No terceiro e último dia da Birra da Cerveja, o “Mitos rurais. Do lobisomem à bruxa”, o projeto que o Gerador acompanha desde os primeiros passos, marcou presença com uma tertúlia (com ilustradoras e contadoras de histórias incluídas) e estreou um documentário. “A partir de que momento é que tudo isto se tornou tão grande ao ponto de chegar a Lisboa?” podia ser um bom pretexto para conversarmos com a Elisa e o Jorge Pedro, dois dos mentores do “Mitos”, mas havia ainda muitos outros aspetos que gostávamos de ver melhor com eles, desta vez sentados, e já com algum distanciamento das iniciativas que têm vindo a organizar. 

 

“Mitos rurais. Do lobisomem à bruxa” foi o nome que escolheram para este projeto. Acreditam que se trata realmente de mitos?

Elisa: Mitos foi um nome que encontrámos para que, de certa forma, as pessoas pudessem de imediato relacionar-se com isto, encontrar um conceito que lhes fosse próximo. Normalmente, ouve-se falar de “mitos urbanos”. Mas de “mitos rurais”, não. E depois chegámos ao subtítulo, “Do lobisomem à bruxa”, para as pessoas perceberem do que é que estamos a falar, que são as coisas que acontecem na aldeia, um imaginário que todos recordamos imediatamente porque está presente nas lendas ou mesmo nas histórias que os avós nos contavam antes de irmos para a cama, e que toda a gente nega mas, na verdade, acredita um bocadinho. Agora nós, como produtores do projeto, aquilo em que acreditamos é que existe um imaginário incrível que se desenvolveu à custa das condições de vida das pessoas naquela altura.

Era mais fácil as pessoas criarem a sua própria explicação para aquilo que as rodeava mas que não entendiam?

Elisa: Sim! As pessoas têm muito essa necessidade de racionalizar aquilo que lhes acontece. E é aí que vêm à baila as bruxas, as bentas, os lobisomens…. Era algo a que elas se agarravam quando lhes falhava o resto. Por tudo isto, sim, nós acreditamos muito nos mitos como forma de chegar às emoções das pessoas. É verdade a relação que estabelecemos com as contadoras, é verdade a emoção com que elas as contam. No nosso caso, nós somos pessoas muito “familiares”. Vimos da Beira Interior, que é um lugar sobre o qual, por vezes, se costuma dizer que é de onde vêm as avós de Portugal. E lá, a tradição é muito essa de estar à lareira, a ouvir essas histórias. Entre nós, podemos dizer que todos passámos muito tempo fora, viajámos muito, mas todos sentimos que tínhamos esse sítio para onde voltar, essa sensação de voltar às raízes. Portanto acaba por ser muito importante voltarmos às histórias que crescemos a ouvir, e não queremos que isso fique só para nós. Queremos, isso sim, que as avós continuem a contar histórias aos netos, e é no fundo essa a nossa homenagem.

E quando essa vontade se perder?

Jorge Pedro (JP): Não se vai perder, é por isso que vem este projeto.

Porque nós vamos contar continuar a contar as mesmas histórias que nos contaram aos nossos netos?

JP: Eu não acho que vamos contar as mesmas histórias aos nossos netos no futuro, não. Quando digo que não se vai perder é no sentido de passar a estar registado e de podermos reproduzir um dia, mais tarde, para explicar a alguém mais novo da família:  “Olha, esta foi a nossa história familiar. É daqui que tu vens.” É normal que ele ou ela não acredite, mas é preciso explicar que naquele tempo as coisas eram assim e que para aquelas pessoas aquilo era verdadeiro. E teres um registo audiovisual é ótimo para mostrares a uma geração que já não vai estar nada ligada a este passado, tendo na mão uma prova que isto existiu e que houve quem tenha vivido assim.

Elisa: Isto não se perde, porque as pessoas morrem, as histórias ficam, e as pessoas continuam a viver através das histórias que deixam. É uma forma que temos de fazer os nossos avós viverem.

JP: Mas nós não estamos a fazer este projeto porque elas vão morrer, e isso é muito importante que fique claro; estamos a fazê-lo porque é preciso registar isto para continuar a transmitir esta cultura.

Estes mitos são as histórias das gentes da vossa terra, das vossas origens. Sei que cresceram a ouvi-los, mas gostava de perceber se foi algo que sempre teve o vosso interesse ou esta admiração toda surgiu apenas mais tarde?

Elisa: Eu acho que toda a gente passa por uma fase parva, e eu, obviamente, também passei por isso e tive uma altura em que não queria nada saber disto. E depois também já tinha ouvido tanta coisa contada pelas minhas avós que acabei por me desinteressar. Entretanto, chega um momento em que percebes que elas vão desaparecer. (Hesita) Nós vivemos num tempo em que tudo é muito efémero. O nosso feed das redes sociais, que nos alimenta muito, é extremamente efémero, porque aquilo que hoje foi viral amanhã já ninguém se lembra. Mas estas histórias, não. Elas estiveram lá sempre, prevaleceram. No caso do Jorge Pedro sei que é uma experiência um bocadinho diferente.

JP: É verdade. Eu desde muito novo que me lembro de passar horas a fio a conversar com a minha avó sobre… Tudo. Sobre todas as histórias mesmo. Da minha família e dos outros. Saber de onde é que venho sempre foi uma das minhas preocupações, provavelmente porque também fui muito cedo para fora e descobri que não sabia bem o que é que era. Mas mesmo antes disso, enquanto estudava em Portugal, mais ou menos com 13 ou 14 anos, lembro-me perfeitamente de estar sentado no sofá com a minha avó e de lhe fazer tantas perguntas! Tantas, que ela ainda hoje me diz que eu sou um chato, que estou sempre a perguntar quem é que era aquele, o que é que ele fazia. Porque, lá está, eu gosto muito de conhecer as relações entre as pessoas, como é que se estrutura uma aldeia. Quem é que é quem. Portanto, isso sim, essas teias de relações eu sempre procurei conhecer, não estas histórias mais “fantásticas”, estas histórias são mais recentes, é verdade.

Este projeto começou por ser uma residência artística com vários ilustradores, no âmbito da Ilustrada. Vocês lembram-se a partir de que momento é que ele se tornou em algo maior dando origem, por exemplo, a um documentário e a uma tertúlia aqui em Lisboa?

Elisa: Acho que foi a partir do momento em que fizemos a primeira exposição na Covilhã, a mostrar aquilo que tinha sido a residência artística. E um pouco à semelhança daquilo que aconteceu hoje aqui, levámos as senhoras contadoras de histórias até lá a replicar algumas das coisas que tinham partilhado com os ilustradores. E quando eu olho para a plateia, vejo as pessoas completamente embevecidas. E eu percebi: este efeito não se provoca só em mim. Existem aqui outras pessoas que sentem o mesmo. São as tais conexões que falava há pouco. As pessoas precisam muito do sentimento de pertença.

(O JP interrompe e diz algo). Gostavas de acrescentar alguma coisa?

JP: Sim. É que a minha visão é completamente diferente da Elisa. Estas histórias, estas senhoras, para mim, sempre foram o meu dia-a-dia, e por isso eu nunca questionei se elas eram importantes ou não, porque para mim era básico para as pessoas viverem saberem aquilo que são. Portanto, a dimensão do projeto, em si, eu nunca questionei. Eu comecei foi a achar que o projeto estava realmente a crescer muito quando, de repente, muitas pessoas vinham ter connosco a abordarem-nos, do género: “Mas vocês estão mesmo a fazer isto? Não é só uma ideia? Estão mesmo a levar as velhinhas a contar histórias?”. Foi aí, quando as outras pessoas de fora, que, aliás, a mim nunca me importou o que é que pudessem pensar, começaram a interessar-se por isto, que percebi que isto podia crescer.

Porque é que as pessoas de fora não podiam entender aquilo que vocês estavam a fazer?

JP: Há vários fatores. A tecnologia é um deles, que distancia as pessoas do património imaterial. Ou seja, da oralidade.

Estás a querer dizer que, à partida, as pessoas não teriam interesse em querer deslocar-se para ouvir e conhecer pessoalmente as contadoras?

JP: Sim. Para quê quererem saber as histórias de alguém que nem sequer conhecem? Esse é um dos fatores. Depois a questão da estratificação etária, que está muito desvalorizada, e com isto falo da falta de interesse pelos idosos. É uma população que é muito esquecida. O que me fazia muitas vezes pensar que as pessoas à minha volta não tinham a mesma perspetiva que eu.

Já falámos das pessoas de fora. Mas e em relação às pessoas da terra, como é que eles acolhem as vossas ideias? Não acham que algumas são “maluqueiras”? Imagino que muitas vezes vos perguntem já um ar de cansados “O que é que aí vem hoje?”.

JP: (Risos) Sim, essa é, de facto, a pergunta que mais vezes oiço. As pessoas do Paul são mesmo muito estranhas. E digo estranhas porque são pessoas muito tradicionais, muitas delas que viveram a fome, a guerra, o azeite que dava luz, e hoje vivem coisas muito diferentes mas conseguiram adaptar-se muito bem. A minha avó, por exemplo, passou por isso tudo, e há uns anos estava a falar comigo por Skype. Ou seja, a meu ver, existe um carinho muito grande pelas pessoas que lhes trazem novas ideias. O que explica muito elas aderirem a tudo isto, porque realmente têm um carinho muito grande por mim. Acredito mesmo que se não tivessem, se calhar eu era para elas só um louco.

Elisa: Eu acho que, obviamente, a relação que o JP tem com elas é fundamental neste projecto. Mas eu, que não sou do Paul e caí lá de pára-quedas, posso dizer que testemunhei ali um case study porque eles têm uma enorme capacidade de acolhimento. Por exemplo, estamos a falar de um vila que é muito musical, e nós tentámos que isso passasse no documentário.

Sim, sim. Ainda hoje na tertúlia, quando chegaram ao palco, antes mesmo de começaram a falar, começaram a cantar.

Elisa: E isso foi totalmente espontâneo, não foi nada que tenhamos combinado com elas. Aconteceu-nos o mesmo nas filmagens, e, lá, está, quando andava por lá nas ruas. E isso não é normal! Isso não acontece em qualquer aldeia ou vila deste país. E o espírito de associativismo, também é muito forte e contribui para esta predisposição.

“Não queremos que nada se desfaça ou que se perca no tempo”, foram as palavras da Ana, que não pôde estar presente hoje, e que A Elisa leu há pouco no auditório. Têm uma ideia do plano que querem seguir para que isso assim se cumpra?

Elisa: Temos objetivos, que tentamos concretizar através de planos, que são também a materialização dos nossos sonhos. Mas, já aprendemos também que tudo pode acontecer. Nós há 5 meses não imaginávamos que isto se consolidasse desta forma, e aconteceu. Daqui para a frente, mais concretamente, queremos recolher mais histórias, em várias outras aldeias, ter muitas ilustrações. Mas em algum momento, acho que vamos voltar a mudar de rumo porque sabemos que o projeto tem vida própria.

JP: A isso não tenho nada a acrescentar.

Elisa: (Risos) Foi a primeira vez que o Jorge Pedro ficou sem palavras!

Texto por Madalena Massena
Fotografias de Andreia Mayer