usei pincel, pastel e lápis de cor.

Quando dizes pincel é aguarela?

Sim, ou tinta-da-china.

Foste aluna do Faísca. O que sentes que essa experiência te trouxe?

Foi muito bom, porque foram dois ou três mesinhos e eu vinha doutro curso de um ano. O curso o ano passado deu para eu descobrir o traço. Agora com o Faísca foi bom, porque consolidou o que eu gosto de fazer. Depois, gostei muito de estar a conhecer as outras pessoas e ver estilos completamente diferentes e que são incríveis. Foi muito bom, foi conhecer e consolidar o meu traço. Descobri mesmo aquilo que eu quero fazer. O ano passado estava muito a experimentar coisas e agora já sei como vai ser o meu traço.

Mas diz-me Daniela, “Hoje é o Dia”?

O que dizem os teus olhos? (risos). Hoje é o dia em que eu vou mostrar pela primeira vez uma coisa que eu fiz com muito orgulho. À parte de outros projetos que eu tenho, este foi em formato físico e é muito bom estar a dar frutos assim. As pessoas têm de perceber que isto demora tempo. É pesquisa, é traço, é rabiscos por todo o lado antes de chegares a uma coisa que tu queres e te sentes feliz por ter. Hoje é o dia que eu espero ser o primeiro do resto dos meus dias como ilustradora.

Entrevista por Andreia Monteiro
O Gerador é parceiro da Birra da Cerveja